Como já fizemos entender , elas eram sete. Um grupo coeso e de amizade de anos, desde os tempos da boneca e de pular amarelinha. Vamos ...

O inusitado caso das 7 mulheres

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Como já fizemos entender, elas eram sete. Um grupo coeso e de amizade de anos, desde os tempos da boneca e de pular amarelinha. Vamos a elas: Das Graças, Do Carmo, Da Guia, Das Dores, Da Conceição, Do Socorro e Nair. À exceção de Nair, as outras seis eram mulheres lindas que só vendo. Nessa meia dúzia de beldades, tínhamos as loiras, as morenas e até uma ruiva. Olhos que iam do verde-esmeralda ao azul-celeste, passando pelos
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amendoados e os negros como uma jabuticaba. Deusas gregas, diziam uns ao se referirem àquelas esculturas, àqueles corpos onde nada sobrava e nada faltava. O detalhe é que ali todas eram solteiras e assim estavam; devemos tais circunstâncias ao nível de exigência dessas seis mulheres. Pretendentes não faltavam.

Mas precisamos contar um pouco de Nair. Pobrezinha, destoava daquela confraria no quesito beleza, mas era muito querida pelo jeito extrovertido, sempre pronta a um chiste ou a uma pilhéria e, o mais importante, amiga presente nas horas difíceis. Era parte do grupo e tinham-na como uma igual. Igual? Sim, pela consideração que nutriam por ela, mas, anatomicamente... Mirradinha, passava alguns centímetros de um metro e meio. Cabelos castanhos, opacos, cortados à Chanel, não lhe traziam encantos. Pouca coisa na proa e quase nada na popa; mal comparando, estava mais para uma tábua de engomar roupa. Uma voz gasguita para completar o quadro desfavorável.

Todas ali na faixa dos vinte e poucos anos e, a cada primeira quinta-feira do mês, fizesse sol ou chuva, reuniam-se ao final da tarde na varanda de Da Guia para celebrar a vida e colocar a prosa em dia. Rolavam canapés e vinho para elevar o humor das meninas. Depois de uns copos, segredo ali, nem pensar. Vinham à baila aventuras, namoricos
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eventuais, flertes, algumas experiências mais atrevidas. Nem preciso estender o assunto, porque todo mundo sabe o papo que acontece quando mulheres se reúnem, ainda mais esvaziando taças. Nessas horas, quem ficava ali na baliza de escanteio era Nair. Quieta, na moita. Não gostava de revelar intimidades.

Acontece que, num dado momento, surge por lá um cirurgião-dentista que, além de uma suposta competência profissional, era um mocetão bonito que só e regulava de idade com nossas garotas. Foi um alvoroço nas imediações e na varanda de Da Guia. Logo, nosso odontólogo virou sonho de consumo da mulherada do entorno, ainda mais quando souberam que o rapaz estava solteiro e sem outros compromissos. Pronto! Das Dores foi a primeira a marcar horário para uma “consulta de rotina” e depois fez reclame do mancebo com suas parceiras. As outras cinco deram um jeito, conseguiram horário e foram abrir a boca para o bonitão dar uma espiada. Consta que Das Dores e Do Carmo deram uns pegas no sujeito depois das consultas.

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E Nair? Nossa amiguinha ficou na dela. Logo descobriu que o doutorzinho começara a frequentar o bate-coxa do Flor de Liz, uma imitação de boate onde se ia para dançar bolero, samba, valsa e até foxtrote, se a orquestra fosse das antigas.

Nair não contou às amigas que o deus pagão, quando largava o boticão, gostava de, aos sábados à noite, exibir suas qualidades de pé de valsa lá no Flor. Na primeira oportunidade, a baixinha apareceu por lá. Ficou na espreita até que surgiu uma brecha e chegou junto, apresentou sua candidatura e tirou aquele colosso de homem para dançar. No “Bésame Mucho”, puxou o caba pelo cachaço e tascou-lhe um beijo nos beiços.

Ao saírem, levou a criatura para seus aposentos (os dela). “Vou ensinar umas coisas para você”, disse a baixinha assim que chegaram. Nunca mais se separaram. Nair deu um tempo sem aparecer na varanda de Da Guia, até que, numa tarde, surgiu com a novidade:

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— Vou me casar. Adivinhem com quem.

— Com quem? — quiseram saber.

— Com o dentista — revelou Nair.

Surpresa, susto, comoção. Das Dores e Do Carmo, que já haviam feito algumas safadezas com o doutor, quiseram saber:

— Como conseguiu?

Então, Nair revelou o segredo:

— É que eu sei fazer “as coisas”.

E ainda deu um conselho às amigas:

— Se não souber fazer “as coisas” bem direitinho, não adianta ser bonita.

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