"Use a erudição como se fosse um relógio de bolso: não saque ela para mostrar as horas, mas diga que horas são se alguém lhe per...

Professores-deuses

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"Use a erudição como se fosse um relógio de bolso: não saque ela para mostrar as horas, mas diga que horas são se alguém lhe perguntar" Lord Chesterfield
Tenho pensado no valor do conhecimento e no seu propósito social, principalmente quando este é manifestado na condição de professor. A minha preocupação é quando o conhecimento torna-se vaidade e, por conseguinte, arrogância e instrumento de humilhação.

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Não poucas vezes, vi alguns docentes fazerem uso de seus estudos para se vangloriarem dos seus feitos, utilizarem o tempo da aula para se justificarem como profissionais. Descreverem seu currículo ou menosprezarem as leituras que o aluno também carrega. Será isso realmente necessário?

A psicanálise explica que quem precisa dessa autoafirmação é, na verdade, quem mais se sente medíocre – tem “complexo de inferioridade”. Quem realmente é não precisa ficar se explicitando, os outros perceberão. Levo comigo o pensamento de que “erudição deve ser igual a relógio de bolso. Não saio mostrando as horas a todos, mas se me perguntarem, digo”.

Mas, infelizmente, há professores que preferem se autorreferir a proferir o saber. A única coisa que professam é a própria prepotência. Estes são denominados professores-deuses. São esses que enxergam os discentes como inimigos/concorrentes. Qualquer intervenção de um aluno é considerada impertinente, pois a este não cabe lugar no pódio.

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Os professores-deuses não admitem que o aluno tenha um lugar na tribuna do saber. Não reconhecem que “o mundo do conhecimento dá uma guinada louca quando os próprios professores são ensinados a aprender”, como disse Bertolt Brecht. Professores-deuses são estrelas que se autoiluminam e tentam ofuscar o brilho de quem os rodeiam.

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Professores-deuses criticam os seus alunos em público, sujeitando-os à humilhação, não aceitam que os discentes possam ter ideias tão boas quanto às deles, subestimando a maturidade dos discentes.

Professores-deuses não entendem que ensinar e aprender são trabalhos em progresso e incorrem em exigir dos alunos competências que ainda não tiveram oportunidade ou tempo para obter.

Professores-deuses reproduzem as piores posturas e tratamentos que receberam durante a sua formação. Acreditam que seus alunos devem sofrer as mesmas penas que sofreram. Professores-deuses não admitem os próprios erros, não pedem desculpas e, quando não sabem de um assunto, preferem ignorar a pergunta do aluno, dando desculpas do tipo “não vamos falar sobre isso agora”, “vamos manter o foco da aula” ou “isso nós veremos mais à frente”.

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Professores-deuses têm pés de barro e se afogarão na sua soberba, por levarem a docência como um mero emprego, por não se permitirem aprender, por não serem humildes e polidos; tendem a prestar um desserviço à educação, reproduzindo uma política academicista e selvagem na qual prevalece a ordem de que ser o melhor é não largar o poder, não dar direito de voz ao próximo. Este quadro perverso que ainda existe na academia, infelizmente.

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