A superstição é uma espécie de religião não sancionada pelas igrejas. Como todo esse tipo de crença, carece de fundamento racional, mas ajuda na fortificação psicológica do indivíduo ante os enigmas e perigos que o cercam. Eles são muitos e tendem a se sofisticar, ganhando novas aparências e nos enredando numa teia de incompreensões que nos fazem sentir pequenos e inermes (vejam o que se diz agora da Inteligência Artificial, cujo potencial risco para o futuro da humanidade tem feito com que os próprios criadores pretendam nela colocar um freio).
GD'Art
Evoluímos, mandamos civis (milionários, claro!) ao espaço sideral, mas preservamos em nós o temor que fazia o homem primitivo acreditar na magia como uma forma de dominar o desconhecido. E nada sugere que isso deixe de ocorrer, mas com outras formas. O apelo ao “pensamento mágico”, base da superstição, evoluiu para a criação de mitos e deuses modelados segundo os valores existentes nas diversas culturas.
Essas entidades personificadas, além de terem certa concretude, permitiam a sensação de um intercâmbio com os seres humanos. Travavam com eles um hipotético diálogo que
GD'Art
Se o mito “é o nada que é tudo”, como afirma Fernando Pessoa, essa totalidade encontra sua representação mais plena na figura de um deus capaz de explicar nossa existência e nos redimir. Desse modo, aquilo que existe no plano da crença adquire, para quem crê, a aparência de verdade.
Não “acredito” em Deus. Para mim, Ele existe mesmo, independentemente da minha crença. A desvantagem disso é que não posso encará-lo como uma projeção das minhas fantasias, que o veem como parceiro, cúmplice e sempre disposto a perdoar os meus erros. O mais das vezes, a crença em Deus é uma forma suprema e prestigiosa de disfarçar nosso egocentrismo.
GD'Art
A dimensão ética nada tem a ver com a dimensão metafísica. A Ética se volta para a vida, o aqui e agora, o propósito de fazer justiça na Terra. A Metafísica se volta para a morte e para o que supostamente nos aguarda além dela. Enquanto a primeira exige ações concretas em favor do próximo, a segunda alimenta esperanças de transcendência. O risco está em usar a promessa de uma justiça futura como pretexto para tolerar as injustiças do presente.
Isso, por sinal, explica por que os governos tendem a se aproximar das religiões, muitas vezes incorporando seus discursos. Com essa estratégia, eles buscam não apenas gratificar nossa ilusão de eternidade, como também mascarar, com seus erros e omissões, o desprezo que têm por nós. É bom ter isso em mente, agora que se aproximam as eleições, e desconfiar dos candidatos que se dizem ungidos da Divindade para conseguir o voto dos incautos.








