Fiz as contas . Uns quinze cinemas fecharam as portas desde minha mudança para João Pessoa em 1961, ainda meninote, com uma falência fa...

A lanterna da memória

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Fiz as contas. Uns quinze cinemas fecharam as portas desde minha mudança para João Pessoa em 1961, ainda meninote, com uma falência familiar: a da Padaria que Seu Juca, meu pai, desativara um ano antes no Pilar da minha infância. Vi filmes em, ao menos, dez deles.

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Cine Municipal, 1970s ▪ JP das Antigas
O Municipal foi o último a apagar as luzes, definitivamente, em 1995, a crer-se na resposta obtida do Google. Ficava no centro comercial, a poucos passos do Plaza, a segunda maior e mais confortável sala de exibições da cidade. Ambos não distavam muito do Rex e do Brasil.

Não cheguei a entrar no Astória, situado na Rua da República, nem no Filipeia, por trás do Palácio da Redenção. Tampouco, no São José, do bairro de Jaguaribe, e no São Pedro, da Rua São Miguel. Não estou certo de que este último ainda tivesse sessões em 1961. Mas sentei nas cadeiras do Santo Antonio, onde hoje funciona a Casa da Cidadania, à pequena distância do Centro Administrativo, local dos expedientes de secretários de Estado e dos seus quadros funcionais.

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Cine Santo Antônio, em Jaguaribe ▪ Fonte: JP das Antigas (adapt.)
Cruz das Armas possuiu o Cine Bela Vista e o Glória, onde também não pus os pés. Outro bairro, o da Torre, tinha dois cinemas, o Torre e o Metrópole, o primeiro na Barão de Mamanguape, a minha rua. Contei isso aos meus três filhos, supondo que os mataria de inveja, até perceber que se lixavam para cinema. Uma lástima. Como não invejar alguém que comeu cuscuz-bondade na fila do Rex depois de fugir de uma aula vespertina do Liceu em busca da Matinê das Moças? Que geração esquisita essa das minhas crias.

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Cine Rex ▪ JP das Antigas
Vi filmes no Cine Tambaú, situado no Hotel do mesmo nome. Sim, João Pessoa teve um hotel com cinema, pasmem. Por falar nisso, como está a situação jurídica do nosso falido Cinco Estrelas, tão falido quanto a Padaria de Seu Juca? Meu velho, pelo menos, vendeu o que tinha, pagou a quem devia e partiu para outra. Aposentou-se como funcionário do Departamento Nacional de Estrada de Rodagens, hoje DNIT.

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Hotel Tambaú ▪ Fonte: PB Fatos e Fotos Antigos
Li que, após desfecho favorável no Superior Tribunal de Justiça, o Grupo Occean, arrematante no leilão com trama e lances cinematográficos, prepara o aporte superior a R$ 100 milhões necessários às reformas e adequações do prédio corroído às funções e traços concebidos pelo arquiteto Sérgio Bernardes para certo orgulho da alma pessoense. Para os que disso não saibam, o Hotel Tambaú foi por muito tempo exibido nos Cadernos de Turismo da imprensa brasileira como cartão postal da cidade situada no extremo oriental das três Américas, ponto para o qual o sol nasce primeiro,
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Cine Bangüê ▪ Fonte: A União
no dizer da propaganda oficial. Mas essa é outra história.

Confesso que não tenho a menor ideia do que esteja a acontecer com o cinema do Espaço Cultural José Lins do Rego, palco dos “filmes de arte”, assim tidos e havidos em razão da excelência dos enredos, atores, fotografia, montagem, trilha sonora e direção, rigorosamente selecionados para público mais exigente e seleto.

Já no batente aos 15 anos de idade, quando fui contínuo d’A UNIÃO, o jornal de onde saí como Chefe de Reportagem, comprei pipocas e ingressos para o Cine Torre. A menina que então me acompanhava riu comigo das palhaçadas de Oscarito, Grande Otelo, Cantinflas e Jerry Lewis. E comigo sofreu as dores de Nickie Ferrante (Cary Grant) e Terry McKay (Deborah Kerr) em “Tarde demais para esquecer”. Pois é, nunca esqueci disso.

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Cary Grant e Deborah Kerr em Tarde Demais para Esquecer (1957) ▪ Fonte: Imdb
O que agora me traz o assunto é uma velha reportagem do JPB1 comemorativa dos 434 anos da cidade e reaparecida ao acaso no globoplay. Nela, o repórter acompanha-se da atriz Zezita Matos e do artista plástico Fred Svendsen em percurso nostálgico por antigos cinemas do centro e bairros da cidade. Alguns desses prédios não mais existem e os outros se fizeram oficinas mecânicas, garagens e lojas. Diga-se de Fred que é neto do escandinavo Einar Svendsen, o introdutor do cinema na Capital da Paraíba.

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A atriz Zezita Matos e o artista plástico Fred Svendsen revisitam o prédio do antigo Cine Municipal, no centro de João Pessoa, durante reportagem do JPB1 sobre a memória dos cinemas de rua da capital paraibana.
Trata-se de matéria com participações luxuosas, uma delas a do professor, escritor, cronista e membro da Academia Paraibana de Letras João Batista de Brito. Dá para sentir a saudade no relato de João, mesmo quando ele nos diverte com os casos não muito raros da quebra de fitas sempre que um daqueles projetores engasgassem nos momentos mais arrepiantes de um suspense interrompido, então, pelo acender das luzes e as vaias da plateia.

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Ivan Costa, o lendário Ivan Cineminha. Apaixonado pela sétima arte, catalogou mais de 20 mil filmes assistidos ao longo da vida.
Deliciosa a aparição de Ivan Cineminha nessa matéria da tevê. O homem catalogou mais de 20 mil filmes assistidos ao longo da vida. A cena final tem o sabor agridoce e o clima tocante de “Cinema Paradiso”, o filme icônico dirigido por Giuseppe Tornatore. No interior devastado do Cine Municipal, o projecionista Ari Pontes lacrimeja ao falar do empreendedorismo de Luciano Wanderley, o maior e mais emblemático exibidor do cinema de rua na Paraíba.

Por mim, posso dizer que o cinema de bairro antecedia a projeção. Começava com o ritual dos sábados e domingos: vestir a melhor roupa, caminhar pelas ruas, encontrar os amigos, abraçar a namorada. Gerações diferentes feitas de avós, pais, filhos e netos podiam se encontrar no mesmo quarteirão, a depender da censura por faixa etária. Ainda bem que os meus 81 anos não me apagaram a lanterna da memória. Gosto de lembrar que vivi isso.

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