Em sua obra Políticas da Inimizade, publicada originalmente em francês em 2016, o filósofo camaronês Achille Mbembe desenvolve uma crítica às formas contemporâneas de poder, exclusão e violência ao longo de cinco capítulos. Em conjunto, esses capítulos revelam sua preocupação com os mecanismos atuais de produção da exclusão, da violência e da morte, demonstrando como o racismo, o colonialismo e a lógica da inimizade continuam a estruturar o ódio nos discursos políticos
e nas relações sociais do mundo contemporâneo.
▪ No primeiro capítulo, “A Saída da Democracia”, o autor defende que as democracias contemporâneas estão sendo substituídas por sistemas de controle e segregação, nos quais a fragmentação territorial, o militarismo e a criminalização de grupos subalternizados servem para legitimar práticas de exclusão, violência e extermínio.
▪ No segundo capítulo, “A Sociedade de Inimizade”, ele argumenta que a política contemporânea se organiza em torno da construção do inimigo. O medo e a insegurança estimulam a hostilidade em relação ao outro, legitimando mecanismos de vigilância e práticas de violência associadas ao discurso da “guerra ao terror”.
▪ No terceiro capítulo, “Necropolítica”, Mbembe demonstra que as ditaduras contemporâneas exercem controle sobre a vida ao decidir quais grupos podem ser expostos à morte e a condições de existência marcadas pela morte social.
Na Guiné Equatorial, o presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo assumiu o poder em 1979, após um golpe de estado contra seu tio, Francisco Macías Nguema. Obiang é apontado pela revista Forbes como um dos governantes mais ricos do mundo, apesar da população do seu país ser considerada uma das mais pobres do planeta. O país africano vive uma das mais longas ditaduras da história.
▪ No quarto, “A Farmácia de Fanon”, a descolonização é apresentada como uma ruptura com as estruturas de opressão colonial. Por meio da resistência, especialmente dos sujeitos negros, emergem novas formas de ação política, voltadas à conquista da liberdade, da dignidade e da emancipação.
▪ No último capítulo, “Esse Meio-Dia Atordoante”, Mbembe critica a modernidade colonial por excluir os povos negros da condição plena de humanidade, por meio de processos de invisibilização, objetificação e exploração racial. O autor defende o reconhecimento de formas mais inclusivas
Na Rússia, o presidente Vladimir Putin está no centro do poder há mais de 26 anos. Seu governo é alvo de críticas por restrições às liberdades civis, perseguição a opositores e repressão à imprensa independente.
e plurais de compreender a humanidade e o mundo.
Mbembe argumenta que as falsas democracias modernas têm sido progressivamente estruturadas por meio do medo e da produção permanente de inimigos. Em vez de promover o respeito, o diálogo entre os divergentes e a boa convivência entre as diferenças, muitas sociedades passaram a organizar-se em torno da identificação de ameaças reais ou imaginárias, de forma a legitimar mecanismos de segregação, vigilância e eliminação simbólica ou material do outro. Nesse sentido, temas apresentados na obra Políticas da Inimizade, como o “objeto enlouquecedor”, o “inimigo como outro de si mesmo”, os “condenados da fé”, o “estado de insegurança” e o “nanorracismo” — este último referente a práticas cotidianas e difusas que desvalorizam e inferiorizam pessoas negras —, revelam diferentes dimensões de uma mesma crise civilizatória, marcada pela dificuldade de reconhecer a alteridade e pela expansão de formas sutis e explícitas de violência.
A expressão “objeto enlouquecedor” é compreendida como algo que desperta medo ou obsessão a ponto de comprometer a capacidade de julgamento racional dos indivíduos. Nas sociedades contemporâneas, marcadas pelo consumismo e pela hiperconectividade,
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objetos materiais, ideologias, identidades e imagens podem adquirir um poder quase absoluto sobre a subjetividade. Sob a lógica neoliberal, o sujeito é constantemente estimulado a competir, consumir e produzir. Por exemplo, o sucesso passa a ser apresentado como uma obrigação moral, enquanto o fracasso é interpretado como responsabilidade individual. Essa dinâmica produz ansiedade permanente e favorece a busca por culpados para as frustrações pessoais e coletivas. O “objeto enlouquecedor” torna-se, então, um elemento que alimenta fantasias de plenitude ou de ameaça, contribuindo para a construção de inimigos imaginários. Nessa perspectiva, o outro frequentemente aparece como um obstáculo à realização do desejo, transformando-se em alvo de hostilidade. Diante disso, a sociedade da inimizade surge quando a frustração deixa de ser interpretada como resultado de estruturas sociais complexas e passa a ser atribuída à presença de grupos considerados indesejáveis.
Um dos aspectos centrais da reflexão de Mbembe consiste na ideia de que o inimigo não é apenas alguém exterior ao sujeito, mas também uma projeção de suas próprias contradições internas. Nesse sentido, a figura do outro frequentemente funciona como espelho das angústias, dos medos e das fragilidades que o indivíduo ou a coletividade recusam reconhecer em si mesmos. Essa concepção aproxima-se das reflexões desenvolvidas pelo médico neurologista e psicanalista austríaco
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Sigmund Freud (1856–1939), especialmente em seus estudos sobre o narcisismo e os mecanismos de projeção. Aquilo que é rejeitado em si tende a ser identificado e combatido no outro. O estrangeiro, o pobre, o diferente ou o dissidente tornam-se receptáculos simbólicos das tensões internas de uma sociedade. Desse modo, a produção do inimigo não decorre apenas de diferenças objetivas, mas também de uma necessidade psicológica e política de externalizar conflitos. A “sociedade da inimizade” transforma o outro em uma ameaça permanente porque necessita dele para sustentar sua própria identidade.
A expressão “os condenados da fé” remete a indivíduos e grupos que sofrem perseguição, exclusão ou violência em razão de suas crenças religiosas ou convicções espirituais. Ao longo da história, as religiões foram frequentemente utilizadas tanto como instrumentos de emancipação quanto como mecanismos de dominação. Na “sociedade da inimizade”, a fé pode ser convertida em um marcador de alteridade radical. O pertencimento religioso passa a definir fronteiras rígidas entre aqueles considerados dignos de confiança e aqueles percebidos como perigosos.
O discurso religioso, que deveria promover a fraternidade, pode ser mobilizado para justificar exclusões. O outro deixa de ser visto como semelhante e passa a ser interpretado como uma ameaça à pureza moral, cultural ou espiritual da comunidade.
A consequência é a intensificação de preconceitos, discriminações e conflitos. Paradoxalmente, o discurso religioso, que deveria promover a fraternidade, pode ser mobilizado para justificar exclusões. O outro deixa de ser visto como semelhante e passa a ser interpretado como uma ameaça à pureza moral, cultural ou espiritual da comunidade. Surge, então, uma lógica que transforma diferenças legítimas em justificativas para práticas de intolerância.
Outro conceito central da “sociedade da inimizade” é a consolidação de um “estado de insegurança”. O medo torna-se uma tecnologia política. Governos, instituições e meios de comunicação frequentemente enfatizam riscos, ameaças e perigos, produzindo uma sensação constante de vulnerabilidade. Essa insegurança não se limita à violência física; ela envolve também a precariedade econômica, a instabilidade laboral, as crises migratórias, as transformações tecnológicas e as incertezas culturais. O resultado é uma sociedade marcada pela ansiedade coletiva.
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Nessas circunstâncias, cresce a demanda por mecanismos de controle e vigilância. Em nome da segurança, ampliam-se as práticas de monitoramento, a restrição de direitos e o fortalecimento de fronteiras. Como observa Mbembe, o medo torna-se um recurso político capaz de legitimar medidas que, em outras circunstâncias, seriam consideradas incompatíveis com os princípios democráticos. O “estado de insegurança” favorece a busca por inimigos identificáveis. Quanto maior a sensação de ameaça, mais intensa tende a ser a necessidade de encontrar responsáveis pelos males sociais.
O conceito de “nanorracismo” refere-se às manifestações microscópicas e cotidianas do preconceito. Diferentemente das formas clássicas de racismo institucionalizado, ele manifesta-se por meio de gestos, comentários, piadas, suspeitas e atitudes aparentemente insignificantes, mas que, acumuladas, produzem exclusão e sofrimento. Essas práticas são frequentemente naturalizadas e reproduzidas de maneira inconsciente. Contudo, sua repetição constante contribui para a manutenção de hierarquias sociais e para a desumanização de determinados grupos.
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O “nanorracismo” demonstra que a inimizade não se expressa apenas em grandes eventos históricos ou em políticas estatais; ela também se infiltra nas relações cotidianas. Associada a esse fenômeno, surge a “narcoterapia”, entendida metaforicamente como o conjunto de mecanismos utilizados para anestesiar a consciência diante das contradições sociais. O entretenimento excessivo, o consumo compulsivo e determinadas formas de alienação cultural podem funcionar como recursos que impedem a reflexão crítica sobre as desigualdades e as injustiças. Enquanto o “nanorracismo” fragmenta o tecido social por meio de pequenas agressões cotidianas, a “narcoterapia” reduz a capacidade coletiva de perceber e enfrentar tais processos. Ambos contribuem para a reprodução da sociedade da inimizade.
Achille Mbembe, historiador, cientista político e filósofo nascido em Camarões, conhecido por seus estudos sobre colonialismo, pós-colonialismo, poder, identidade e globalização. Tornou-se especialmente conhecido pelo conceito de “necropolítica”, desenvolvido para analisar como Estados e estruturas de poder determinam quem pode viver e quem pode morrer.
O conjunto da obra pode ser sintetizado da seguinte forma: a “sociedade da inimizade” descreve um mundo no qual o medo, a insegurança e a produção de inimigos passaram a ocupar uma função determinante na organização da vida política e social. O “objeto enlouquecedor” alimenta obsessões e frustrações; o “inimigo como outro de si mesmo” aparece como projeção das próprias contradições; os “condenados da fé” revelam os perigos da intolerância religiosa; o “estado de insegurança” legitima mecanismos de controle; e o “nanorracismo” demonstra como a exclusão pode operar de forma invisível e cotidiana.
Achille Mbembe propõe a reconstrução de uma ética da alteridade, fundamentada no reconhecimento da vulnerabilidade compartilhada entre os seres humanos. Em vez de organizar a vida coletiva a partir da hostilidade, torna-se necessário desenvolver formas de convivência capazes de reconhecer a diferença não como ameaça, mas como condição fundamental da existência comum. Somente assim será possível superar as estruturas de exclusão que caracterizam a sociedade da inimizade e construir uma política orientada pela solidariedade, pela justiça e pelo reconhecimento mútuo.