"Do mar de Najaf, ergue-se o suspiro
histórias de reis, de sábios e de guerra
perto do Imam, num constante giro
a alma xiita descansa nesta terra.
Areia e pedra num mar sem fim
onde a vida se despede do chão
Wadi as-Salam, o Vale da Paz assim
guarda milhões numa eterna oração.” Ode iraquiana
No Iraque, mais precisamente no coração da cidade sagrada de Najaf, localizada a cerca de 160 km a sul de Baghdad, a oeste do rio Eufrates (Al-Furat) urbe considerada, a par de Karbala, como uma das principais cidades do Islão xiita, estende-se um vasto oceano de túmulos que desafia o tempo: o cemitério de Wadi as-Salam (“Vale da Paz”, em árabe).
Imagens da região central de Najaf, no Iraque, onde está localizado o maior cemitério do planeta. ▪ Fotos: M. Rezaei + H. Samad
Com mais de 1.500 anos de história e cerca de 7,5 quilómetros quadrados de extensão, dividido e numerado em distritos para facilitar o acesso, este não é apenas um local de descanso eterno de mais de 6 milhões de corpos, mas um retrato das civilizações, complexidades, guerras, devoções e transformações que moldam o Médio Oriente.
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A história de Wadi as-Salam remonta a tempos imemoriais. Algumas tradições sugerem que o profeta Abraão (Ibrahim) teria adquirido terras na região, enquanto lendas locais afirmam que Adão (Adam), Eva (Hawwa’) e o profeta Hud terão ali sido enterrados. Arqueólogos encontraram evidências de que o local já seria um cemitério na era babilónica e suméria, há mais de 3.000 anos (Al-Husseini, 2010).
Com o advento do Islão no século VII, o vale ganhou nova importância. Acredita-se que o Profeta Maomé (Muhammad) tenha mencionado Wadi as-Salam como uma terra sagrada. Mas foi o sepultamento de ‘Ali ibn Abu Talib (assassinado à saída de uma mesquita da cidade de Kufa, a curta distância de Najaf), primo e genro do Profeta e quarto califa do Islão, em 661 d.C., que transformou o local num dos mais reverenciados pelos muçulmanos xiitas (Dakake, 2007).
Santuário do Imam Ali, em Najaf, um dos lugares mais venerados do islamismo xiita. ▪ Foto: A. Hesaminejad, via Wikimedia
Durante o califado abássida (séculos VIII-XIII), Najaf tornou-se um centro teológico e Wadi as-Salam, um destino de peregrinos. Reis, sultões, príncipes, sábios e mártires foram ali sepultados, na crença de que estar próximo a ‘Ali garantiria a intercessão divina no Dia do Juízo Final (Cole, 2002).
Com o aumento da população xiita no Iraque, Wadi as-Salam cresceu exponencialmente. Ali jazem não só iraquianos, mas também iranianos, árabes do Golfo, asiáticos, paquistaneses, indianos, kuwaitianos, libaneses e até afegãos.
Foto: H. Vakili / via Wikimedia
No século XIX, viajantes europeus como Lady Anne Blunt descreveram as suas fileiras infinitas de túmulos, alguns ornamentados com inscrições em árabe e cúpulas brancas (Blunt, 1881). Mais de 15 milhões de pessoas visitam anualmente este local para implorar misericórdia, recitar o Alcorão e rezar junto aos túmulos dos seus falecidos e entes queridos. Nas estradas em volta de Najaf, há constantemente peregrinos a caminhar sob um sol escaldante. Diz-se que um xiita que morra durante a peregrinação garante um lugar especial em Wadi as-Salam.
A cor do Wadi as-Salam é o castanho claro da terra do deserto. Ali se encontram os jazigos de mártires de várias guerras e atentados (nas suas sepulturas, ao contrário das outras, só se indica o nome e a data da morte), alguns mortos em campas brancas e verdes de alguma glória a quebrar a terra, mais de um metro acima da terra, com direito a fotografia. A maioria dos túmulos em Wadi as-Salam é construída com tijolos cozidos de terracota e gesso.
M. Reza Jofar, Rajanews, via Wikimedia
Alguns são decorados com caligrafia de versículos do Alcorão. Os túmulos apresentam várias formas, tamanhos e alturas. Para além dos túmulos individuais, existem os familiares, que são normalmente cobertos por cúpulas. Existem também algumas campas subterrâneas, aos quais se acede por escadas. Cada uma destas tumbas tem capacidade para 30 a 50 corpos.
Antes do enterro em Wadi as-Salam, os xiitas realizam alguns rituais. A tarefa de banhar o corpo e envolvê-lo num sudário é normalmente realizada no cemitério. Em seguida, a oração fúnebre é realizada na mesquita adjacente ao santuário de ‘Ali, com o corpo a ser carregado ao redor do santuário, por três vezes. O coveiro deita o defunto sobre o seu lado direito, com o rosto voltado na direção (qibla) da Kaʿbah em Meca (Makkah al-Mukarramah), enquanto se recita a Al-Fatiha, a primeira surata do Alcorão, cantada em voz baixa como uma oração pelos mortos.
M. Reza Jofar, Rajanews, via Wikimedia
De acordo com o Islão, existe uma vida entre este mundo e a vida após a morte, chamada Barzakh que, na escatologia islâmica, representa o estado intermédio entre a morte física e a ressurreição no Dia do Julgamento (Al-Qiyamah). A religião afirma que aqueles que praticaram boas ações vivem em paz e felicidade no túmulo. Ao invés, aqueles que cometeram más ações têm de enfrentar ali um castigo severo. Uma parte dos muçulmanos acredita firmemente que aqueles que são enterrados no Wadi as-Salam serão poupados ao castigo e ali permanecerão em paz até ao Dia do Juízo Final.
Perto da entrada de Wadi as-Salam, são vendidos talismãs que se acredita manterem os fantasmas afastados. A economia local é moldada pelo cemitério, com trabalhos como cavar sepulturas,
M. Reza Jofar, Rajanews, via Wikimedia
esculpir lápides e realizar a manutenção, que garantem o sustento de muitas famílias na cidade.
Wadi as-Salam é um mapa de guerra e um livro de história. As marcas do tempo estão por toda a parte. A paz do vale foi muitas vezes perturbada. Invasões mongóis (século XIII) e otomanas (século XVI) trouxeram destruição. Foi no Iraque que o Islão primeiro se separou. Sunitas contra xiitas, muçulmanos contra muçulmanos. A guerra entre o Iraque de Saddam Hussein e o Irão liderado pelo Ayatollah Ruhollah Musavi Khomeini, entre 1980 e 1988. Das várias invasões às perseguições e ataques do Da’ish (acrónimo árabe para al-Dawla al-Islamiyya fil-ʿIraq ua-sham, ou “Estado Islâmico do Iraque e do Levante”), passando pela Guerra do Golfo e, mais recentemente, a Guerra do Iraque, a que se juntou a pandemia da COVID-19 (cuja fase mais crítica foi declarada entre 2020 e 2023) que escalou a mortalidade, a expansão urbana e a consequente superlotação e poluição. Não obstante, o cemitério sempre renasceu, expandindo-se como um testamento da resistência espiritual xiita...
Wadi as-Salaam, o “Vale da Paz”, em Najaf, no Iraque, é considerado o maior cemitério do mundo. Suas extensas necrópoles cercam a cidade sagrada e se estendem nas proximidades do santuário do Imam Ali.
Em Wadi as-Salam cada sepultura guarda vestígios de guerras, perdas e fé. Caminhar por este lugar é como entrar numa cidade silenciosa, mas cheia de ecos, com ruas estreitas, mausoléus e histórias gravadas em pedra… É o passado a falar sem dizer uma palavra.
YT Syed Kazim
“Este Vale da Paz (Wadi as-Salam) faz parte do Paraíso e não há um único Mu'minin, crente no mundo, seja ele qual for, quer morra no Oriente ou no Ocidente, cuja alma não venha para este Paraíso para descansar. Pois nada está oculto neste mundo aos meus olhos (...) vejo todos os crentes sentados aqui em grupos, conversando uns com os outros.” Trecho narrado por ‘Ali ibn Abu Talib e relatado com base na autoridade do Quarto Imam ‘Ali ibn al-Hussayn al-Sajjad.