A grande maioria deve se lembrar do filme e não do porteiro. É de quem não esqueço, sem desmerecer minha fixação no cinema. Quem nos r...

Entrando no Rex

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A grande maioria deve se lembrar do filme e não do porteiro. É de quem não esqueço, sem desmerecer minha fixação no cinema. Quem nos recebia na portaria, em nome de todos os produtores, diretores e artistas de Hollywood? Não eram os donos, Seu Leal, nem Luciano, nem Múcio. Ainda hoje é Paulo, do antigo Rex.

Preparando-me para escrever sobre mais uma reforma na Lagoa, a de Luciano Cartaxo, saí, então, na distante manhã, disposto a começar do começo.
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Rua Visconde de Pelotas (J. Pesssoa-PB) ▪️ GSView
E, ao meu gosto ou preferência, parti da velha praça Rio Branco, a praça do chorinho de hoje, a do primeiro mercado construído por Álvaro Machado, abrangendo aquele quarteirão com as sedes do Cine Municipal e do edifício do INPS.

À direita do cinema, numa rua apertada com o nome do pastor Antônio Petronílio dos Santos (dizem que uma alma dos céus), ainda restam vestígios do casario histórico. Era onde a cidade se abastecia até ganhar o Mercado Central, do outro lado da Lagoa, nesse tempo sem L maiúsculo, arreliando os moradores do arruamento com a gritaria dos irerês, marrecas batizadas pelo próprio canto, que deram lugar ao parque iniciado por Walfredo Guedes Pereira, culminado com o cartão-postal que nos foi presenteado por Argemiro. Lagoa que era um dos alvos de reclamação e protestos da imprensa liderada pelo major Arthur Achilles, o mais influente homem de opinião na iniciação da nossa República. Ele morava na Rua de Baixo, era como se chamava a 13 de Maio, numa casa de esquina com o beco dado pelos nossos historiadores a seu grande nome.

Pois bem, subo pelo beco do Municipal e termino parando, sem fôlego, nos restos do fiteiro cinquentenário que perdera a fila de filmes como “O Direito de Nascer”, mas se mantinha, até pouco tempo, como ponto de convivência do seu dono e de Paulo.

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Acervo Petrônio Souto
“Quede Paulo?” — não tive a quem perguntar.

Bem-apessoado, ele era mais recepcionista que porteiro. Dava os três expedientes à empresa. Cativara-me desde o início do meu aprendizado no espírito desta nossa cidade, recém-chegado de Campina Grande, já empolgado e cultivado pelos Rex, Capitólio, Avenida, São José, e fazendo o melhor do meu gosto por conhecer as pessoas do novo habitat.

Passados mais de setenta anos, não me lembro do filme, sem esquecer jamais esse início de camaradagem desde o ginásio noturno Castro Pinto.

Num fim de tarde, saí do jornal para jantar e esbarrei no cartaz da noite, um filme de 1952, não estou certo se “As Neves do Kilimanjaro”. Sei que o cartaz me prendeu. E ali fiquei. Termina a sessão da tarde, dou um salto até a boia da Casa do Estudante e, sem dinheiro, volto a aventurar o Rex. Em vez do velho Etelvino na portaria, encontro Paulo. Nos falamos, eu ali até esgotar a conversa, a fila do público esvaziando, e cadê ingresso? A projeção já soava na tela:

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— Estás aguardando alguém, a namorada?

— Não, estou esperando Doge (Dorgival Terceiro Neto), com quem espero entrar.

Mais que entender, meu velho colega de ginásio percebeu minha embromação e pediu que eu entrasse.

Hoje, o Cinema Municipal e o Rex viraram lojas, o público é outro, mas Paulo continua a baixar a corrente para a minha entrada.

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