O Sertão Educa não é apenas um livro sobre o sertão; é um livro escrito a partir do sertão. Essa distinção é fundamental para compreender a força estética e intelectual da obra de Gilmar Leite Ferreira. Nascido da sua pesquisa de doutorado e posteriormente transformado em livro, o trabalho propõe uma reflexão singular: o sertão não é um espaço de carência ou atraso, mas uma instância pedagógica capaz de formar sensibilidades, valores e modos de existir.
A primeira grande virtude da obra reside em sua recusa dos estereótipos. Durante décadas, parte da literatura e das ciências sociais insistiu em representar o sertão como território da falta: falta de água, de progresso, de oportunidades. Gilmar Leite inverte essa lógica. Seu sertão é um mestre silencioso. A seca, o vento, os animais, as pedras, os rios temporários e os ciclos da natureza transformam-se em elementos educativos. O homem sertanejo não aprende apesar do sertão; aprende com ele.
Do ponto de vista literário, a obra se destaca pela linguagem poética que atravessa toda a narrativa. Não se trata de um texto acadêmico convencional. O autor constrói uma escrita híbrida, situada entre o ensaio filosófico, a memória afetiva e a prosa poética. A influência da fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty é evidente: o sertão é percebido através da experiência vivida, dos sentidos, do corpo que sente o calor da terra e escuta o canto dos pássaros.
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Há ainda um diálogo profundo com a tradição literária brasileira. Ecos de Euclides da Cunha e João Guimarães Rosa atravessam o livro, mas sem qualquer imitação. Enquanto Euclides observava o sertão sob a tensão entre ciência e epopeia, e Rosa o reinventava pela linguagem, Gilmar procura revelar sua dimensão educativa e sensível. O sertão deixa de ser apenas geografia ou narrativa e passa a ser experiência formadora.
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Outro aspecto relevante é a valorização da oralidade. As vozes dos sertanejos surgem como fontes legítimas de conhecimento. O autor reconhece nos saberes populares uma sabedoria que a modernidade frequentemente despreza. O canto dos repentistas, as histórias contadas à sombra das árvores e a convivência com os ciclos naturais aparecem como formas de educação tão significativas quanto aquelas produzidas pelas instituições formais.
Gilmar Leite, poeta pernambucano (São Jose do Egito) , escritor, declamador e professor da UFPB, radicado na Paraiba ▪️ Acervo pessoal
Entretanto, a maior conquista do livro talvez seja sua dimensão ética. Gilmar Leite escreve com afeto, mas sem idealização ingênua. O sertão permanece um lugar de desafios e adversidades. O que o autor demonstra é que, mesmo em meio à escassez, florescem modos de existência marcados pela resistência, pela solidariedade e pela capacidade de reinventar a vida. Essa percepção transforma a obra numa defesa da dignidade sertaneja.
Em termos estéticos, O Sertão Educa alcança rara harmonia entre pensamento e sensibilidade. A pesquisa acadêmica não sufoca a poesia; ao contrário, ambas se fortalecem mutuamente. O resultado é uma escrita que educa o leitor para enxergar o sertão não como paisagem distante, mas como uma forma de compreender o mundo.
Em O Sertão Educa, Gilmar Leite realiza aquilo que poucos escritores conseguem: transforma a paisagem em pensamento e a experiência em poesia. Seu sertão não é cenário, mas mestre; não é margem, mas centro de uma pedagogia da sensibilidade. Ao final da leitura, compreendemos que o sertão educa porque ensina a ver, a sentir e a existir.