A deflagração da revolta armada de 1930 começou entre os dias 3 e 4 de outubro, nos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Para...

Ponderações sobre 1930 e a palavra revolução

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A deflagração da revolta armada de 1930 começou entre os dias 3 e 4 de outubro, nos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. Espalhou-se pelo País e ocorreram combates entre revoltosos e legalistas, resultando em mortes e ferimentos de centenas de pessoas. Somente arrefeceram as lutas após a deposição de Washington Luís Pereira de Sousa da Presidência da República, no dia 24 daquele mês de outubro.

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Policiais armados de Minas Gerais, em Manhumirim, às vésperas da Revolução de 1930. A Força Pública mineira teve papel decisivo na derrubada do presidente Washington Luís, mobilizando batalhões que garantiram o controle do estado e apoiaram o movimento liderado por Getúlio Vargas. ▪ Fonte: Biblioteca Nacional
Há registros dos fatos nos acervos da Fundação Getúlio Vargas, na rede mundial de computadores e em livros contendo informações sobre alguns protagonistas1.

Certamente os episódios, assim como seus antecedentes e consequências, serão bem lembrados em 2030. Pesquisei-os examinando principalmente o cenário da história da Paraíba. Foi de grande utilidade
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a releitura da biografia de José Américo de Almeida, escrita por Joacil de Brito Pereira, pois é uma excelente investigação histórica, editada para comemorar os cem anos do nascimento do eminente literato e político brasileiro.

A publicação recebeu o patrocínio do Ministério da Cultura, através do Instituto Nacional do Livro e da Fundação Pró-Memória, e também do Senado Federal. Lançada em Brasília, conta 632 páginas, traz ilustrações e aponta importantes referências bibliográficas2.

Como fontes de suas pesquisas, Pereira indicou obras do próprio Almeida3, valendo-se, igualmente, de livros escritos por Laurita Pessoa Raja Gabaglia4, João Lélis de Luna Freire5 e outros autores, entre os quais José Octávio de Arruda Mello6, que divulgaram artigos e ensaios num volume coletivo7.

Em todas as fontes relacionadas por Pereira, desponta o nome de José Américo como o mais destacado civil e político do Nordeste, entre os tantos que participaram dos episódios agora relembrados.

Almeida chegou a ser “aclamado Interventor da Paraíba e Chefe do Governo Provisório no Norte”, em 3 de outubro de 1930. Gozava de prestígio junto a influentes próceres do cenário nacional. Desfrutava, outrossim, da confiança de militares envolvidos na rebelião, entre os quais Juarez Távora.

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José Américo de Almeida e Juarez Távora: o escritor e político paraibano foi um dos principais articuladores da Aliança Liberal, enquanto o jovem oficial do Exército se destacou na condução das operações militares que contribuíram para a derrubada da Primeira República e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. ▪ Fonte: BN
Távora, convém memorar, esteve entre os conspiradores e combatentes que atuaram na região nordestina. Era um homem impulsionado por ideais revolucionários, oriundo do movimento tenentista de 1922, convicto de que os militares deveriam ser “árbitros supremos da sociedade”. Assim, rejeitava “a ação política dos partidos”, porque admitia que a revolução, para colocar no poder um governante forte e centralizador, seria o caminho adequado para a modernização do País8.

Em 1930, a eleição para Presidente e Vice-Presidente da República separou em campos antagônicos parcelas do povo brasileiro. Na Paraíba não foi diferente. Surgiram divisões por toda parte do Estado.
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Alegoria da Revolução de 1930, com três cavaleiros empunhando as bandeiras dos estados da Aliança Liberal: Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba. ▪ Fonte: Wikimedia
Em algumas regiões, até ocorreram lutas sangrentas.

O pleito eleitoral colocou, de um lado, os simpatizantes da Aliança Liberal. Do outro, posicionaram-se os seguidores do Partido Republicano. Os dois grupos se engalfinharam numa disputa acirrada. Abraçavam diferentes pontos de vista.

Desejavam os republicanos preservar os critérios da tradicional política, que distribuía o poder entre as oligarquias comandadas por chefes de regiões dos estados. Os aliancistas pensavam em mudanças, brigavam por mais centralização, queriam modernizar o País, enfraquecer os chefes políticos locais e concentrar poder nas mãos dos governantes estaduais e do Presidente da República.

Getúlio Dorneles Vargas e João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque governavam o Rio Grande do Sul e a Paraíba. Foram candidatos aos cargos de Presidente e Vice-Presidente do Brasil, disputando pela Aliança Liberal, formada para se contrapor aos concorrentes apoiados pelo governo federal.

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Propaganda da Aliança Liberal para as eleições de 1930, apresentando a chapa de Getúlio Vargas para presidente e João Pessoa para vice-presidente da República. Derrotada nas urnas por Júlio Prestes em uma disputa marcada por denúncias de fraude e forte polarização política, a Aliança Liberal acabaria liderando o movimento que depôs Washington Luís e levou Vargas ao poder em outubro de 1930.
Os candidatos da situação eram os republicanos Júlio Prestes de Albuquerque e Vital Henrique Batista Soares, também chefes dos Executivos dos governos de São Paulo e da Bahia. Contaram com a ajuda do Presidente da República, Washington Luís Pereira de Sousa, que arregimentou em favor deles apoios na maioria dos entes federados.

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Propaganda eleitoral da chapa governista de Júlio Prestes e Vital Soares para as eleições de 1930. Vitorioso nas urnas, Prestes não tomou posse: a Revolução de 1930 interrompeu a sucessão presidencial e inaugurou a Era Vargas. ▪ Fonte: Wikimedia
Aliás, somente três estados — Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba — integraram a Aliança Liberal. Os outros ficaram ao lado das candidaturas republicanas.

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José Pereira Lima (1884–1949), conhecido como Coronel Zé Pereira, líder da Revolta de Princesa (grafada à época como Princeza), movimento armado que desafiou o governo da Paraíba em 1930.
No curso da campanha, surgiram cizânias, afloraram animosidades entre famílias paraibanas e instalaram-se ódios e estremecimentos que fizeram eclodir sangrenta luta armada no interior, na região de Princesa.

Liderada por José Pereira Lima, um respeitado Coronel da Guarda Nacional*,
* A Guarda Nacional foi uma força paramilitar criada em 18 de agosto de 1831, durante o período regencial brasileiro, com o objetivo de manter a ordem, reprimir revoltas e defender a Constituição do Império. Ela serviu como base de poder político para as elites locais. A sua desmobilização ocorreu em 1922. Na primeira República, muitos chefes políticos continuaram agindo com os mesmos poderes que lhes asseguravam as patentes daquela milícia armada criada nos tempos do Império.
que rompera com o governo de João Pessoa, a revolta cresceu entre os meses de fevereiro e julho de 1930.

Houve solene declaração de independência de Princesa (atual Princesa Isabel), cujo território abrangia outras povoações sertanejas, cobrindo uma extensão aproximada de mil setecentos e trinta e nove quilômetros quadrados.

Os revoltosos compuseram um hino, adotaram uma bandeira e organizaram uma milícia bem armada para proteger o território de Princesa, que passou a ser administrada por uma junta governativa composta por José Pereira Lima, José Frazão de Medeiros Lima e Manuel Rodrigues Sinhô.

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Mapa do Território de Princesa — grafado com “z” à época: área do sertão paraibano que, sob a liderança de José Pereira, rompeu com o governo de João Pessoa em 1930. Embora nunca tenha sido reconhecido oficialmente, o território manteve administração própria, forças armadas e ligações diretas com Pernambuco. ▪ Fonte: Wikimedia (adapt.)
A sedição espalhou-se por comunidades sertanejas guiadas por republicanos insatisfeitos com a administração estadual. Todos eles desobedeciam ao governo paraibano, imaginando que a revolta provocaria a intervenção federal, culminando com o afastamento de João Pessoa do comando do Executivo do Estado.

Segundo historiadores, a guerra de Princesa resultou da audácia e dos excessos do dirigente estadual. Joacil Pereira, por exemplo, pensava assim. Em seu estudo, recorreu à palavra de
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João Pessoa (1878–1930), presidente da Paraíba entre 1928 e 1930, tornou-se uma das figuras centrais da crise que culminou na Revolução de 1930; seu assassinato, em Recife, foi explorado politicamente pelos aliados da Aliança Liberal e contribuiu para acelerar a derrubada do governo de Washington Luís.
* Chamava-se de Presidente quem governava o Estado membro da Federação.
um dos principais auxiliares da administração de João Pessoa, o eminente homem público e cultor das letras José Américo, para fortalecer seu argumento. Lembrou Pereira que, no livro O Ano do Nego, o próprio José Américo de Almeida reconheceu que João Pessoa agiu precipitadamente para alterar os costumes políticos na Paraíba.

Voluntarioso, o Presidente* assumiu o poder e imediatamente pôs em prática suas pretensões mudancistas.

José Américo narra que João Pessoa enfrentou com desassombro as arbitrariedades de chefes locais, destes retirando a tradicional “faculdade de manobrar a política para prender ou soltar, conforme seus caprichos. A simples transferência de um cabo do destacamento era, muitas vezes, uma questão fechada.

Livrou-se também a Justiça dessa dependência.

O fisco deixou de ser instrumento de perseguição ou favoritismo para se pagar imposto ou ficar isento desse ônus, de acordo com o comportamento político.

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Havia os que dividiam terras com o beiço, os que acoitavam criminosos e os que faziam do dinheiro público coisa sua.

Foram quebradas influências medievais. Processava-se o expurgo e eram desalojados velhos correligionários acusados de violência ou aproveitamento ilícito. Havia os antigos quadros, as solidariedades crônicas; o essencial era ser do Partido, com direito a todas as regalias e contando com a impunidade. Essas imunidades deixaram de ser reconhecidas contra os próprios sustentáculos do governo. Nunca se tinha visto isso. A Paraíba, desacostumada, testemunhava com escândalo a reviravolta dramática que, não raro, pecava pelo excesso”9.

As providências, embora necessárias, exigiam cautela. Não podiam ser tomadas de forma abrupta, como sucedeu. Se enfraqueciam o poder dos chefes políticos, alguns submissos à liderança de Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa, ex-Presidente da República e tio de João Pessoa, administrador da Paraíba, também provocavam descontentamentos.

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Os coronéis da extinta Guarda Nacional, transmudados em chefes políticos, não se conformavam com as ações do governo paraibano, que aumentava a carga fiscal e introduzia medidas de controle, com rigorosas e inovadoras cobranças de tributos nas fronteiras estaduais.

Zangavam-se com as providências do governo para desarmar as milícias privadas ainda existentes. Nada faziam para desmobilizá-las. Desconfiavam do governante, porque o Estado não lhes dava segurança satisfatória contra ataques dos cangaceiros, que infestavam o interior.

Precisavam, portanto, os chefes partidários manter homens armados para dar tranquilidade às populações interioranas. João Pessoa desdenhava dos argumentos dos caciques partidários. Não os ouvia nem seguia os conselhos do tio Epitácio Pessoa, que possuía grande experiência política. Homem de personalidade marcante, resoluta, firme, obstinada e impulsiva, não levava em conta advertências. Sobrava-lhe coragem, mas lhe faltavam habilidade e calma, paciência e serenidade para seguir as sugestões de fazer paulatinamente as transformações que almejava concretizar. Conduziu-se de modo imprudente. Findou, dessa maneira, levando a Paraíba a uma guerra civil 10.

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Como se verifica, além das dissenções surgidas no cenário nacional, das divisões entre os adeptos das candidaturas que disputavam o pleito presidencial, havia, na Paraíba, para complicar mais ainda o cenário político, a revolta de Princesa.

Os rebelados do Território Livre de Princesa imaginaram que o conflito forçaria o governo federal a intervir no Estado, afastando o imprudente João Pessoa do poder. A expectativa era grande. O dirigente estadual negara apoio aos candidatos do Presidente da República, Washington Luís, e tinha aderido aos opositores do governo central.

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Marcolino Florentino Diniz (sentado), um dos líderes do movimento de Princesa, aparece cercado por alguns de seus comandados, armados com fuzis e cartucheiras. ▪ Acervo FCJA
João Pessoa assumira a chefia do governo da Paraíba, em 1928, graças à decisiva ajuda do Partido Republicano, comandado por chefes de diferentes regiões do Estado, que seguiam as orientações de Epitácio Pessoa. Depois de tomar posse no cargo de Presidente do Estado, largou a agremiação, desprezou correligionários, desdenhou conselhos do poderoso tio, indo abrigar-se na Aliança Liberal.

Homem inteligente, de indiscutível valor, formado, em 1903, pela Faculdade de Direito do Recife, João Pessoa foi advogado durante algum tempo, mas logo passou a exercer cargos públicos. Teve exitosa atuação na Justiça Militar brasileira, como auditor e magistrado. Chegou à elevada
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Henrique Pereira de Lucena (1835–1913), o Barão de Lucena, influente político do Segundo Reinado, tio-bisavô de João Pessoa, cujo assassinato contribuiu para desencadear os acontecimentos que culminaram na Revolução de 1930.
posição de Ministro do Superior Tribunal Militar.

Ninguém duvida da capacidade de João Pessoa para o desempenho das funções que assumiu. Contudo, todos sabem que ele e os irmãos foram sempre favorecidos pelo prestígio da família, uma oligarquia poderosíssima. Eram sobrinhos-netos de Henrique Pereira de Lucena, o Barão de Lucena, ministro do Presidente Deodoro da Fonseca; e tinham, ainda, outro precioso parentesco: o tio e ex-Presidente da República Epitácio Pessoa.

Realizou-se a eleição no dia 1º de março de 1930. Venceram nas urnas os candidatos da situação, Júlio Prestes e Vital Soares. Entretanto, não chegaram a tomar posse. Contendas e tragédias modificaram os rumos dos acontecimentos.

Faltou a João Pessoa serenidade para pacificar o Estado. Era bom administrador e cuidadoso na aplicação de recursos públicos. Essas qualidades lhe deram aliados de elevada qualificação. No entanto, imaginou que não precisava conviver em harmonia com os tradicionais políticos, inclusive os obedientes ao seu tio Epitácio Pessoa, principal responsável por sua ascensão à chefia do Executivo do Estado, onde ainda era desconhecido pela maioria do povo.

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João Dantas (1888–1930), advogado e jornalista paraibano que assassinou João Pessoa em 26 de julho de 1930, no Recife. Embora o crime tenha resultado de uma disputa pessoal e política complexa, sua repercussão foi explorada pela Aliança Liberal e transformou João Pessoa em mártir do movimento de 1930.
Por conta do ousado comportamento, João Pessoa converteu correligionários em adversários. Depois, transformou adversários em impiedosos oponentes, que criticavam os atos de sua gestão. Isso se deu com o combativo advogado e famoso jornalista João Duarte Dantas, ligado ao Partido Republicano e parente de influentes oligarquias locais.

A inimizade entre Pessoa e Dantas decorreu de vários fatos. O Presidente desprezou, em sua administração, as opiniões e o auxílio de muitos que o tinham ajudado. Até perseguiu antigos companheiros, acomodados à orientação do seu tio Epitácio, eminente líder que proporcionara seu ingresso na política estadual.

João Pessoa contrariou interesses de correligionários, que se transformaram em ferrenhos adversários de sua administração. Outros se tornaram seus inimigos. Entre eles estava João Dantas, também dotado de inteligência e coragem, também dono de um temperamento forte e rancoroso.

Pois bem, no dia 26 de julho de 1930, no interior de um estabelecimento comercial na capital de Pernambuco, Dantas atirou e matou João Pessoa. Ainda hoje se indaga: qual foi o verdadeiro motivo do crime?

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Primeira página do Correio da Manhã de 27 de julho de 1930 anunciando o assassinato de João Pessoa, presidente da Paraíba, ocorrido na véspera, no Recife.
Autores alegam que o principal motivo do crime cometido por Dantas foi o arrombamento do seu escritório por policiais, que apreenderam cartas a ele endereçadas por sua namorada, a professora e escritora Anayde da Costa Beiriz.

Na época da invasão, para escapar das perseguições do governante paraibano, Dantas exilara-se na casa do cunhado Augusto Caldas, em Recife.
A Polícia deixou as correspondências de Anayde para Dantas expostas em espaços públicos, com a indiscutível intenção de desmoralizar o advogado e a jovem namorada.
Não queria ser molestado pela Polícia estadual, subserviente aos caprichos do Presidente João Pessoa, que perseguia adversários.

Derrotado na eleição nacional, João Pessoa ficara aborrecido. Além disso, incomodava-se com a revolta de Princesa, receoso de uma possível intervenção federal no Estado. Assim, vingava-se importunando bastante os adversários e inimigos.

No contexto exposto, a Força estadual arrombou, no dia 10 de julho de 1930, o escritório de Dantas, antagonista do governo e inimigo do Presidente da Paraíba.

Suspeitou João Pessoa que os policiais encontrariam, no escritório de Dantas, armas para serem enviadas aos rebeldes do sertão. Mas, na ocasião do arrombamento, a Polícia apenas achou cartas íntimas de
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Anayde Beiriz (1905–1930), professora e poetisa paraibana cuja correspondência com João Dantas foi apreendida e divulgada pelo governo de João Pessoa durante a crise política de 1930.
Anayde da Costa Beiriz para o proprietário do imóvel, pois os dois mantinham um relacionamento amoroso.

A Polícia deixou as correspondências de Anayde para Dantas expostas em espaços públicos, com a indiscutível intenção de desmoralizar o advogado e a jovem namorada.

João Duarte Dantas sentiu-se ofendido. O ódio instalou-se em seu espírito, cresceu e despertou-lhe instintos primitivos, a incontrolável vontade de vingar-se do ultraje.

Poucos dias depois, precisamente no dia 26 de julho de 1930, ao ler os jornais, João Dantas soube que o dirigente paraibano estava na capital de Pernambuco almoçando com correligionários da Aliança Liberal.

Enfurecido, Dantas apanhou o revólver pertencente ao cunhado Augusto Caldas. Foi procurar o governante que o ofendera. Encontrou-o no interior da Confeitaria Glória e o atingiu com os tiros que provocaram sua morte.

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Rua Nova, no centro do Recife, em fotografia da década de 1930. No edifício de cúpula funcionava a Confeitaria Glória, onde João Pessoa foi assassinado por João Dantas em 26 de julho de 1930
Na ocasião do delito, Dantas foi alvejado por um motorista e segurança do Presidente da Paraíba. Uma das balas o atingiu de raspão. O jornalista caiu, sendo detido e levado, depois de receber os primeiros socorros, à cadeia pública do Recife.

O assassinato de João Pessoa forneceu a base da narrativa que os próceres da Aliança Liberal procuravam para transformar num crime de natureza política um homicídio por motivo fútil, um assassinato passional, perpetrado sob violenta emoção por um homem agravado em sua honra pessoal.

Propagaram os liberais que João Pessoa foi morto porque se quis calar sua voz, sufocando o movimento da Aliança Liberal firmada entre os estados do Rio Grande do Sul, Paraíba e Minas Gerais, para implantar reformas no Brasil em benefício do povo.

A narrativa amplamente divulgada provocou enorme comoção. Embalsamaram o corpo de João Pessoa. Conduziram o cadáver para a Basílica de Nossa Senhora das Neves, na cidade da Paraíba, onde permaneceu exposto à visitação pública durante cinco dias. Fizeram reuniões com discursos fúnebres arrebatadores.

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Velório de João Pessoa na capital paraibana, em 1930. Transformadas em grandes manifestações públicas, as cerimônias fúnebres reuniram multidões e contribuíram para consolidar a imagem do político como mártir da Aliança Liberal.
Enquanto inflamavam o povo paraibano, divulgavam, na imprensa, a versão de que ocorrera um crime político para silenciar os liberais e santificavam a figura do governante eliminado, transformando-o num mártir das causas republicanas. Enalteciam as virtudes de Pessoa e encobriam os defeitos que, como qualquer mortal, certamente carregava.

Em 1º de agosto, transportaram o corpo de João Pessoa para o Rio de Janeiro num vapor que parou em alguns portos. Oradores pronunciaram discursos inflamados, difundindo a narrativa dos conspiradores e instigando a população a se rebelar. Na capital da República, o cadáver continuou sendo
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Mapa do litoral da Paraíba, quando a capital do estado ainda se chamava Parahyba (ou Parahyba do Norte). Até 1930, cidade e estado compartilhavam o mesmo nome, como o Rio de Janeiro e São Paulo; após o assassinato de João Pessoa, a capital paraibana foi rapidamente rebatizada em homenagem ao político.
velado até o dia 7 de agosto de 1930, quando se fez o sepultamento.

Na Paraíba, alteraram o nome da capital. Chamava-se Paraíba e passou a se denominar João Pessoa, desde 4 de setembro de 1930.

Tudo isso se deu por artimanhas de líderes revolucionários civis e militares, empenhados na conspiração para derrubar o Presidente da República.

Inteligente, astucioso, cheio de artimanhas, Vargas foi o principal responsável pelo levante de tropas no Rio Grande do Sul, na Paraíba e em Minas Gerais.

Assim, em 24 de outubro de 1930, os revolucionários retiraram pela força o Presidente Washington Luís do cargo de Presidente da República. Uma Junta assumiu a administração do País no primeiro momento. Era composta por três militares, sendo um deles o Almirante Isaías de Noronha e os outros dois os generais Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto.

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Washington Luís (1869–1957) deixa o Palácio Guanabara sob escolta militar após sua deposição, em 24 de outubro de 1930. O episódio encerrou a Primeira República, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e abriu caminho para a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. ▪ Fonte: Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo / Wikimedia
Líderes civis do movimento revolucionário, entre os quais Oswaldo Aranha, Virgílio de Melo Franco, João Neves da Fontoura e o próprio José Américo, convenceram os militares, pressionando os membros da junta governativa a entregar o poder a Getúlio Vargas, impedindo a posse dos eleitos Júlio Prestes e Vital Soares.

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A Junta Governativa Provisória de 1930, formada pelo general Augusto Tasso Fragoso (1875–1945), pelo general João de Deus Mena Barreto (1874–1933) e pelo almirante Isaías de Noronha (1874–1963), governou o Brasil entre 24 de outubro e 3 de novembro de 1930, após a deposição de Washington Luís. Coube ao triunvirato encerrar o antigo governo, impedir a posse de Júlio Prestes e preparar a transferência do poder para Getúlio Vargas.
Vargas assumiu, dessa forma, o governo da Nação. Logo tirou a máscara. Deixou que se visse sua personalidade despótica. Manteve-se no comando do País por aproximadamente 15 anos. Instalou a ditadura do Estado Novo, sem realizar eleições, concentrando em suas mãos as funções da potestade do Estado. Na época, houve perseguições, torturas e assassinatos de adversários.

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Getúlio Vargas ao lado de líderes civis e militares da Revolução de 1930. A deposição de Washington Luís e o impedimento da posse de Júlio Prestes abriram caminho para sua chegada ao poder em novembro daquele ano, dando início a um período em que governaria o Brasil, entre presidências constitucionais e ditatoriais, por quase quinze anos. ▪ Fonte: Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo / Wikimedia
Ninguém desconhece que o Estado Novo simpatizava com tiranias corporativas (fascismo de Mussolini) e socialismos nacionalistas (nazismo de Hitler). Essa situação só se alterou depois que a Alemanha e a Itália afundaram embarcações brasileiras.

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Cartaz de propaganda do Estado Novo retratando Getúlio Vargas como guia da juventude brasileira. Com sua estética de multidões idealizadas, patriotismo exaltado e veneração do líder, a ilustração reflete a linguagem visual típica dos regimes autoritários dos anos 1930 e 1940, período em que o voto popular para presidente permaneceu suspenso no Brasil.
Enquanto se travavam as lutas de 1930, poucos dias antes da deposição do Presidente da República, torturaram e eliminaram João Dantas, no dia 6 de outubro de 1930. O homicídio aconteceu no interior da cela da cadeia do Recife. O advogado não teve chance de defender a própria vida. Seus assassinos cumpriram as ordens recebidas de aliados do desditoso João Pessoa.

Na mesma data e dentro da casa de detenção, mataram Augusto Moreira Caldas, cunhado de Dantas, que estava recolhido ao cárcere por ser proprietário da arma usada para eliminar João Pessoa.

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Augusto Moreira Caldas (1893–1930), advogado, jornalista e cunhado de João Dantas, foi preso após o assassinato de João Pessoa e morreu na Casa de Detenção do Recife ao lado do cunhado. Embora a versão oficial tenha atribuído as mortes a um duplo suicídio, diversos historiadores sustentam que ambos foram assassinados.
Caldas não tivera participação no crime cometido por Dantas contra João Pessoa. Há um volume elaborado por Joaquim Moreira Caldas 11 afirmando que ele, o cunhado de Dantas e irmão do autor do livro, foi uma vítima inocente dos funestos acontecimentos de 1930.

Os homicídios contra Dantas e Caldas aconteceram depois que os revoltosos da Aliança Liberal assumiram o poder na cidade do Recife. Mas, na conta dos revolucionários, coloca-se ainda a eliminação de João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna, no Rio de Janeiro, em 9 de outubro de 1930.

Suassuna era um importante político republicano. Também governara a Paraíba. Era casado com Rita Dantas Vilar Suassuna, parenta de João Dantas. Assassinaram-no porque fora falsamente acusado de ter mandado Dantas eliminar João Pessoa. Os relatos em torno do homicídio de Suassuna, alvejado numa rua do Rio de Janeiro pelos tiros desferidos por um pistoleiro de aluguel, estão registrados em livros.

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João Suassuna (1886–1930), presidente da Paraíba entre 1924 e 1928, ao lado de sua esposa, Rita Dantas Vilar Suassuna. Adversário político de João Pessoa, foi assassinado no Rio de Janeiro em um episódio ligado às tensões desencadeadas pelos acontecimentos de 1930.
Numa das obras, a autora Ana Maria Cesar examina os desdobramentos da Revolução de 1930, relatando os dramas dos processos judiciais que envolveram as mortes de João Suassuna, João Pessoa e João Dantas 12. O outro livro, produzido em parceria pelos escritores Marcos Cavalcanti de Albuquerque e José Nunes, membros da Academia Paraibana de Letras, faz um resgate histórico fundamental sobre a vida do político e magistrado paraibano João Suassuna, discorrendo sobre sua trajetória política e profissional. Além disso, aborda o conflito entre as visões de mundo de Suassuna e do seu sucessor, João Pessoa, e mostra as raízes familiares dos dois dirigentes pertencentes
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Ariano Suassuna (1927–2014), escritor, dramaturgo e professor paraibano, filho de João Suassuna, ex-presidente da Paraíba assassinado em 1930 em meio às tensões políticas. A perda do pai, quando tinha apenas três anos de idade, marcou profundamente sua vida e sua obra, tornando-se uma presença constante em sua memória e em seus escritos.
a tradicionais oligarquias do Estado, que estiveram em posições antagônicas durante a Revolução de 1930 13.

É conveniente recordar que João e Rita Suassuna foram os pais do escritor, dramaturgo e membro da Academia Brasileira de Letras Ariano Vilar Suassuna. Depois do assassinato de Suassuna no Rio de Janeiro, sua viúva mudou-se com os descendentes para o Recife. Exilou-se na capital pernambucana para criar com segurança os filhos, desestimulando vinganças.

A bela poetisa Anayde Beiriz também foi vítima da Aliança Liberal. Por causa da exposição de suas cartas ao namorado, ela sofreu discriminações e hostilidades. Tinha apenas 25 anos. Fugiu para o Recife e não teve paz. Depois do assassinato de Dantas, foi encontrada morta, no dia 22 de outubro de 1930, no Asilo Bom Pastor, da capital pernambucana. Disseram que cometeu suicídio, ingerindo veneno (arsênico), para escapar da implacável retaliação dos revolucionários.

A insurreição provocou injustiças. Alguns rebeldes demonstraram depois que só desejavam chegar ao poder, satisfazer as próprias ambições de domínio, como frequentemente ocorre em diversas rebeliões.
O anseio de parte da sociedade, desejosa da modernização do Brasil, fomentou a Revolução de 1930. O movimento irrompeu graças às ações de civis e militares que aspiravam melhorar o País, “corrigir a política dos caciques, varrer o cangaço, extirpar os desmandos do velho sistema, reformar as estruturas do patriarcalismo, fortalecer o poder público e estabelecer o primado da autoridade legal sobre o poder pessoal dos chefes políticos” 14.

No entanto, a insurreição provocou injustiças. Alguns rebeldes demonstraram depois que só desejavam chegar ao poder, satisfazer as próprias ambições de domínio, como frequentemente ocorre em diversas rebeliões.

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A Junta Governativa Provisória, formada pelos generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e pelo almirante Isaías de Noronha, governou o Brasil entre 24 de outubro e 3 de novembro de 1930. Em apenas dez dias, o triunvirato depôs um presidente, impediu a posse de outro e organizou a chegada de um terceiro ao poder.
Expressões do fundamental direito político de resistência, as revoluções são impulsionadas por insatisfações contra governos desviados do propósito de realizar o bem-estar de todos.

Por vezes, as sedições sucumbem, vencidas por forças da legalidade, mas, em alguns casos, saem vitoriosas, retirando do poder quem não consegue cumprir os deveres necessários para atender aos anseios da maioria do povo.

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Getúlio Vargas e os primeiros ministros do Governo revolucionário, entre eles José Américo de Almeida. A Revolução de 1930 prometia renovar a República, mas, começou suspendendo a Constituição, fechando o Congresso e governando sem eleições.
Numa ou noutra hipótese, as revoltas causam danos materiais, provocam ferimentos e mortes em combates armados, deixando rastros de mágoas e ressentimentos que demandam a sabedoria dos vencedores para pacificar a nação.

Porém, é absurdo falar em tentativa de revolução se os rebeldes não dispõem de armas para derrubar os titulares do poder. Nesses casos, somente se configuram tumultos e arruaças, que podem caracterizar a prática de outros delitos, porque concretamente não ameaçam a existência das instituições do Estado.

A palavra revolução, convém assinalar, implica ruptura da ordem constitucional. Os indivíduos ou os órgãos do Estado podem deflagrá-la. Mas a legitimidade do direito de resistência somente
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se configura quando esses levantes se processam para assegurar o respeito aos valores da democracia. Se isso não ocorre, se acontecem posteriores desvios, a rebelião não se legitima, porque o povo, mais cedo ou mais tarde, volta a se rebelar contra o despotismo proveniente do regime autocrático que se instalou.

Quem estuda com seriedade e isenção científica a política sabe que o exercício do poder leva a abusos; sabe que os dirigentes do Estado precisam conduzir-se com serenidade, respeitar a lei, realizar o bem-estar geral e não se deixar seduzir por tentações tão comuns aos detentores das prerrogativas do domínio no ambiente social.

Afinal, é indispensável compatibilizar os atos do Estado com os valores da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da justiça. Sem o respeito a essas virtudes, o governo de qualquer país age de modo semelhante a um bando criminoso e infelicita a vida de um povo.
(1) BRANDÃO, Ana Maria (org.). “A Revolução de 1930 e seus antecedentes”. FGV/CPDOC. Rio de Janeiro/RJ: Editora Nova Fronteira, 1980. Ver também NETO, Lira. “Getúlio – Dos anos de formação à conquista do poder” (1992/1930).
(2) PEREIRA, Joacil de Brito. “José Américo de Almeida – A saga de uma vida”. Brasília/DF: Instituto Nacional do Livro; Senado Federal, 1987. Sou filho do jurista e escritor Joacil de Brito Pereira (1923/2018) e de sua esposa, a tabeliã Neli Santiago Pereira (1932/2024). Do meu pai herdei a vocação profissional e o gosto pelas letras.
(3) ALMEIDA, José Américo de. “O ano do nego”; “Eu e eles” e “Discursos do seu tempo”.
(4) GABAGLIA, Laurita Pessoa Raja. “Epitácio Pessoa”. (5) FREIRE, João Lélis. “Maiores e menores”.
(6) MELLO, José Octávio de Arruda. “Aliança Liberal e Revolucionarismo”; “Dualidade Pré-revolucionária”; “Influências sobre João Pessoa”; “Da Literatura à Revolução de 30”; “Teoria da Ameaça e Iniciativa Conspiratória”; “Do Bacharel ao Sociólogo”; “Condores e Bacuraus”; e “Salvado do Incêndio”.
(7) ANDRADE, Manuel Correia de et ali. “Geografia, Antropologia e História em José Américo.
(8) NETO, Lira (obra citada, páginas 218 e 219) e PEREIRA (obra citada, páginas 132/144).
(9) PEREIRA, Joacil de Brito. Obra citada. Página 135.
(10) PEREIRA, Joacil de Brito. Obra citada. Página 135.
(11) CALDAS, Joaquim Moreira. “Agora a verdade sobre os fatos de 30”.
(12) CESAR, Ana Maria. “Três homens chamados João: Uma tragédia em 1930”.
(13) CAVALCANTE, Marcos Cavalcanti de; e NUNES, José. “Um magistrado que governou a Paraíba”.
(14) PEREIRA, Joacil de Brito. Obra citada, página 133.

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