Tenho um amigo que acredita ter descoberto a fórmula da paz universal. Não está nos tratados diplomáticos, nem nas religiões, nem no...

Quando a distância é boa?

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Tenho um amigo que acredita ter descoberto a fórmula da paz universal. Não está nos tratados diplomáticos, nem nas religiões, nem nos livros de autoajuda vendidos em aeroportos. É muito mais simples: não fique perto demais das pessoas.

Segundo ele, toda amizade vem com uma data de validade escondida. Quanto mais convivência, mais rápido o prazo vence. O sujeito não confia nem em abraço prolongado. Para ele, intimidade é o primeiro estágio da guerra civil.

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Foto: Andrea Brataas
Pode parecer rabugice. Talvez seja mesmo. Mas a idade ensina que algumas verdades chegam fantasiadas de amargura.

Vivemos numa época curiosa. Nunca houve tanta gente conectada e tão pouca gente realmente interessada umas nas outras. Os celulares aproximaram corpos distantes e afastaram almas vizinhas. Somos convocados diariamente a participar de grupos, reuniões, festas, confraternizações, encontros, reencontros e celebrações cujo principal objetivo parece ser produzir fotografias para provar que estivemos lá.

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Foto: Simon Harvey
Lá estamos nós, sorrindo para pessoas que mal conhecemos, enquanto a solidão, essa velha senhora injustamente difamada, permanece sentada num canto, esperando que alguém descubra que ela não morde.

Existe uma superstição moderna segundo a qual a felicidade mora na companhia constante. Não mora. Muitas vezes, ela mora justamente no intervalo entre um encontro e outro. Mora na saudade. Mora na ausência temporária. Mora naquele silêncio que impede que duas pessoas descubram defeitos demais uma na outra numa velocidade excessiva.

O próprio livro dos Provérbios, que já conhecia a alma humana muito antes dos psicólogos e dos influenciadores digitais, aconselhava: "Põe raramente o pé na casa do teu próximo, para que ele não se enfade de ti e te aborreça." Traduzindo para o português contemporâneo: não vire decoração da sala dos outros. Schopenhauer, sujeito que provavelmente jamais seria eleito rei da simpatia, comparava os seres humanos a porcos-espinhos tentando se aquecer no inverno. Se ficam longe demais, congelam. Se chegam perto demais, se espetam.

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Foto: Unsp
Khalil Gibran, bem mais elegante e menos mal-humorado, escreveu que deveria haver espaços na união. É um conselho sábio. As árvores de uma floresta não crescem ocupando o mesmo lugar. Nem as estrelas. Nem as pessoas.

Talvez por isso tantas amizades morram de overdose de convivência. Não faltou amor. Faltou ar.

Os antigos monges do deserto sabiam disso. Fugiam das multidões não porque odiassem a humanidade, mas porque a conheciam bem demais. Entendiam que boa parte das nossas discussões nasce da excessiva exposição dos egos. Quanto mais atrito, mais faísca. Quanto mais faísca, mais incêndio.

Não estou defendendo o isolamento. O ser humano não foi feito para viver sozinho. Mas também não foi feito para viver amontoado. Entre a caverna e o engarrafamento existe um caminho civilizado.

Algumas amizades acabam pela distância. Muitas outras acabam pela proximidade excessiva. Sobrevivem aquelas que aprenderam o valor da pausa, do silêncio e da liberdade. Aquelas que não exigem presença permanente para provar afeto.

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Foto: Unsp
Porque existe uma verdade que raramente aparece nos cartões de felicitações: o amor não morre apenas pela ausência. Às vezes, ele morre pelo excesso de presença. Morre sufocado. Morre de convivência. Morre porque alguém confundiu amizade com ocupação em tempo integral.

A distância, quando usada com sabedoria, não é o contrário do amor. É o intervalo que permite que ele continue respirando. Afinal, poucas coisas são tão perigosas quanto transformar uma boa companhia numa obrigação diária. Até o paraíso, visitado todos os dias, acaba precisando de férias.

A convivência excessiva pode desgastar os relacionamentos, assim como o isolamento excessivo pode endurecer o coração. A sabedoria está em amar sem sufocar, ajudar sem invadir e respeitar o espaço de cada um.

Nem sempre as pessoas precisam da nossa presença constante, mas sempre se beneficiam da nossa compreensão, boa vontade e disponibilidade.

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