Onde eu vivo, muito se ouvirá falar, nesta sexta-feira, 25 de setembro, dos afundamentos do Queimado, do Alice e do Alvarenga. Isso, porque esses navios compõem os enredos dos três naufrágios mais procurados da costa de João Pessoa,
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a cidade que recebe, diariamente, o primeiro sol das três Américas.
Com o nome ganho do fogo que o fez soçobrar a umas cinco milhas náuticas da praia de Tambaú, o Queimado nasceu “Erie J. N. Y”. Navegava sob a bandeira dos Estados Unidos com 25 mil sacas de café quando teve a estrutura de madeira devorada pelo incêndio que o fez submergir em águas relativamente rasas, no dia 2 de janeiro de 1873. Os passageiros e a tripulação contaram com o socorro de pescadores locais e, depois disso, foram levados sãos e salvos a Recife.
Erie J.N.Y., vapor norte-americano que ficou conhecido como “Queimado”. Afundou na costa da Paraíba em 2 de janeiro de 1873, após um incêndio, quando transportava milhares de sacas de café para os Estados Unidos. ▪ Adapt. desenho original: Naufrágios do Brasil
O Alice conduzia toneladas de sal e sacas de algodão, na segunda quinzena de agosto de 1899, quando foi ao fundo a 3,5 milhas náuticas do Bessa. Empregado na navegação de cabotagem, começou a fazer água no momento em que seguia rumo ao sul, mal saído do Porto de Cabedelo. Também, ali, ninguém morreu.
Naufrágio Alice ▪ YT Diego Luna
O Alvarenga, o terceiro integrante desse trio que hoje compõe a Área de Proteção Ambiental Naufrágio do Queimado, não era propriamente um navio. Foi descrito como uma chata de grande porte – 20 metros de comprimento por cinco de largura – empregada, neste caso, no transporte de material hidráulico: tubulações de ferro, canos e registros. Não possuía motor e seguia rebocada por outra embarcação. Afundou entre 1900 e 1926, também sem vítimas, em razão do mar bravio.
Naufrágio Alvarenga ▪ YT Diego Luna
É preciso dizer que a facilidade de acesso, o valor histórico, a riqueza marinha e a relevância ecológica é que dão fama a esses três acidentes. Eles são o núcleo central da Área de Proteção criada em 2018 para cobrir 150 quilômetros quadrados, por aí assim. Desde então, tornaram-se Patrimônio Ambiental protegido por lei. O Alvarenga virou refúgio para tubarões-lixa, meros e arraias. O Queimado e o Alice há muito servem à fixação de corais, anêmonas e esponjas, atraindo tartarugas-de-pente e cardumes que por ali passam.
Foto: L. Lamas
Entre os 67 naufrágios mapeados na costa paraibana são estes os mais buscados pelos centros de mergulho recreativo e técnico. Tamanha procura é estimulada pela pouca distância da orla e pela pequena profundidade do mar, naquele trecho. Conta-se que de outubro a março, tempo de água quente, um mergulhador tem, ali, uma visibilidade de 15 metros. Portanto, são estas condições que transformaram o local no principal ponto de turismo subaquático da Paraíba.
Pois bem, os debates em torno da segurança e da preservação de tesouros subaquáticos do gênero movimentam, nesta sexta-feira, a manhã do Tribunal de Contas da Paraíba. Ali, reúnem-se com tal propósito juristas, historiadores, ambientalistas e autoridades marítimas.
O palco é o do Seminário “Nas Profundezas da Memória”, também aberto ao público e para onde acorrem expressões do quilate da diplomata Tatiana Carvalho (pelo Itamaraty), do historiador Dalmo Vieira (fundador do Museu do Mar de São Francisco do Sul), da pesquisadora Taíssa Régis (responsável pela APA do Naufrágio do Queimado), do arquiteto Umbelino
Fonte: Instagram: TCE/PB
Albuquerque (estudioso do tema), do professor de Arqueologia Subaquática Carlos Celestino Rios e Souza (oficial reformado da Marinha brasileira) e do capitão de fragata Júlio César Costa Bueno (comandante da Capitania dos Portos da Paraíba).
É encontro organizado, das 9 até o meio-dia, pela Força-Tarefa do Patrimônio Cultural do Ministério Público de Contas em celebração aos 25 anos da Convenção que, realizada pela Unesco em 2021, transformou-se no tratado internacional divisor de águas na proteção desses bens. Ouvi do procurador de contas Marcílio Toscano Franca Filho, chefe desse grupo: “O objetivo central é o da discussão de mecanismos de combate ao saque, ao tráfico ilícito e à destruição do patrimônio arqueológico marinho”.
O que dizer desses estudiosos e de seus propósitos? No mínimo, que têm um compromisso com o tempo. Que, de certo modo, são guardiões do invisível, daquilo que muitos não veem: a cultura e a história sem papel nem tinta e, providencialmente,
Marcílio Franca Filho ▪ IG @mfrancafilho
o mergulho recreativo em favor do turismo com suas oportunidades de emprego e renda numa terra ainda disso tão carente.
Na proposta do Seminário apresentada ao presidente do Tribunal, conselheiro Fábio Nogueira, que de pronto a acatou, Marcílio Franca observou que a Paraíba é um dos Estados brasileiros a guardar a história das disputas coloniais e do comércio marítimo e que isso hoje se entrelaça à rica biodiversidade dos recifes de coral. “Mais do que meros destroços, esse patrimônio arqueológico funciona como recife artificial e museu vivo, abrigando espécies marinhas e preservando memórias que vão desde embarcações dos séculos 16 e 17 até vapores e navios mercantes do século 20”, escreveu em seu ofício à Presidência do TCE. São 67 naufrágios catalogados por aqui, não custa lembrar.
Agora, resta torcer para que as discussões não apenas alcancem a excelência técnica, mas resultem, também, em proposições concretas para a proteção do patrimônio do qual eles estão a tratar nesta sexta-feira, no Plenário Ministro João Agripino Filho, a Sala de Sessões da Corte. Que assim seja.