Ao meu amigo, confrade e professor João Trindade Cavalcanti O meu texto da semana passada ( Quem precisa de edições críticas? | Am...

José Lins e a edição crítica

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Ao meu amigo, confrade e professor João Trindade Cavalcanti
O meu texto da semana passada (Quem precisa de edições críticas? | Ambiente de Leitura Carlos Romero) foi uma introdução sobre o tema da edição crítica, motivado por um curso que ministrei sobre José Lins do Rego, tendo como objeto a Trilogia de Carlos de Melo, denominação que dei às três obras iniciais do escritor, Menino de engenho (1932), Doidinho (1933) e Banguê (1934).

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A releitura dessas obras não só me proporcionou avançar no aprofundamento crítico e analítico desses livros, mas também observar como o descuido com a edição de textos, no Brasil, é a coisa mais democrática que pode existir: atinge a todos indiscriminadamente. Por outro lado, essa constatação aponta para a necessidade urgente de projetos de edições críticas que, conforme relatei, são poucas, comprometendo os estudos de quem se dedica à análise literária.

De modo a apresentar o problema, sem a intenção de cansar o leitor, farei considerações apenas levando em conta o texto de Banguê. Para este artigo, utilizei-me de 2 edições de Banguê (Nova Aguilar, 1976, e
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a 21ª da José Olympio, de 2002) e duas de Fogo morto (Nova Aguilar, 1976, e a 55ª da José Olympio, de 2001). O confronto entre as edições da Aguilar e da José Olympio teve o sentido de observar se os erros persistem de uma edição para outra ou se foram corrigidos. Com relação a Fogo morto (1943), o objetivo é tentar desfazer a confusão em torno do nome de um personagem, que aparece em Banguê, grafado de forma diferente daquela registrado naquela obra. Para tal confronto, necessitamos consultar três edições de Menino de engenho (Nova Aguilar, 1976; a 33ª da Nova Fronteira, de 1994, e a 84ª da José Olympio, de 2002), e duas de Meus verdes anos (Nova Aguilar, de 1976, e a 6ª da José Olympio, de 2000), onde o personagem também é citado.

Comecemos por esse confronto com o nome do personagem, “Né do Cipó Branco”, por estar, a nosso ver, a confusão resolvida. O dono do engenho Cipó Branco aparece em Banguê (Nova Aguilar, 1976, III Parte, Capítulo II, p. 376), com o mesmo nome das outras obras de José Lins, como Menino de engenho e Meus verdes anos. Apenas em Fogo morto (Nova Aguilar, 1976, II Parte, Capítulo I, p. 602), o personagem aparece como “Nô do Cipó Branco”, nome ratificado na edição da José Olympio (55ª, 2001, p. 222). Como se pode observar, há um erro de edição, em Fogo morto,
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tendo em vista a predominância de nome “Né”, em relação a “Nô”. E, com relação à edição da Nova Aguilar, que publicou a obra completa de José Lins, em 2 volumes, afirmamos ser a que apresenta mais erros. A amostragem, que aqui será feita, dará uma ideia do que espera o leitor desavisado.

Na Primeira Parte de Banguê (O velho José Paulino, 10 Capítulos), encontramos os seguintes erros “jio Juca” (Capítulo IV, p. 300) e “João de Jana” (Capítulo IX, p, 321), em lugar de “tio Juca” e “João de Joana”. São erros evidentes de composição gráfica, o que hoje chamaríamos de “erros de digitação”. Ambos foram corrigidos na edição da José Olympio (21ª, 2002).

Algo semelhante acontece na Segunda Parte (Maria Alice, 10 Capítulos), em que se pode ver “tio Juca” (Capítulo I, p. 329), em lugar de “tio Joca”, corrigido na edição da José Olympio. Aqui o problema é mais grave, tendo em vista que os dois personagens existem. O “tio Juca” é o filho do velho José Paulino, consequentemente, tio de Carlos de Melo. O “tio Joca” dono do engenho Maravalha, é irmão de José Paulino, sendo, portanto, tio-avô de Carlos de Melo. Ainda que o contexto do capítulo possa esclarecer a confusão tipográfica, não será suficiente para dirimir a dúvida do leitor que está preocupado apenas com o enredo.
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Ainda nessa mesma parte, existe um evidente erro de composição: “dizim” (Capítulo IV, p. 343) está pela forma verbal “diziam”, corrigida na edição da José Olympio.

Na Terceira Parte (Banguê, 23 Capítulos), há erros diversos. Poucos são os erros que poderiam ser considerados de composição, como “camumbebe” (duas vezes, Capítulo XI, p. 419), por “camumbembe”, não corrigido na edição da José Olympio. É possível, no entanto, que, sendo uma fala de Zé Marreira, o “erro” tenha sido intencional, para mostrar uma certa boçalidade na maneira como o personagem é apresentado.

Com relação ao termo “Manguape” (Capítulo XIII, p. 431), que se encontra na edição da José Olympio com a mesma grafia, acreditamos referir-se a “Mamanguape”, local onde Januário, trabalhador do Santa Rosa, “respondeu júri”. Desconhecemos existir alguma cidade, na Paraíba, com o nome de Manguape, pode, no entanto, ser uma corruptela de Mamanguape. Não há como desfazer a dúvida. O erro tipográfico já é muito evidente em “Erneto” (Capítulo XIX, p. 461), por “Ernesto”, corrigido na edição da J. Olympio.

Detectamos um erro devido à letra quase indecifrável de José Lins (como há em outros romances), que transformou “fala” (edição da J. Olympio), em “lata” (Capítulo IX, p. 411). A troca de “meus”
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(Capítulo XVII, p. 455), em lugar de “maus”, na frase “Pensava ela que os moços da família não fossem atrás dos maus exemplos”, corrigido na edição da J. Olympio, compromete o sentido da frase, por atribuir a Carlos de Melo a origem dos exemplos ruins da família, quando, na realidade, ele é um dos moços influenciado pelos maus exemplos dos mais velhos.

Dos dois casos de concordância, apenas um poderia ser considerado erro de composição e hipercorreção, aquele que envolve o verbo “haver”, no sentido de “existir”, que ocorre na frase “Em terras dele haviam moradores abastados” (Capítulo II, p. 380), corrigido para “havia”, na edição da José Olympio. O segundo caso de concordância se encontra numa oração que envolve sujeito posposto, sendo uma ocorrência muito comum na linguagem oral e menos preocupada com a norma gramatical. Na edição da Nova Aguilar, lemos “E vinha outras histórias” (Capítulo XVI, p. 444), corrigido para “vinham”, na edição da J. Olympio. Vemos aí uma similaridade com a construção de sujeito preposicionado, também muito comum na fala: “Capaz do moleque estar pensando em me tomar o engenho” (Capítulo XII, p. 422), que, na edição da J. Olympio é preservada.

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Por fim, temos uma forma verbal que ficou no ar: “deixa” (Capítulo XVIII, p. 454), corrigido para “deixava”, na edição da J. Olympio, como bem mostra a necessidade da coerência exigida entre os tempos verbais, na frase “Naqueles meus restos de governo deixava que desse as últimas ordens”.

Quando falamos, com uma certa insistência, da necessidade de uma edição crítica, temos a perfeita noção de que essa exigência não é de hoje. No mundo ocidental, ela inicia quando o tirano grego Pisístratos, no século VI a. C., encomenda uma versão escrita dos poemas homéricos, Ilíada e Odisseia, até então circulando apenas oralmente. A versão ficou conhecida como “vulgata homérica”, termo que designa a existência de uma forma comum,
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a ser usada por todos, poetas ou não, encaminhando-se para se tornar um texto canônico.

Com a criação da Biblioteca de Alexandria, gramáticos, filólogos, filósofos e poetas se empenham na criação de edições referenciadas, que pudessem ser citadas, em qualquer lugar onde as obras homéricas fossem lidas, com a precisa identificação dos seus versos: divisão das duas obras em 24 Cantos, cada canto correspondendo a uma letra do alfabeto grego. Para a Ilíada, as letras maiúsculas, para a Odisseia, as letras minúsculas. Assim, para a referência Β, 32, deve-se compreender Ilíada, Canto IΙ, verso 32; para a referência β, 32, teremos Odisseia, Canto IΙ, verso 32.

A lição foi aprendida pelos franceses e, no século XVI, o humanista Henri Estienne, dito em latim Stephanus, criou o que se chama a “paginação de Stephanus”, quando dividiu a obra de Platão em trechos numerados. No século XIX, o filólogo alemão August Immanuel Bekker dá um grande impulso aos estudos de fixação dos textos, ao criar a “paginação de Bekker”, com o mesmo objetivo de Stephanus, dividindo a obra de Aristóteles em trechos numerados, ao editar criticamente a sua obra, a partir de 1831.

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A partir de Stephanus e de Bekker não se utiliza mais citar Platão ou Aristóteles, pelo ano de edição e da página, mas pela numeração, o que propícia o trecho ser encontrado em qualquer edição e em qualquer língua que utilizem os sistemas de paginação citado. O método é tão eficiente que o trecho 619a-620c só pode se referir à República, de Platão. Já o trecho 1451a-1452b só pode se referir à Poética, de Aristóteles.

E o Brasil onde se encontra nesse assunto? Patinando, de olhos vendados, sem conhecer a necessidade de investimento público ou privado para a produção de edições críticas de nossos autores. Que o diga José Lins do Rego.

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