Que fim de Copa agoniado foi, para Antonio, aquele Brasil e Itália, lá se vão 56 anos. A bem da verdade, ele chegou a ver a Seleç...

Os gols que Antonio não viu

copa mundo 1970 brasil italia
Que fim de Copa agoniado foi, para Antonio, aquele Brasil e Itália, lá se vão 56 anos. A bem da verdade, ele chegou a ver a Seleção perfilada, no momento do Hino, com a escalação dos sonhos: Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gerson, Rivelino, Jairzinho, Pelé e Tostão.

E mais não viu porque foi arrastado por Soninha para os fundos do quintal de Seu Rodolfo e Dona Luzia, o casal de idosos acostumado a acolher para filmes, novelas e futebol os parentes, os amigos e os televizinhos. Estes últimos, sem aparelhos de tevê nem liberdades suficientes para sofás e tapetes, contentavam-se com as janelas. Pobre Antonio. Que preço doloroso, desumano, cobravam dele o momento e as circunstâncias... Via-se obrigado a escolher a moça, ou o jogo mais aguardado por 93 milhões de corações brasileiros. Em outras palavras, por todo o contingente populacional do País, àquela época. As duas coisas, evidentemente, jamais caberiam, ao mesmo tempo, na mesma sala.

Opções cruéis as que a má sorte então lhe oferecia: a renúncia ao último confronto pela Taça Jules Rimet (o troféu que o planeta quase inteiro buscava), ou o desprezo àquela que há muito tempo ele desejava de corpo e alma. Pensando bem, mais de corpo, ao que me era dito, tempo depois, com o Brasil ainda em festa.

Bem que Antonio tentou resistir a Soninha. Acontece que o time verde-amarelo, lá do Estádio Azteca, não conseguiu puxá-lo com a força da morena bonita. Distância é distância. O escrete de Zagalo estava no México e, portanto, ao alcance apenas do fascínio. Ela, entretanto, mostrava-se, ali pertinho, em carne e osso. Muito menos em osso, todos notávamos.

E lá se foi Antonio, quintal a dentro, para acertos com a moça ainda não disposta a ofertas além de beijos e agarramentos, pelo menos, até a certeza da união mais séria e duradoura com aquele que há meses ela tinha nos calos como um zagueiro na marcação de Pelé.

Ainda no corredor de Seu Rodolfo, de quem é neto, nosso herói ouviu que nossa equipe atuaria no esquema 4-2-4, quando atacasse. Se atacada, utilizaria a formação defensiva do 4-3-3, mais segura e eficiente. Seria um jogão. Não fosse pelo novo puxão de Soninha, ele teria voltado ao tapete de onde foi subtraído sem dó nem piedade.

Prestes a prometer à moça o casamento no juiz e no padre, Antonio, aflitíssimo, percebeu, pela explosão dos fogos e pela gritaria do povo, a abertura do placar aos 18 minutos do primeiro tempo. “Acho que foi gol de Pelé”, disse, debaixo de uma mangueira, em voz alta. E ela, ofegante: “O quê?”. Aos 37, chegou-lhe aos ouvidos um burburinho dos infernos, mas sem o foguetório: “Vixe!... A Itália empatou”, suspirou ele. De fato, Roberto Boninsegna havia balançado a rede de Félix.

O intervalo foi para ele um momento de grande alívio e de profunda concentração naquele jogo a dois, ainda longe de ser ganho. Aos 21 minutos do segundo tempo, sua atenção foi desviada por novos pipocos e gritos de gol graças a Gerson, “o canhotinha de ouro”, como assim proclamava a turma da Globo.

Jairzinho, “o furacão da Copa”, fez o seu, três minutos depois. Já era tarde para o arrependimento do nosso amigo. O técnico Zagalo e seus craques que o perdoassem, mas ele já não abandonaria o corpo-a-corpo em que se meteu. Animava-o o enfraquecimento da defesa adversária, por assim dizer.

Mas, no fundo, adorou ouvir aquela girândola aos 41 do segundo tempo, quase no fim do jogo e a minutos do levantamento da Taça por Carlos Alberto, o Capitão do Tri, espetáculo que, aí sim, pôde assistir, esbaforido.

Felizmente, havia replay instantâneo de jogadas da Copa do Mundo de 1970. O diretor da transmissão internacional já conseguia resgatar lances capitais para a reprodução imediata de gols e faltas aos telespectadores, inclusive em velocidade reduzida, segundos depois da ação.

Mas nem tudo eram flores. Aqui, embora o sinal gerado do México fosse moderno e colorido, a imensa maioria dos brasileiros assistiu a todas as partidas em aparelhos de TV com imagens em preto e branco, pois os coloridos, ainda raros e caros, eram inacessíveis aos que não tinham os recursos de gente como Seu Rodolfo.

Não custa reafirmar que, além de ser o primeiro Mundial gerado em cores e ao vivo mediante uso de satélite, a competição no México consolidou a tecnologia da repetição de lances em tempo real para a satisfação dos faltosos aos jogos pelas razões de Antonio, ou por outras razões.

Que primoroso aquele quarto gol do Brasil. A jogada envolveu nove passes consecutivos desde a recuperação da bola por Tostão, à direita do campo de defesa, e sua entrega a Piazza que logo fez o lançamento a Brito. Este acionou Clodoaldo, ainda no terreno defensivo. E vieram os dribles antológicos, um dos momentos mais plásticos de todo o campeonato. Clodoaldo fintou, sequencialmente, quatro italianos, limpando a marcação e encontrando Rivelino na lateral esquerda. Daí, após o domínio rápido e do passe em profundidade a Jairzinho, a pelota foi desviada de Facceti, um dos maiores defensores do mundo, a fim de encontrar Pelé. O Rei nem precisou olhar para o espaço vazio percorrido em alta velocidade por um Carlos Alberto corajoso, convicto, determinado. Enrico, o goleiro da Itália, coitado, nem viu a cor.

Ponho-me, agora, a imaginar Antonio, Soninha, seus quatro filhos e seis netos diante da TV de 75 polegadas, bichinha inteligente, conectada à Internet por Wi-Fi, ou cabo de rede, para ver com lances tecnológicos anteriormente impensáveis aquilo que hoje nos falta em futebol.

Tadinhos... Vergados ao peso do tempo, com seus cabelos brancos e as peles enrugadas, eles há muito perderam o ímpeto e o ânimo dos verdes anos. Não sei se os consolam, ou se muito agoniam, a apatia e os “apagões” ocasionais da Seleção de Carlo Ancelotti, equipe com idade média na casa dos 28 anos, por aí assim. O jogo contra o Japão quase os mata.

Sim, Soninha aprendeu a gostar de futebol. Um futebol que ainda nos falta até que o próximo jogo prove o contrário.
  (A tempo: todos os nomes aqui mencionados são fictícios. Sou doido não)

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas