Não estranhem o título deste texto. Mais à frente terão pleno entendimento, só que, antes, devo fazer alguns esclarecimentos à guisa...

Os ''eu me amo''

arrogancia orgulho ego
Não estranhem o título deste texto. Mais à frente terão pleno entendimento, só que, antes, devo fazer alguns esclarecimentos à guisa de ressalva.

Manhãs de sábado, quando nada me impede, costumo frequentar a távola retangular de Mirabeau Dias, em cujo entorno se reúne gente de melhor cepa. Fico ali meio que de enxerido diante daquela plêiade. Gente que me impressiona por duas virtudes que não têm a rotina de andarem abraçadas: o saber e a modéstia. Representantes da medicina, engenharia, direito, cinema, literatura e outros saberes que se entrelaçam e se completam. Fico ali também e, fruto de meus atrevimentos, ouso dar meus pitacos.

Relevante é o fato de que estão ali — exceção deste escriba — gente que tem currículo pleno de realizações, mas não se arvora a exibi-las; ao contrário, escondem-se e não precisam se apavonar. Algumas vezes há necessidade de alguma cotucada para que um desses confrades deixe escapar aos presentes alguma realização de sua lavra. E o fazem até com algum constrangimento. Não gostam e não precisam se exibir.

Dito isso, vamos ao outro lado do balcão, onde se amontoa essa horda, os exibidos, cuja patota me atrevi a batizar como a farândola dos “Eu me amo”. Pensem numa hoste de gente amostrada.

Seus representantes estão espalhados nos mais diversos ramos de atividade. Em meus 50 anos de magistério, como encontrei representantes dessa estirpe. Assim de gente. Só para contextualizar, de certa feita, um mocetão, ainda noviço na atividade, me abordou com essa conversa: “Sou o terceiro melhor professor de Física do país”. Não me atrevi a perguntar quem eram os dois primeiros da fila, mas fiquei cá com os meus botões, avaliando de onde e como aquele ente deletério tirara tal conclusão. E me abordou com muita soberba e altivez. Tem gente assim, que nasce com esse suposto dom de se amar profundamente. Não saberia relatar quantas situações parecidas encontrei nos meus tempos de giz à mão.

Acontece que a vida dá suas voltas. Acabei encerrando minhas atividades docentes e fui me enfurnar nessa seara perigosa que é a literatura. Já cometi meus livros, escrevo neste jornal com regularidade e também me faço presente no blog do Germano Romero. Participei de algumas antologias, organizei outras. Mas sei muito bem onde posso pescar meu lambari, se é que me entenderam.

Enfim, vou dando asas a esse meu suposto talento, mas é daqui que posso observar que, nesse afazer — a literatura —, é onde mais vi aparecer as diversas espécies de pavão, e vou me atrever a dar uma pincelada no que meus olhos têm visto e meus ouvidos têm escutado. Não é coisa pouca, mas divertida. Acreditem. O comportamento é fácil de perceber, meus queridos leitores e leitoras. Na medida em que eu for discorrendo, tentem formatar a imagem de alguma criatura da espécie que certamente vocês já devem ter visto pelos becos da vida.

Amam-se! Basta estarmos numa roda de conversa e sua elevada autoestima irá se manifestar. Não perdem oportunidade para o “eu fiz” e o dizem como se fosse um feito notável. Extirparam a palavra modéstia do Aurélio. Essa criatura não conversa sem atirar loas a algo que supõe ser relevante e que seja de sua autoria.

Só como exemplo, alguns pretensos poetas colocam-se na mesma prateleira dos Augustos, dos Bandeiras e de mais gente de notável legado poético. Acham-se, e algumas vezes somos obrigados a ouvir baboseiras quando tomam umas e outras e resolvem vomitar a escrita criminosa em nossos ouvidos.

Não esqueçamos dos que se acham filósofos, os das artes visuais e de outras vertentes. Sabem de tudo e em tudo palpitam, e que capacidade de se elogiarem! Uns o fazem mais disfarçadamente, outros de forma explícita. Quando surgem em algum local, chegam chegando e fazem questão de serem notados. Geralmente inofensivos, mas difíceis de suportar dois ao mesmo tempo.

Se encontro com um exemplar dessa tribo, estico a corda para ver até onde chegam e me divirto. Lembram-me Pacheco, de Eça de Queiroz, e é daí que indago: o que seria deles se não vivessem no Brasil e o que seria do Brasil se eles não estivessem por aqui? Não é assim?

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