O ladrão boliviano, personagem do filme TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA, dirigido por Arnaldo Jabor e baseado no texto de Nélson Rodrigues, é daqueles personagens que passam poucas vezes pela tela, mas ficam na cabeça por muito tempo. Ele aparece rápido, diz pouco, mas faz um estrago que muda o rumo da história.
E talvez seja justamente por isso que ele ainda mexe com a gente, porque, no fundo, ele é uma síntese de muita coisa que ainda existe no Brasil de hoje.
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Mas, olhando com calma, o ladrão boliviano não é só um papel agressivo dentro de uma história. Ele é quase um sinal de alerta, daqueles que piscam na nossa frente dizendo: “Isso aqui não é apenas ficção, isso aqui é o retrato de um país”.
Muita gente viu o filme na época sem perceber que aquele personagem ia se tornar ainda mais atual com o passar das décadas. Aos 14 anos, quando assisti ao filme, no Cine Brasil, que, na época, exibia filmes pornôs, tive medo imenso de ser preso e ir para a cadeia. Por isso, sempre fui medroso.
Hoje, ele poderia estar nas páginas de qualquer jornal. Poderia ser alguém que a gente lê nas notícias da madrugada, nas redes sociais, nos comentários cansados sobre violência urbana e sobre como o sistema prisional brasileiro engole vidas todo dia.
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Toda ficção que você venha a escrever ou imaginar será irrisória diante da proeza humana de fazer o inimaginável. Jabor imaginou o ladrão boliviano, mas um mineiro espertinho criou um banco, fortaleceu uma igreja, montou um prostíbulo com russas, mas tudo combinado, e se tornou o ladrão italiano, que encantou os escroques do Congresso com mesadas recheadas. Data venia, senhores da Justiça: redigiu, em gabinetes do STF, os melhores contratos, fez regalos com whisky Maccalan, charutos cubanos, experiências em hospedagens de luxo e sociedades em jatinhos ou helicópteros, para satisfazer o ego e os bolsos das togas dos senhores ministros do STF.
Descaradamente, estuprou a justiça, que gozou de olhos abertos e arregalados com tanto mimo. Imagine só: quem imaginaria tal organização? Como esse ladrão italiano bordou, atropelou e estuprou? Tudo isso para fazer valer seus precatórios, bichados, mas hipervalorizados pelos ministros parceiros. Como metáfora, o ladrão italiano adentrou as cortes, o Legislativo, o Judiciário, o Executivo e os tribunais superiores, entre aqueles que buscam proveito próprio.
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Acontece que essa cena do filme nunca saiu de circulação, porque o país nunca resolveu o que ela representa. Sempre repete o script, insistindo no mesmo roteiro.
Talvez o mais impressionante seja perceber como o ladrão boliviano, criado por Nélson Rodrigues e levado ao cinema por Jabor, ainda encontra seu lugar no mundo atual. Hoje, ele não seria visto apenas como “o agressor estrangeiro”; na crítica aos poderes, sua violência também pode servir de metáfora para a figura de um ministro, comprado, que estupra a justiça por poder e dinheiro. E a Justiça, vendada, aceita e não denuncia.
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E, ao mesmo tempo, existe uma enorme dificuldade de enxergar que esses vilões, como o ladrão italiano, não surgem do nada. Eles são resultado de um ambiente político e social que fabrica corrupção e desigualdade como se fosse linha de produção.
No filme, chamar o agressor de “boliviano” acentua essa ideia de que a violência vem de fora, de longe, de quem não é “daqui”. Mas, se a gente observar bem, essa tentativa de afastamento é só mais uma camada de defesa. Porque, na prática, o problema está dentro, e há muito tempo.
Hoje, o ladrão boliviano seria discutido nas redes sociais mais como símbolo do que como indivíduo. Ele estaria presente nos debates sobre migração, sobre trabalho precário, sobre como o Brasil recebe e trata imigrantes. Estaria também no debate sobre o quanto o país gosta de encontrar culpados fáceis, de responsabilizar quem está em posição mais frágil.
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Se hoje fosse reescrito, ele não teria a aura quase mítica que ganhou com o tempo. Seria alguém representando um sistema que funciona na base da precariedade, da desigualdade e da falta de perspectiva. Seria o símbolo de um país em que muitas pessoas vivem à beira do colapso sem que ninguém pare para escutar. Seria a lembrança de que a violência não é apenas um crime cometido por alguém, mas um círculo que envolve muitas partes, famílias, instituições, governos, escolhas coletivas. Nós escolhemos os que fazem as leis e quem comanda o país.
E talvez seja por isso que esse personagem nunca desaparece. Para quem tem mais de 60 anos, que lê criticamente o cinema e se lembra do filme, ele retorna sempre, de algum jeito. Ele aparece no noticiário, nas conversas sobre o que falta, sobre o que dá errado, sobre o que ninguém quer ver. Ele aparece quando a gente se pergunta por que certas tragédias parecem sempre repetir o mesmo roteiro.
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Mas esse ladrão italiano fez dos juízes alcoviteiros e levou toda a pilantragem política para o bordel. E assim diria aquela velha máxima: “Entrou pelo pé do pinto, saiu pela perna do pato; seu rei mandou dizer que arrumasse mais quatro ladrões bolivianos e italianos para desvendar o quanto é corrupta a política e a justiça desse Brasil, de Petralhas e Bolzoloides”.
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Só que hoje ele aparece travestido com togas, jalecos e “fatos”. Sigamos com Nélson Rodrigues e Jabor, que são mais sensatos e infantis.
OBRIGADO, NÉLSON RODRIGUES. GRATO, JABOR













