Um susto. Um olhar. Sem timidez. Percorro a vista como quem já conhece o território. Mas, por outros caminhos. Não conheço o nome das partes. É um corpo que habita eras. É bela e triste, como o amor. Tem desejo. Uma voz com um timbre macio. Clama por defloração. É agora. É sim. Como foi que me deixei vestir por uma ilusória imortalidade?
O que farei com essa avidez que não sossega? Despejarei de mim esta noite em minhas próprias mãos? Em minhas mãos serenas criaturas que não se criaram como a natureza quis que fosse. O lábio ressecado, mas a língua suculenta e pulsante à espera de outros lábios , de tal superioridade que parecem sorrir quando me aproximo. Pouco sei. Talvez saiba pelo instinto que a carne pronuncia. O peso sentido vem da sua ebulição.
São incontestáveis esses atos a qualquer ser que já se sentiu. Quantos já se reprimiram por não aceitar o que o corpo exige? Ando devagar para não perder o charme. Cuidado. Há muitas projeções no caminho. Alguém me ponha a dormir sem esconder minha profanidade.
Mais amor é o que queremos e, quanto mais o temos, mais nos invade o medo de perdê-lo. Fonte de força e fragilidade, feito de pétalas e espinhos, são inumeráveis as motivações para a continuidade ou o término de um relacionamento.
Mas, será que existe o amor? Tantos poetas já tentaram defini-lo e toda tentativa parece vã. “Amor foge a dicionários e a regulamentos vários”, como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade, mas amor também se consulta e suas cláusulas estão sempre implícitas. Por isso não creio que haja amor incondicional.
Quem não leva o amor a sério dificilmente irá adiante na vida. Amor é trabalho e não o merece quem não luta para alcançá-lo. Amar não é mero acontecimento. O amor não é sujeira debaixo do tapete. Amor é farol. Ele nos guia no horizonte em que acendermos. E se apaga, nos toma em 360 graus. Isso só ocorre se desistimos de nós mesmos. É como perder a fé em Deus e no ser humano. Quando se ama, para além do Eros, o perecível torna-se perene.
Já não consigo mensurar quanto de mim já foi e ficou. Terei voltado ao mesmo ponto? Antes de ser eu mesmo, vivia no esconde-esconde, pulava a corda das horas. Meus fantasmas apenas se encontravam no escuro da cronologia. Hoje, na claridade das madrugadas, encontro-me com traças a corroer meus pensamentos.
Quiseram as dúvidas me alcançar no momento em que pensei estar na madureza? Eu manchei meu rosto para me sentir mais, porém retrocedi. Ah, a gente não muda, só se ausenta. Nas escolhas nos reinventamos, entre enganos e sofrimentos e, diante disso, ainda julgamos ser autênticos.
Atrás da porta do trivial nossa existência vai se maquinando. Queríamos nos administrar como se fôssemos uma empresa, mas já estamos falidos. Quase em extinção. Construímos uma memória na qual os troféus encontram-se empoeirados, mas ainda contamos vitórias.
Vitórias regidas por uma alegria que abre e fecha elos. É nesse instante em que viramos o rosto. Amadurecer é distinguir a alma do corpo. Não que sejam antagônicos, mas não há unicidade. Depois de ir ao mais recôndito, descobrir que o sonho não era mais que ideia e reconhecer que a trilha era feita por espelhos, passamos a pisar com cuidado.
Horizonte não deixa de o ser se olhado na vertical. Talvez estejamos olhando algo grande por uma pequena fresta ou, quem sabe, a festa seja grande para algo tão pequeno. Não sei. E é por não saber que ainda me restam esperanças.
Mas, se estamos sós, não é culpa de ninguém. É de todos. É de si. É descida. Se a nossa vida não estiver calcada predominantemente nas vontades próprias, então sucumbiremos como zumbis e nos restará o lamento. O que fomos, somos, não se deriva de meras circunstâncias – nosso querer não é poder.







