O escritor é um caçador de palavras. Suponho que a busca da perfeição da escrita seja a meta do escritor. Se a escrita perpetua o pensamento, registra os momentos observados, nisso consiste a sua importância: buscar palavras que deem perfeição ao texto. Ao escritor cabe construir caminhos para o leitor passar e entender o que está sendo descrito. Sem embaraço.
Retrato de Gustave Flaubert ▪️ Arte: Eugène Giraud, 1856 (Museu de Versailles)
Essa perfeição atormentava Flaubert, escritor francês que produziu romances referenciais na literatura universal do século 19, como Madame Bovary. Esteta da palavra, ele buscava o texto solto e leve, mesmo que seus passos fossem lentos na escolha dos vocábulos.
Alguns estudiosos já falaram sobre esse assunto, e nada acrescentaria, não fosse a certeza de que escrever é uma das mais belas artes.
Muitos têm seu modo de buscar o melhor texto. Graciliano Ramos usava o método das lavadeiras de roupa do seu sertão. Sem demérito das mulheres sertanejas do tempo do escritor, no Brejo muitas alvejam roupas de modo sublimar. Estas lavam, enxaguam, tornam a lavar, deixam no quarador. Ensaboam novamente e, então, botam para secar.
Com relação à produção do texto, seguimos esse roteiro do escritor de Alagoas? Mesmo que escrever seja uma luta inglória, devemos seguir os caminhos do autor de Vidas Secas. O escritor francês Buffon dizia que “as obras bem escritas serão as únicas que passarão à posteridade”.
Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon ▪️ Arte: François-Hubert Drouais, 1753
Nos meus primeiros passos como repórter, Agnaldo Almeida orientava os iniciados na redação a reescrever o texto quantas vezes fossem necessárias para atingir a clareza. Recomendava a leitura de Flaubert, mestre da escrita enxuta, para depurar o estilo.
Carlos Nejar ▪️ Fonte: mis.rio/GD'Art
“Essa luta não é para abolir as palavras, mas para melhor ajustá-las”, escreveu no seu Caderno de Fogo – Ensaios sobre poesia e ficção. Essa citação me chamou a atenção.
Antes, quando não existia o Cosmos, tudo se formou porque Deus existia. Pela Palavra, tudo se originou. A Palavra se fez carne e habitou entre nós, na pessoa de Jesus Cristo, para que conhecêssemos a Palavra que tudo criou.
A palavra constrói a pátria. Foi com a Palavra que Camões e Fernando Pessoa construíram a pátria Portugal. Foi pela palavra que Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Augusto dos Anjos ajudaram na construção do nosso país.
Esses autores emolduraram a pátria com o uso da palavra, fizeram o Brasil existir. A partir desses autores e de alguns outros, como José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto e José de Alencar, tem sido possível construir a identidade de nosso país.
Simone Weil ▪️ GD'Art
Esses escultores da palavra, a exemplo de Luiz de Camões, criaram um mundo habitável com Os Lusíadas. Esse mundo da imaginação que brotou da mente de Homero, Dante, Cervantes, Shakespeare e Victor Hugo.
No uso correto das palavras, o escritor poderá imortalizar a beleza da natureza e do homem, mostrar como são as maravilhas do universo, “a sacralidade da vida e do ser humano”, como observou o Papa João Paulo II.
Escrever é ter paciência, exige persistência. No ato de escrever, a pessoa deve ser um teimoso. Selecionar as palavras como quem cata grãos no terreiro. Escrever com a alma, como se estivesse fazendo “um balancete de sua vida”, na expressão de Santo Agostinho em Confissões, seu livro de memórias.
Já se falou que escrever fácil é difícil. Talvez seja difícil encontrar as palavras exatas para descrever com precisão aquilo imaginado. Somente com leitura é possível caminhar pelos aceiros das palavras.











