A poesia de Políbio Alves ocupa um lugar singular na literatura paraibana contemporânea. Em Varadouro, sua obra mais emblemática, o poeta transforma um espaço geográfico específico de João Pessoa — o antigo bairro do Varadouro e as margens do Rio Sanhauá — em território mítico, histórico e existencial. O que poderia ser apenas uma evocação memorialística converte-se em uma vasta cartografia poética da identidade paraibana.
Publicado originalmente em 1989, Varadouro apresenta uma poesia de fôlego épico, rara na produção brasileira contemporânea. Políbio não se limita ao lirismo intimista; sua voz procura abarcar a experiência coletiva de um povo. O poeta revisita os processos de ocupação da Paraíba, os conflitos sociais, as marcas da colonização e a vida dos homens e mulheres anônimos que construíram a história das margens. O rio deixa de ser apenas paisagem para tornar-se personagem, memória e testemunha do tempo.
Um dos maiores méritos da obra reside na capacidade de fundir memória pessoal e memória coletiva. O menino pobre que conheceu o mangue, as ruas do Varadouro e a pulsação popular da cidade reaparece transfigurado pela linguagem poética. A infância do autor torna-se matéria simbólica capaz de representar a trajetória de inúmeras gerações de paraibanos. Assim, a geografia afetiva transforma-se em geografia histórica.
Do ponto de vista formal, Políbio Alves trabalha uma dicção própria, marcada pela economia verbal, pela intensidade imagética e pela musicalidade construída sem excessos ornamentais. Seus versos avançam como o curso do próprio Sanhauá: sinuosos, reflexivos e por vezes turbulentos. Há um permanente diálogo entre o concreto e o mítico, entre o documento histórico e a invenção poética. Essa tensão confere à obra uma densidade rara e uma permanente atualidade.
A crítica já observou que Varadouro representa uma espécie de renovação da épica nordestina. Não se trata da epopeia clássica dos heróis vitoriosos, mas da epopeia dos vencidos, dos trabalhadores, dos pescadores, dos habitantes das margens sociais e geográficas. Políbio constrói uma narrativa poética em que o heroísmo surge da resistência cotidiana. Seu canto é social sem ser panfletário; político sem perder a dimensão estética.
A força de Varadouro também reside na universalização do regional. Embora profundamente enraizada na paisagem paraibana, a obra ultrapassa fronteiras locais. O rio Sanhauá torna-se metáfora dos rios da memória humana; o bairro do Varadouro converte-se em símbolo de todos os lugares onde o passado continua dialogando com o presente. Essa capacidade de transformar o particular em universal explica a permanência da obra e seu reconhecimento como uma das expressões mais importantes da literatura paraibana moderna.
Em síntese, Varadouro é um livro que reúne história, memória, identidade e invenção poética numa mesma corrente verbal. Políbio Alves demonstra que a poesia pode ser simultaneamente documento cultural e criação artística de alto nível. Sua voz ergue-se como uma das mais autênticas da Paraíba, fazendo do rio, da cidade e do povo matéria de uma épica contemporânea profundamente humana.







