Em mais uma dessas reportagens sobre hábitos de vida, leio que a maioria dos brasileiros é de sedentários. São raros os que fazem exercícios físicos e pouquíssimos aqueles que, pelo menos, gostam de andar a pé.
Acho isso curioso, pois o que não falta hoje são advertências sobre os riscos da inação (um sinônimo pomposo para sedentariedade). Sabe-se que ela provoca de câncer a doenças cardíacas; quando não chega a esses extremos, compromete a tão propalada qualidade de vida.
Unsp
A verdade é que ninguém se torna adepto de atividade física por ler artigos ou reportagens sobre os benefícios que ela pode trazer. Existem almas naturalmente preguiçosas, espíritos langorosos que consideram uma violência submeter o organismo a movimentos puxados e aparentemente gratuitos.
GD'Art
Os dois boêmios, tresnoitados e ainda sob o efeito do uísque, olharam desdenhosos os corpos que repetiam, com esforçado sincronismo, os mesmos movimentos. Então fizeram ali, para a vida e para a morte, o pacto solene de jamais praticar gestos repetitivos e inúteis...
Entende-se a ironia dos dois. Para que nos devotemos a uma coisa, é preciso primeiro ver nela sentido. Ora, esse é um requisito subjetivo por excelência. O que faz sentido para uns pode parecer a outros um aborrecido disparate. Conheço gente que acha inútil caminhar cinco ou 10 quilômetros para ir a lugar nenhum. Só andam por necessidade e com um objetivo bem definido.
Fotografia: Khanh Do
A ginástica, a caminhada, os exercícios de modo geral inscrevem-se naqueles “atos sem finalidade” de que nos fala Kant. Por essa ótica, aproximam-se da arte. A arte é gratuita, não visa a outro fim que não a ela mesma. E quem pode negar que, ainda assim, gratifica-nos o espírito e dá sentido à vida?










