Quando morava na minha casa, na Rua Oceano Pacífico — e esse oceano gigante para uma rua pequenina —, nos tempos de ruas enlamaçadas e bois a passar na porta, todos os dias, por volta das 18 horas, um casal de sapos pequenos (caçotes) entrava aos pulos na minha sala e ia namorar embaixo da estante. Ficava a ouvir os gemidos, digo, o coaxar do namoro. Todos os dias lá vinham eles, os caçotinhos. Ficava sempre impressionada com a pontualidade. Não me consta que sapos tenham relógios. Mas rituais, isso eles tinham. E aconchego para namorar juntinhos. Todo dia faziam tudo sempre igual: me visitavam às seis horas da tarde. Bem que poderia ser letra de **Cotidiano**, de Chico Buarque. Com gosto de hortelã e tudo.
Pois eis que, há algum tempo, no meu novo endereço, todos os dias um casal de maritacas me visita na varanda. Fui ao Google e vi que esses pássaros alvoroçados têm inúmeros nomes: “Maitaca, maritaca e baitaca são designações comuns para diversas espécies de aves psitaciformes da família dos Psittacidae, do gênero *Pionus*. Outras denominações são baetá, baetaca, baiatá, baitá, curica, guaracininga, guaracinunga, humaitá, maetá, maetaca, maitá, mai-tá, maitaca, cocota, puxicaraim, loro, suia e xia.” Não poderia imaginar que aqueles papagaiozinhos pequeninos tinham tantos nomes e singularidades. Pois agora vou observá-los melhor para ver se consigo decifrar alguns desses nomes.
As maritacas fazem uma barulheira. Pousam numa casinha de João-de-Barro que a minha sobrinha me presenteou, e lá mora um passarinho de barro. Pois as maritacas insistem em fazer contato com esse colega que não voa. Elas ficam por ali, eu assobio, elas me olham e depois voam para outros apartamentos. Ou para os fios emaranhados dos postes em frente. Tenho medo de alimentá-las e de que um morcego faminto apareça. Aí seria uma gritaria. De mim, claro. Pois amo a visita desses passarinhos, louros em miniatura. Tão bonitinhos! Pois têm também o mesmo relógio dos sapos visitantes. Acho que me olham esquisito e devem se perguntar: quem será essa senhora de cabeça branca que fica assobiando e fazendo caretas simpáticas? Mas fica ali tomando café e nem nos convida a entrar!
E parece que o relógio de Alice no País das Maravilhas habita a fauna. Pois tenho uma abelha visitante também. Aliás, duas. No mesmo horário, por volta das 18 horas, chega a primeira e depois a segunda. Será um casal? Não escuto zumbido, mas tenho medo da picada. Apago as luzes e logo elas caem no chão. Meu instinto de sobrevivência me faz matá-las. Antiecológica? Com certeza. Mas não quero perrengue para o meu lado alérgico. A minha consciência não dói, pois, quando não sou a assassina de abelhas, no dia seguinte elas aparecem mortas no mesmo lugar. Uma visita mortífera! O ciclo delas. Dão uma voltinha na minha sala e, ontem, viram que a mesa estava farta de canjica e pamonha, Flávio José cantarolando **Me Diz Amor**, e a moradora, com um batom vermelho e uma gravata de Santo Antônio, rodopiava no salão. Devem ter se perguntado se estavam no lugar certo, pois o cheiro adocicado das comidas vinha da mesa, mas algo estava fora de ordem. Era São João!
Pois o dia do santo foi assim, com essas visitas esperadas. Um perfume silvestre da chuva. O Parque Parahyba todo verdejante. E, logo cedo, fui lá conferir o silêncio e o deserto de um lugar cujos moradores tinham ido simbora para Campina Grande, Bananeiras e todo e qualquer sítio com fogueira queimando. Alavantour!
Saudades dos meus tempos em que dançava quadrilha no Boi Só, no Clube Cabo Branco, ou pelos arraiás dos bairros: Bairro dos Estados, Expedicionários, perto das casas onde morei, e no Bessa, quando os meninos eram crianças e a gente frequentava as fogueiras dos vizinhos. Tempos de visitas, trocas e vida no bairro. Saudades.
Ontem teve jogo do Brasil x Escócia e, entre uma gaita e outra, um puro malte e outro (entre os escoceses), a abelha-rainha chegou voando atarantada. Isso me atrapalhou o jogo mais animado do Brasil na Copa. Tenho sempre medo de uma picada com um ferrão mais malvado. Prestando atenção a Vini Jr., aos paraibanos Matheus Cunha e Douglas Santos, e aquele zumbido, nem tanto pelo som, mas pelo medo que tenho de insetos inesperados. E previsíveis também. Intriga-me o relógio biológico dessas visitas: os caçotes, as maritacas e as abelhas, que insistem em me cumprimentar, mesmo que eu não esteja tão disponível assim.
Mas dos passarinhos gosto. Alegro-me em vê-los cantarolando pelos fios dos postes em frente, alçando voos sabe-se lá para onde. E ouço os sabiás-de-papo-amarelo pela vizinhança também. O Bessa ainda tem desses encantos, apesar de o preço dos apartamentos estar alto e de os prédios subirem cada vez mais aos céus. Será que temos infraestrutura para tanto? Sei não. Os passarinhos que o digam.
Deixe-me ir, pois já está na hora de as maritacas aparecerem. E quero ir à varanda espiar, de mansinho, esse som estridente a me dar bom dia!







