No último dia 21 de junho, Gonzaga Rodrigues celebrou 93 anos em plena atividade, com uma produtividade que eu, seis décadas mais novo, confesso invejar. Além das crônicas semanais publicadas em A União e no Ambiente de Leitura Carlos Romero, ele relançou, em maio passado, a biografia do jornalista paraibano José Maria dos Santos (Ed. Ideia, 2026) — um feito verdadeiramente notável para um nonagenário.
Samuel Amaral e Gonzaga Rodrigues na Livraria A União, Fundação José Lins do Rego ▪️ Acervo do autor
Lembro com carinho da nossa primeira e única conversa na Livraria A União, em outubro do ano passado. Confesso que fiquei um tanto nervoso na ocasião, uma vez que estava diante de um "monstro sagrado" do nosso jornalismo e da nossa literatura.
Levei para o encontro recortes da revista paulista A Cigarra, com críticas positivas a dois contos enviados por Gonzaga há 70 anos, quando ele dava os primeiros passos na imprensa local — ou, para valer-me de um jargão da profissão, galgava os primeiros "batentes" do jornalismo. Falei sobre esse momento no texto Os contos perdidos de Gonzaga Rodrigues, publicado aqui mesmo no ALCR.
Mas também apresentei-lhe outros papéis, contendo informações que encontrei no Sistema Nacional de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Os documentos revelam como os órgãos de repressão do Regime Militar acompanhavam de perto a militância e a trajetória jornalística de Gonzaga. Para minha surpresa, ele revelou desconhecer aqueles registros. Ao despedir-se, saiu da livraria sobraçando o calhamaço de documentos.
É justamente sobre esse capítulo de sua vida que pretendo me deter nas próximas linhas.
A "prisão" do hospital e das ruas
Associação Paraibana de Imprensa ▪️ Fonte: API
Na noite de 1º de abril de 1964, dezenas de jornalistas, estudantes, camponeses e sindicalistas reuniram-se numa "vigília cívica" na sede da Associação Paraibana de Imprensa (API), na Rua Visconde de Pelotas. O encontro era liderado pelo presidente da entidade, o jornalista Adalberto Barreto, e tinha como objetivo acompanhar os desdobramentos da crise que se instaurara no país com a deposição do presidente João Goulart.
Por volta das 20 horas, a tensão transformou-se em ameaça concreta. Um comboio de viaturas pró-golpe cercou a sede da API sob o comando do major José Benedito Montenegro dos Magalhães Cordeiro. Os militares tinham ordens expressas para prender Adalberto Barreto, o próprio Gonzaga Rodrigues e outros jornalistas considerados subversivos.
Adalberto chegou a ser preso pelo major Cordeiro e entregue à Polícia Civil, comandada pelo coronel Pedro Belmont. Em depoimento ao jornalista Nonato Guedes para o livro O jogo da verdade, Adalberto recordou que, sob a liderança de Belmont, "a Polícia passou a se divertir conosco, correndo pelas ruas da cidade com aqueles caminhões fechados, intimidando a todos". Gonzaga, contudo, não teve o mesmo destino de Adalberto, seu melhor amigo.
Adalberto Barreto ▪️ Acervo Nereida Barreto
Por sorte — ou por azar —, Gonzaga não estava na sede da API naquela noite. Quis o destino que ele estivesse internado no Hospital Clementino Fraga, em Jaguaribe, a poucos quilômetros dali. Desde o final do ano anterior, ele fora acometido por uma grave tuberculose, que o prendeu ao hospital. Ali conviveu de perto com doentes, pobres, loucos e presidiários, tornando-se amigo de todos. Foi Concriz, um desses desventurados, quem o acordou para dar-lhe a insólita notícia:
— O Exército está nas ruas!
No texto O golpe, da janela do hospital, presente no livro O jogo da verdade, Gonzaga relatou suas impressões sobre aquele momento trágico da vida nacional:
"Instalara-se o terror.
Gonzaga Rodrigues
Junto às notícias dos meus amigos presos ou desaparecidos, vinham as de que a polícia estava em meu encalço. Um oficial estivera no sanatório, dizem que a mando do Grupamento, guiado pela informação oficial da diretoria de A União, que me incluíram na lista de 'comprometidos com a subversão'. Recebido pelo corpo médico, o oficial teve acesso a exames e raios X que comprovaram a doença. E, por medida profilática ou por nova incapacidade para o serviço militar, fui deixado no hospital, de onde só pude sair no 4 de julho, dia da Independência Americana e entrada para a minha maior prisão, que foi a das ruas."
À época, Gonzaga era funcionário do Porto de Cabedelo à disposição da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde dirigia a Imprensa Universitária. Com o golpe, porém, foi devolvido ao órgão de origem.
Não era a primeira vez que razões políticas interferiam em sua vida profissional. Dois anos antes, em 1962, ele havia sido afastado do cargo de redator de A União em consequência da cobertura dedicada pelo jornal ao assassinato de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas.
Pedro Teixeira
A medida atingiu não apenas Gonzaga, mas toda a diretoria do periódico. Mais uma vez, o jornalista se via sem emprego por motivações político-ideológicas.
"Perdera o lugar na universidade — continuou Gonzaga —, exonerado por um médico de catadura cordial e que se tornava reitor, e na imprensa oficial ou particular. Evitavam-me até o cumprimento. Companheiros de redação que antes me assediavam corriam de mim às léguas. Minhas artes já não interessavam. Foi a passagem mais estreita da minha vida, pois, se tive mais difíceis, elas não me privavam do futuro."
Se, para alguns, estar próximo de Gonzaga era algo "contagioso" — não por causa da tuberculose, mas pelo receio de serem associados a um jornalista rotulado como "esquerdista" e "subversivo" —, o mesmo não se podia dizer de José Américo de Almeida. O ex-ministro nutria grande apreço pelo jovem jornalista e chegou a visitá-lo no Hospital Clementino Fraga. No dia seguinte, o encontro foi registrado nas páginas dos jornais.
Gonzaga Rodrigues e José Américo de Almeida ▪️ Acervo FCJA
O gesto foi interpretado como um recado aos militares, especialmente para o coronel Pedro Belmont: Gonzaga não estava sozinho. E a mensagem parece ter surtido efeito. Apesar de ter sido procurado até mesmo durante a internação, ele escapou de figurar no Inquérito Policial Militar (IPM) conduzido pelo major Cordeiro.
Anos mais tarde, em entrevista aos jornalistas Ademilson José e João Pinto, no programa Câmera Aberta, Gonzaga recordou as dificuldades enfrentadas após o golpe:
— Eu estava num apogeu de prestígio profissional maravilhoso até 1963, quando adoeci. Eu era diretor da Imprensa Universitária [...] Veio o golpe e nós fomos destronados [...] Em 1970, houve um pouco de
Gonzaga Rodrigues
abertura e eu fui reabsorvido pelo jornal. Eu estava no apogeu da minha carreira e, quando veio o golpe, fiquei a zero. Ninguém queria me botar na redação. Não eram os "milicos"; os diretores é que tinham medo de se comprometer.
Em 1970, a situação de Gonzaga começou a mudar. Ele foi readmitido no jornalismo profissional e assumiu a diretoria de publicidade de O Norte — o mesmo jornal em que havia iniciado a carreira 19 anos antes, em 1951. É justamente nesse período que seu nome passa a aparecer, pela primeira vez, nos arquivos produzidos pelos órgãos de informação da ditadura.
Os jornalistas com "ideias de esquerda"
A primeira menção a Gonzaga Rodrigues encontrada na documentação do Serviço Nacional de Informações (SNI) está contida na Informação nº 140, de abril de 1970. O documento reúne dados sobre jornalistas dos principais órgãos de imprensa do Nordeste.
Ao lado de informações funcionais, o relatório apresenta avaliações políticas elaboradas pelos agentes de informação. O parecer sobre Gonzaga é revelador:
Capacidade profissional e conceito social considerados normais; possui ideias de esquerda; não identificado com a Revolução de 1964; possui grande liderança na classe.
Nesse mesmo documento, outros jornalistas paraibanos também foram avaliados pelo SNI. Para os agentes da repressão, José Souto, diretor de A União, possuía "caráter inidôneo" e "ideias de esquerda", embora fosse filiado à Aliança Renovadora Nacional (Arena). Aluísio Moura, diretor do jornal O Norte, também apresentava "caráter inidôneo", "ideias de esquerda" e não era identificado com a chamada "Revolução de 1964".
Nathanael Alves ▪️ Arte: Tônio
Nathanael Alves, então chefe de reportagem de O Norte, possuía "ideias de esquerda" e era considerado um "indivíduo complexado". Já Soares Madruga, diretor do Correio da Paraíba, tinha "capacidade profissional fraca", era classificado como "irresponsável", possuía "ideias de esquerda" e não era "identificado com a Revolução de 1964". Apesar dessas observações, exercia o cargo de segundo-secretário da Comissão Executiva Regional da Arena.
Por fim, Frank Ribeiro de Arruda, redator do Correio da Paraíba, foi descrito como profissional de boa capacidade, possuidor de "ideias de esquerda", não identificado com a "Revolução de 1964" e detentor de "grande liderança na classe".
É interessante notar que a maior parte dos jornalistas paraibanos monitorados pelo SNI naquele relatório estava vinculada ao jornal O Norte. A concentração de nomes sugere que os órgãos de informação mantinham atenção especial sobre o periódico, acompanhando de perto seus principais profissionais.
"Agente de propaganda adversa"
Outro documento preservado no Arquivo Nacional é a Informação nº 1275, datada de 31 de agosto de 1976. Produzido pelo Gabinete do então ministro do Exército do governo Ernesto Geisel, o general Sylvio Frota, o relatório contém a relação dos chamados "agentes de propaganda adversa" que exerciam funções públicas ao mesmo tempo em que atuavam em órgãos de imprensa.
Na avaliação do Ministério do Exército, esse acúmulo de funções gerava "situações embaraçosas, quando não indesejáveis ao Governo". O documento advertia que tais profissionais poderiam utilizar o prestígio de seus cargos para conduzir "assuntos ou mesmo campanhas, em favor de pessoas ou grupos, nem sempre acordes com os interesses governamentais".
Mais adiante, o relatório demonstra especial preocupação com a capacidade desses jornalistas de influenciar a sociedade. Segundo os militares, o funcionário público poderia "difundir, orientar ou mesmo incitar a opinião pública em direção divergente à política e aos objetivos governamentais", apresentando-se "como jornalista e não como funcionário público".
Ernesto Geisel, Humberto Castello Branco e Artur da Costa e Silva, três militares que governaram o Brasil durante a Ditadura Militar ▪️ Arquivo Nacional
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O documento afirma, ainda, que essa situação favorecia uma "dicotomia ilógica", uma vez que o próprio Estado remuneraria servidores que poderiam atuar contra seus interesses por meio da imprensa. Na visão dos órgãos de segurança, tal condição também estimulava "boatos de que providências não são tomadas pelo Governo" e favorecia o chamado "apadrinhamento" de funcionários por autoridades e personalidades influentes.
Gonzaga era um desses supostos "agentes de propaganda adversa" que estavam na mira do Ministério do Exército. Conforme o documento, durante o governo de Ivan Bichara Sobreira (1975-1978), ele ocupou o cargo de assessor da Companhia de Industrialização do Estado da Paraíba (Cinep). O relatório registrava que não possuía horário fixo e recebia remuneração mensal de CR$ 7.500,00.
Ivan Bichara Sobreira (esq) com os jornalistas Gonzaga Rodrigues (acima) e Osias Nacre Gomes ▪️ Fonte: Jornal A União
Paralelamente, exercia a função de colunista do jornal O Norte, também sem horário fixo, pela qual recebia CR$ 1.800,00 mensais. Os agentes anotaram, ainda, que Gonzaga presidia a Associação Paraibana de Imprensa (API) e que "possuía ideias esquerdistas".
Além de Gonzaga, outros jornalistas paraibanos também figuravam na relação elaborada pelo Ministério do Exército, dentre os quais estavam João Manoel de Carvalho, Aluísio Moura, Luiz Augusto Crispim e Otinaldo Lourenço.
João Manoel de Carvalho, jornalista, ex-colunista político do jornal O Norte, ex-diretor do Correio da Paraíba, ex-diretor do jornal Contraponto, respeitado profissional da imprensa da Paraíba, reconhecido pela dedicação às causas sociais e à luta das ligas camponesas na década de 1960 na Paraíba ▪️ Fonte: A União
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O cronista vigiado
A vigilância sobre Gonzaga Rodrigues aparece novamente em outro documento confidencial: a Informação nº 623-E2, produzida em julho de 1976 pela 2ª Seção do Estado-Maior do 1º Grupamento de Engenharia. Embora o relatório tivesse como assunto principal o jornalista João Manoel de Carvalho, Gonzaga também mereceu um espaço próprio na documentação da repressão. Sobre ele, os agentes registraram:
Filho de Manoel Avelino Rodrigues e de Antônia Freire Ibiapino, nascido em 21 de junho de 1933, natural de Alagoa Nova (PB), casado, funcionário do Instituto de Previdência do Estado da Paraíba e jornalista.
Apesar de não ter sido indiciado em IPM, participou de movimentos ligados às Ligas Camponesas e ao Comando Geral dos Trabalhadores no período que antecedeu a Revolução de Março de 1964. Posteriormente, deu cobertura, através da imprensa, aos movimentos estudantis que eclodiram neste Estado.
É jornalista do jornal *O Norte*, onde escreve uma coluna diária sobre assuntos gerais. Goza de bom conceito na imprensa local.
Gonzaga nunca foi formalmente investigado, processado ou preso pelo Regime Militar. Ainda assim, os registros produzidos pelos órgãos de informação revelam que seu nome permaneceu sob observação constante dos aparelhos de segurança, mesmo mais de uma década após o golpe de 1964. Para os agentes da repressão, suas "ideias esquerdistas", sua atuação na imprensa e a influência que exercia entre os jornalistas paraibanos eram razões suficientes para mantê-lo sob monitoramento.
Na entrevista concedida a Ademilson José e João Pinto, Gonzaga refletiu sobre aquele período:
— Aquele foi um momento ideológico vivido não por nós, mas pelo mundo todo, e que é uma fase muito grata na minha vida, muito grata! Eu nunca cheguei a radicalizar; nunca fui um radical. Há quem diga que eu sempre fui um frouxo. Eu aceito! Nunca fui de colocar ninguém no paredão.
Gonzaga Rodrigues
Talvez tenha sido esse traço conciliador de sua personalidade, avesso aos extremismos, que permitiu a Gonzaga transitar por diferentes ambientes sem abdicar de suas convicções político-ideológicas. Não surpreende, portanto, que tenha aceitado o convite para assumir a Secretaria de Comunicação Social no governo de Tarcísio de Miranda Burity (1979-1983), o último governador biônico da Paraíba.
Foi justamente ao assumir esse cargo que Gonzaga apareceu pela última vez nos registros produzidos pelos órgãos de informação da ditadura.
O secretário ligado a "agitadores" e "subversivos" — ou a "estratégia" de Burity
Outro documento confidencial produzido pela Agência Central do SNI, em 30 de outubro de 1981, debruçava-se sobre as "Nomeações do Governador do Estado da Paraíba". Elaborado quando Burity se aproximava da metade de seu mandato, o informe demonstrava que os órgãos de segurança acompanhavam atentamente a composição da administração estadual e avaliavam o passado político e ideológico daqueles que ingressavam em postos de destaque no governo.
Já no primeiro parágrafo, os agentes afirmavam que, desde o ano anterior, Burity vinha promovendo o retorno à vida pública de "inúmeras figuras que, no passado, se revelaram administradores e/ou políticos incompetentes, corruptos e, ideologicamente, contrários ao regime democrático".
O documento analisa sete nomeações consideradas merecedoras de atenção especial. A primeira delas era a de Sílvio Pélico Porto para o cargo de desembargador do Tribunal de Justiça da Paraíba. Segundo o informe, Sílvio Porto havia sido cassado por "ato revolucionário em face de corrupção administrativa".
Outra indicação que despertava preocupação nos órgãos de segurança era a de Abelardo Jurema para o cargo de assessor político do Governo do Estado, residente no Rio de Janeiro. Jurema havia sido ministro da Justiça do presidente João Goulart e teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos após o golpe de 1964.
Biu Ramos, jornalista e escritor paraibano, um dos grandes nomes da história da imprensa paraibana ▪️ Jornal A União
Robson Duarte Espíndola e Domingos Mendonça Neto, nomeados assessores políticos do governo, também despertavam desconfiança. O primeiro fora atingido pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5); o segundo havia sofrido impeachment da Câmara Municipal de João Pessoa.
João Pereira Gomes, escolhido para chefiar a Casa Civil, era descrito como indivíduo "incapaz moral e intelectualmente". Já Severino Ramos Pedro da Silva, o Biu Ramos, nomeado procurador do Estado, surgia no relatório como um "político oportunista".
Por fim, Gonzaga Rodrigues, escolhido para ocupar a Secretaria de Comunicação Social, era apontado como ex-militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ligado a "agitadores" e "subversivos". Na avaliação dos agentes, havia ainda outro agravante: Gonzaga "sempre demonstrou grande aptidão para deturpar notícias com o objetivo de intranquilizar a população".
Um detalhe do relatório merece ressalva. Os agentes identificaram Gonzaga como ex-militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), informação que não foi possível confirmar a partir das fontes consultadas.
Para os agentes da repressão,
"O retorno à vida pública de conhecidos políticos que, no passado, se comprometeram com a subversão, direta ou indiretamente, e de outros que marcaram suas passagens nos cargos públicos pela incompetência, corrupção e procedimentos dúbios constitui um fator favorável à reativação da subversão no País e, no mínimo, ao desprestígio do Governo, pois inexistem indicações de que se recuperaram de suas fraquezas morais e/ou convicções ideológicas."
Em dezembro de 1981, o coronel Clidenor de Moura Lima, chefe da Agência Regional do SNI em Recife (ARE), visitou o governador Tarcísio Burity. O objetivo do encontro era tratar das nomeações consideradas problemáticas pelos órgãos de segurança. A descrição da conversa foi registrada em um informe produzido pelo próprio Clidenor, em 25 de fevereiro de 1983.
Questionado sobre a presença daqueles auxiliares em sua administração, Burity teria respondido que as nomeações faziam parte de uma estratégia política:
— A nomeação desse pessoal obedeceu a uma estratégia, visando conquistar, neutralizar ou desmoralizá-los, pelo fato de terem passado a compor o Governo e mudado de conduta política.
Tarcísio de Miranda Burity, indicado ao cargo de governador durante a ditadura militar, posteriormente voltou ao comando do estado pelas vias democráticas ▪️ Arquivo Nacional
Em seguida, o documento procurava demonstrar as mudanças de comportamento observadas dos nomeados. Gonzaga, por exemplo, teria "abandonado a postura crítica que mantinha em relação ao governo estadual".
Se Burity realmente adotou a estratégia de "conquistar", "neutralizar" ou "desmoralizar" seus nomeados, ou se apenas procurava tranquilizar os órgãos de segurança, é algo impossível de determinar a partir da documentação disponível. Qualquer conclusão nesse sentido pertenceria ao campo da especulação.
O fato é que a explicação do governador mostrou-se suficiente para que, dois anos depois, o próprio chefe da Agência Regional do SNI reconhecesse que as suspeitas levantadas anteriormente já não encontravam respaldo nos fatos observados.
O relatório concluiu que:
"não existem indicações de que as referidas pessoas estejam, atualmente, procedendo, moral ou ideologicamente, de maneira favorável à reativação da subversão no País ou ao desprestígio do Governo".
Gonzaga Rodrigues, natural de Alagoa Nova (PB), filho único de Manuel Avelino Rodrigues e Antonina Freire Rodrigues, completou 93 anos de vida no último dia 21 de junho de 2026, dos quais mais de 70 dedicados ao jornalismo e à literatura, pode ser considerado uma lenda viva da crônica paraibana ▪️ Fonte: Jornal A União
A conclusão do relatório guarda certa ironia histórica. Depois de 13 anos acompanhando os passos de Gonzaga Rodrigues, os órgãos de informação chegavam, enfim, a uma constatação que o próprio jornalista jamais escondera. Apesar de suas convicções de esquerda, de sua proximidade com movimentos sociais e da liderança que exercia na imprensa paraibana, Gonzaga nunca foi um radical.
O homem que os relatórios classificavam como ligado a "agitadores" e "subversivos", que "deturpava notícias" para "intranquilizar a população", era o mesmo que, anos depois, definiria a si próprio como alguém incapaz de desejar paredões ou perseguições. No fim das contas, a longa vigilância do regime serviu apenas para confirmar aquilo que o próprio Gonzaga sempre soube sobre si mesmo.
Mesmo diante das perseguições e do monitoramento do Regime Militar, Gonzaga revelou que aquela foi uma fase muito grata de sua vida. E que vida! Se alguma coisa esses documentos revelam, é a extraordinária trajetória de um homem que a Paraíba aprendeu a admirar. Aos 93 anos, o velho Gonzaga continua a nos surpreender. Gratos somos nós, seus contemporâneos, por testemunharmos a trajetória singular de Gonzaga Rodrigues.