A minha neta, Luisa, me liga perguntando se eu teria exemplos em casa de: escultura de argila, quadro nordestino, renda, cordel, garrafa de areia. Eu tinha todos. Mandei fotos. Mas o cordel que tinha era uma gravura de J. Borges. Ela prontamente respondeu que aquilo não era cordel. Ela queria o livrinho. Na hora, nem lembrei dos que tinha aqui de Raniery Abrantes. Mas deu certo. Tudo isso fazia parte das suas pesquisas para a Feira do Conhecimento, que fui assistir ontem.
Escola Sempre-Viva (J. Pessoa-PB)
Meus filhos estudaram na Escola Sempre Viva até a quarta série do fundamental. Sou só aplausos para o trabalho desses profissionais singulares, como Olga, Olgarina, Dorgilan, Tutu e toda a equipe do corpo docente. A solidariedade, a hora do Bom Dia, a alimentação natural, o Dia da Família, as festas comemorativas e a ênfase nas artes populares nordestinas. O espírito progressista e humanista da escola até hoje me encanta. A criança em primeiro lugar. E foi assim ontem. Nós, os pais, eu, avó, sentados no chão para ouvir a apresentação de como seria essa Feira e para que ouvíssemos as crianças. Lá fomos nós, por baixo dos jambeiros, para a salinha do primeiro ano.
O tema — “Quais são os tipos de arte que existem no Nordeste?”. E lá correram esses meninos para fazerem pesquisa de campo sobre Arte Sacra na Igreja São Francisco, xilogravura, frevo, renda de bilro e outras artes mais. E, em cada barraquinha, os meninos/as com seus coletes de chita, tudo forrado com papel madeira, com os nomes das crianças e as suas recriações de cada arte pesquisada. Todos, meio tímidos e com a ajuda da professora, explicavam seus aprendizados aos pais atentos. Lucas e Nathalia, pais de Luisa, não eram diferentes, orgulhosos da pequena pesquisadora. Eu, particularmente, sempre me emociono e tenho logo os meus olhos rasos d’água.
Instagram: @escolasempreviva
Chamou-me a atenção a banquinha de pintura, com os exemplos dos artistas plásticos Clóvis Junior e Alexandre Filho. Cada aluno pintou a sua leitura particular do quadro exposto. E dava gosto de ver como cada criança lia as cores e formas desses artistas consagrados. Os bichos, as alegorias, os tatus azuis e os mosaicos também. Coisas adaptadas também mereceram o meu aplauso, como a renda, que os alunos fizeram com lã e num papelão, só para simularem uma renda trabalhosa e citarem outras, como a renascença, o alto custo de um vestido que leva um ano para ser feito. Os alunos a perceberem o valor da arte, mas não só. O preço dos objetos e o valor econômico também.
Na barraquinha de Luisa e sua amiguinha, o tema eram as garrafas de areia. O Ceará como palco dessa arte (a terra onde nasci). As areias coloridas das praias cearenses. E uma dúzia de garrafas feitas pelos alunos. Aqui em casa até isso eu tinha. Sem falar na mais nova garrafinha que comprei, com areia do deserto, lá do Saara, onde estive em abril. Luísa lembrou. “Igual à sua, vovó!” Confesso que a minha estante da sala é sempre um Grand Bazar para Luisa. Ela se encanta com tantos souvenirs de viagem e de arte popular espalhados pela casa.
Luisa, neta da autora ▪️ Facebook: anaadelaide.peixototavares
Na sessão “Conhecendo um artista nordestino”, Luisa falou de Flavio Tavares. Famoso na cidade e nas mídias, de onde ela pôde pesquisar o seu making of, enquanto pintava um dos seus mais recentes murais, mas também familiarizada com o meu pequeno acervo do artista daqui de casa. No item “principais obras”, ela citou “O Pavão sem Mistério” (tenho certeza de que Nathalia, sua mãe, deu uma força), ou talvez porque, desde pequena, Luísa canta “O pavão misterioso”, sua música preferida, com Ednardo. Nas características sobre o artista, ela cita: “desenhos críticos sobre os problemas políticos sociais” (você encontrou uma crítica de arte para o seu trabalho, Flavio!). Mas o que me pegou desprevenida e de supetão foi o item: “Curiosidade — conte algo interessante que você descobriu sobre o artista”. E Luisa prontamente respondeu: “Ele já foi casado com a minha avó!”. Acho que Flavio nem imagina que, por essas horas, ele está na Feira do Conhecimento da minha neta e que virou curiosidade naqueles cartazes.
Saí da Escola Sempre Viva achando graça nessa curiosidade, mas também orgulhosa dessas crianças que, com o trabalho sobre a Arte Feita no Nordeste, mergulharam em tantos fazeres artísticos e nos seus criadores. Fizeram aula-passeio, pesquisaram, trabalharam e dividiram isso numa aula-apresentação para os pais.
Feira do Conhecimanto da Escola Sempre Viva ▪️ Acervo da autora
Na Casa Escola, ainda dei uma voltinha pela varanda, tentando voltar no tempo e ouvir as algazarras dos meus filhos quando pequenos. Uma boneca dormia tranquilamente no jardim, enquanto um balde acolhia um montão de vassouras pequenas, quem sabe para as crianças varrerem aquele alpendre acolhedor. O Sarau Poético continuava. E, com certeza, um lanche de pizza com tofu e molho de cenoura, cuscuz molhado ou sopa de feijão preto seria servido no lanche da tarde.
Parabéns para a Escola Sempre Viva, seus professores de aulas da vida e cidadania e às crianças que, desde cedo, experienciam o contato com tantas coisas grandiosas.