“Não preciso fazer terapia, não adianta, isso é coisa de gente fraca.” “Eu tenho amigos, se é só conversar com alguém.” “Problema tod...

A importância da psicoterapia

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“Não preciso fazer terapia, não adianta, isso é coisa de gente fraca.” “Eu tenho amigos, se é só conversar com alguém.” “Problema todo mundo tem; basta ter força de vontade.” “Minha terapia é a minha fé/igreja”. Essas e outras frases são comumente pronunciadas, quando alguém sugere iniciar uma psicoterapia. Elas reproduzem a ideia equivocada de que o sofrimento psíquico deve ser enfrentado apenas pela força individual, ou sem ajuda de um profissional qualificado. Isso ocorre porque a maioria das pessoas
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Foto: A. Shkraba
não tem a mínima ideia do quão relevante e séria é a formação de um psicólogo/psicanalista.

Uma das dificuldades para compreender seu valor está no fato de que seus resultados nem sempre são imediatos ou visíveis. Na psicoterapia, o processo é diferente. Muitas vezes, o objetivo inicial não é eliminar rapidamente um sintoma, é compreender o que ele comunica, quais relações o alimentam e como a pessoa se posiciona diante de sua história. Por isso, afirmar que “terapia não funciona” porque uma sessão não resolveu um problema é semelhante a concluir que estudar não funciona porque uma aula não ensina uma disciplina inteira. O sujeito passou anos se construindo, sendo influenciado pela(s) cultura(s) constituintes do seu sofrimento, e quer resolver seus conflitos em poucos meses?

Outro equívoco consiste em imaginar que o psicólogo está ali para dizer ao paciente o que fazer. O trabalho psicoterapêutico não se resume à distribuição de respostas. O profissional oferece escuta qualificada e um enquadre que permite falar sobre aquilo que, muitas vezes, não se consegue elaborar sozinho. Como dito: há perdas, medos, culpas e padrões de relacionamento que se formam ao longo da vida e podem continuar atuando mesmo quando reconhecemos racionalmente que nos fazem sofrer.
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Imagem: Mart Prod
A psicoterapia oferece a possibilidade de olhar para essas experiências com atenção, sem reduzi-las a conselhos prontos. Por isso a importância de o paciente estar aberto à experiência de se ouvir e analisar o que ele mesmo diz, mais do que buscar respostas imediatas e conselhos do terapeuta. Psicólogo não é um guru.

Além disso, nem toda terapia produzirá os mesmos efeitos ou que qualquer profissional será adequado para qualquer pessoa. Existem diferentes abordagens, objetivos e formas de trabalho, e a relação entre paciente e terapeuta também importa. Pode acontecer de alguém não se adaptar a determinado profissional ou método e precisar buscar outra possibilidade. Psicoterapia tampouco é uma promessa de felicidade permanente e por vezes nem o próprio analisando vai perceber as mudanças que ocorreram a partir do processo de análise. Somente mais à frente se dê conta da importância que as sessões tiveram nas suas tomadas de decisão. Nesse percurso, entende-se que dor e sofrimento são distintos. Dores virão com frequência, mas o sofrimento é o prolongamento da dor. Na psicoterapia ampliamos nossos recursos para seguir em frente, aprendemos a lidar com o passado-presente.

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T. Weber
Em uma sociedade que hipervaloriza produtividade, velocidade e respostas instantâneas, a psicoterapia é um alento para nos auxiliar em algo cada vez mais escasso: nossa habilidade de reflexão. Nem tudo pode ser resolvido com uma frase motivacional, um vídeo de poucos segundos ou uma lista de hábitos. Há sofrimentos que precisam de tempo para ser compreendidos e histórias que precisam ser (re)contadas até que possam adquirir outro sentido.

Por isso, quando alguém disser que terapia “não funciona”, é importante (se) perguntar: não funciona para quê, em que condições e para quem? A pergunta é mais honesta do que uma generalização.

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Foto: A. Shkraba
Procurar psicoterapia não é admitir incapacidade. É reconhecer a própria responsabilidade diante da vida e aceitar que o cuidado também pode acontecer na relação com o outro. Pedir ajuda não diminui a autonomia; pode fortalecê-la. Para tanto, é necessário humildade e se cercar de pessoas realmente dispostas a ajudar e não a censurar e/ou minimizar o sofrimento alheio. Se, como diz Caetano Veloso: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, na perspectiva psicanalítica, saber racionalmente alguma coisa sobre si não significa necessariamente tê-la elaborado.

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