Para Bebé e Claude, irmãs queridas e companheiras de viagem
Doze anos de saudades de Copacabana, princesinha do mar. Amo a cidade do Rio de Janeiro. Desde adolescente que por lá visito. Familiares, amigos, memórias de anos e anos da vida adulta. Passeios, encontros e reencontros. Umas férias inesquecíveis nos meus 15 anos. E da minha primeira subida ao Corcovado. Meus olhos nunca couberam naqueles braços. O mar gelado, a paisagem linda dos morros; as boutiques,
Mstislav Rostropovitch /// Ana Adelaide Peixoto (aos 15 anos)
em tempos em que o Rio ditava a moda; a lua de mel no apartamento, no Catete, do artista plástico Hermano José; o show de Mercedes Sosa, o dos Secos e Molhados. Paquetá, A Ópera do Malandro, Rostropovich e o seu violoncelo no Municipal; o Bar do Lamas; o Amarelinho e o frango à passarinha; as camisolas modernas do meu enxoval do Amor Perfeito; o samba do Rio Scenarium; o Morro da Viúva e o som do piano do amigo Gui Faulhaber; a Barra da Tijuca e a família Bruno; ou o do amigo Zé Palhano, na Visconde de Pirajá, e o contato com as relíquias de Drummond; o também da amiga Clélia Pereira, que me hospedou por algumas vezes e me levou ao aeroporto de moto, eu de mochila nas costas, rumo ao Peru, aventura na veia!; o restaurante Natural, enfim... um carrossel de vivências de que eu estava saudosa.
Mas, dessa vez, foi Ipanema a escolhida. Às 5 da matina, toca o alerta no fone, a Defesa Civil avisando dos ventos fortes. A ordem era para ficar em casa. Saímos por perto, por entre as folhas revoltas do outono. Ventania. Mas, caminhando, se vai até a Livraria da Travessa. Livros, atmosfera de livros, e me perco sempre na seção dos infantis. Sempre foi assim. E agora com uma neta... Almoçamos por lá e voltamos pelo outro lado da calçada. Do lado de lá. Um chope no Belmonte, no Jobi, “aqui se come sem culpa”, “vinho é poesia engarrafada”, dizeres de guardanapo. E, na Livraria Argumento, tem Claudia Cardinale na porta do banheiro. E, na entrada? “Ser carioca é ter como programa não tê-lo”. Uma loja e um coração que diz: “Diversidade é o amor, quando esparrama.”
Ana Adelaide e as irmãs Claude e Bebé Peixoto (Rio de Janeiro - Agosto 2026) ▪️ Acervo pessoal
O Museu do Amanhã muito me impressionou. “Um edifício etéreo, quase flutuando sobre o mar, como um navio, um pássaro ou uma planta” — diz o seu arquiteto, Santiago Calatrava. Uma terra solta no ar. A Terra é azul! A vida não é útil, diz Ailton Krenak. “E agora?” A pergunta ao final das projeções, que nos faz calar fundo, diante de tanta devastação no planeta. No dia seguinte aos ventos. O amanhã. O espaço exterior a perder de vista. O mar. O horizonte. O amanhã esperançoso; o amanhã sonhado; o amanhã coletivo; o amanhã criativo; o amanhã inclusivo. O amanhã!
Museu do Amanhã, um dos ícones culturais e arquitetónicos mais visitados do Brasil (Praça Mauá - Rio de Janeiro), Arquitetura de Santiago Calatrava ▪️ Fotografia: Marcelo Martins Teixeira
Depois, a Lapa e um samba-raiz no Armazém do Senado. Carioca da Gema, diz a placa. Aquele clima carioca. Samba, chorinho e chope. E aquela paisagem mais linda. A do Pão de Açúcar vista de Botafogo. Os olhos não cansam. Uma foto. Uma pose. Uma recordação. Reencontrar prima, amigos e a Feira Hippie que, acho que só nós, ainda vamos por lá. Mas sempre tem turistas e pessoas que ainda buscam um par de brincos. Uma padaria, um bolinho de bacalhau e aquela paisagem do Morro Dois Irmãos. Uma paisagem que ainda me assombra, desde os meus longínquos quinze anos, quando da minha primeira vez no Rio. Ou segunda, pois morei lá com um ano de idade.
Ana Adelaide e as irmãs Claude e Bebé Peixoto (Rio de Janeiro - Agosto, 2026) ▪️ Acervo pessoal
Numa segunda chuvosa e com os ventos mais amenos, fomos passear no Leblon. No Shopping Leblon, pelas araras de uma loja de departamento, encontro a atriz Fabíola Nascimento. Jamais a esqueci, desde o filme Estômago. Encabulada, não disse nada. Deixei-a escolher a sua peça, e lá fui eu para o provador também. Depois, um almoço frugal com palmitos assados e salada de beterraba com mostarda. Deixei o cuscuz para o café aqui de casa.
Ana Adelaide Peixoto (Leblon, Rio de Janeiro - Agosto, 2026) ▪️ Acervo pessoal
Notei que estava anoitecendo cedo, e as pessoas voltando da praia à noite. O jeito carioca de ser. Assistindo ao programa Alma de Cozinheira, GNT, a atriz Flávia Reis descreveu para a apresentadora, Paola Carosella, o que é ser carioca, e ela prontamente disse que o carioca tem som de chinelo. Chinelo para tudo. A descontração desse povo que faz da praia um modo de vida.
E lá fomos simbora, num avião do Santos Dumont, onde a pista é curta, os mares muitos e o medo grande. Mas tudo se dissolve com a beleza dessas terras. E da música de Jobim ou do Samba do Avião, de Vinicius.