O que não falta aqui na capital das acácias é farmácia e academia de letras. Uma para cada esquina e para todos os gostos. Mas, com...

Nossa nova Academia de Letras

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O que não falta aqui na capital das acácias é farmácia e academia de letras. Uma para cada esquina e para todos os gostos. Mas, como o mercado farmacológico não é do interesse deste cronista, fiquemos com essa proliferação acadêmica.

Meus amigos, minhas amigas, o que tem de gente ostentando medalhão no peito e se exibindo com uma tunicazinha jogada sobre os ombros pode surpreender. E olhem que aqui somos menos pomposos do que
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os imortais da ABL. Nada de fardão ricamente bordado com ramos de folhas de louro em fios dourados, símbolos de glória e reconhecimento. Nada também da espada, que representa mérito literário, honra e tradição. Somos mais modestos nesses quesitos, mas, na pose, não perdemos para ninguém.

Dados esses esclarecimentos, dias atrás, um amigo escritor, septuagenário, imortal de dois medalhões, procurou-me para que eu opinasse acerca de uma sua iniciativa: criar uma nova academia, tipo Clube do Bolinha, que iria admitir apenas criaturas do sexo masculino em seu quadro de associados, e já determinou que seriam apenas 30 imortais.

— Mas já não temos muitas academias por aqui? — foi o que argumentei.

— Essa vai ser diferente. Já criei o brasão, ou, se preferir, o símbolo heráldico, bolei a citação em latim que estará no entorno dessa estampa. Vai ser: *SCRIPTOR, QUOD FUI ES QUOD ERIS, SUM* (Escritor, o que eu fui tu és, o que serás eu sou).

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— E o que teremos nesse brasão, além dos dizeres?

— Um símbolo fálico: uma flor de girassol murcha, ladeada por dois rabanetes murchos também.

— Mas qual o critério para se fazer parte dessa agremiação?

— Primeiro, tem que ser escritor e já acadêmico numa dessas academias que temos por aqui. O segundo é ser homem, e o terceiro é sofrer de disfunção erétil, com atestado de um urologista designado por nossa academia. E tem mais: vai ser secreta, como era a Maçonaria antigamente; os confrades vão se identificar por palavras-chave ou toques de mão. Secreta mesmo. Vai ser a APEPDE — Academia Paraibana de Escritores Portadores de Disfunção Erétil.

Não levei muito a sério essa empreitada, a não ser o fato de que esse meu amigo também já devia estar falhando na hora H, se é que me entendem. Só que, dias depois, eu o encontro e...

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— Sucesso total. Escolhi os 30 patronos para as 30 cadeiras. O patrono da cadeira número um é Austregésilo de Athayde, que foi falar com Deus com quase 100 anos e certamente pode simbolizar os nossos critérios. Depois, mandei um memorando a todas as academias do estado, explicando as condições e que as vagas seriam preenchidas pelos que primeiro apresentassem suas candidaturas.

— E?

— Todas as vagas ocupadas. Já vamos ter nossa primeira reunião, secreta, é claro. Nossos medalhões estão sendo confeccionados, bem como os fardões, que serão da cor lilás. Nem vai acreditar: se dispuséssemos de uma centena de cadeiras, não seria suficiente.

— Então, como foi?

— Temos representantes de todas as academias; a de medicina está representada por dois urologistas e um ortopedista; a de engenharia colaborou com um engenheiro civil octogenário. O problema foi na de
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letras jurídicas, pois ali quem se filiasse à nova agremiação seria defenestrado da corporação porque, segundo a diretoria da casa, o Judiciário não está com essa bola toda, e aguentar chacotas de outros poderes não era conveniente.

— E o que mais?

— Muita gente da jurídica está na de letras, e foi por essa última que se candidataram, mas foi onde a coisa pegou. Estava assim de gente querendo entrar. Então, o presidente, que não quis participar por estar, segundo ele, com “tudo funcionando às mil maravilhas”, resolveu distribuir senhas. E o que ele fez? Dividiu essas cartelas numeradas entre os diversos grupos daquela confraria: a turma dos padres, dos juristas, dos médicos, dos jornalistas, dos políticos e para os ditos independentes. Foi gente se acotovelando, mas, depois de sorteados os números, a paz voltou à casa de Coreolano de Medeiros, e ninguém mais toca o assunto.

— E você, meu amigo? Não teme represálias? Posso publicar o que me contou?

— Pode e fique tranquilo: “Qui se excusat, se accusat” (quem se desculpa, a si mesmo se acusa).

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