No que diz respeito à terra dos Ciclopes, objeto deste ensaio, a tradição aponta, como localização mais provável, a Sicília, a chamada Ilha Trinácria, por causa dos seus três promontórios – o Peloro, a nordeste; o Lilibeu, a oeste; e o Paquino, a sudeste, formando um triângulo. Na narrativa homérica, não se nomeia a Ilha dos Ciclopes, de modo a se imaginar uma
possível localização. Além dessa grande ilha não nomeada, Odisseus faz referência a uma ilhota, onde ele fundeou o grosso de sua frota (Canto IX, versos 116-117; 136-151).
Para chegarmos a uma possível localização do percurso de Odisseus e da geografia mítica de Homero, indicamos o excepcional livro de Jean Cuisinier (Le périple d’Ulysse, Paris, Fayard, 2003), autor que realizou, nos tempos atuais, duas expedições complexas e minuciosas, uma em 1999, outra em 2000, como a que Odisseus teria feito, destinadas a reunir informações para uma nova interpretação da Odisseia.
Jean Cuisinier aponta três possibilidades para a localização da terra dos Ciclopes: a Sicília, na costa leste; no continente, entre Nápoles e Cumas; e a costa oeste da Sicília. Na primeira possibilidade, a terra dos Ciclopes estaria ao pé do Etna, bem perto de uma ilhota, que teria servido de abrigo às naus de Odisseus. No continente, a segunda possibilidade, encontra-se “a pequena ilha de Nísida”, possivelmente “a verdadeira gruta do Ciclope, o antro de Polifemo” (p. 222). Na costa oeste da Sicília, estaria a terceira possibilidade, com a existência do “arquipélago das Égades, hoje Marettimo, Favignana e Levanzo” (p. 223), onde existem muitas grutas, algumas com pinturas rupestres, como a “Grotta del Genovese (ilha de Levanzo), de animais e homens” (p. 224).
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Qualquer que tenha sido a escolha geográfica para enquadrar o mito, é importante reconhecer que a navegação ficcional se faz em torno da Sicília e de suas vizinhanças. Veja-se que, para Virgílio (Eneida, Livro III, versos 561-665), Eneias, ao se dirigir à ilha Trinácria, evita a passagem entre Cila e Caríbdis, hoje Estreito de Messina, navegando em direção ao oeste, de modo a atingir Drépano. O herói troiano, mesmo se desviando do perigo que vitimou os companheiros de Odisseus (Odisseia, Canto XII, versos 234-259), chega perto o suficiente da margem onde os Ciclopes habitam, muito próximo ao Etna (iuxta Aetna, verso 571), para resgatar Aquemênides, companheiro de Odisseus,
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esquecido pelo herói havia já três meses. Eneias ainda consegue ver o Ciclope descomunal, lavando o olho vazado, de que ainda escorria sangue (luminis effossi fluidum lauit inde cruorem, verso 663). Sinal de que, no contexto mítico, as naus dos dois heróis acabaram se cruzando pelo Mediterrâneo.
Diga-se que a tentativa de localização geográfica serve apenas para situar o ouvinte/leitor, para que ele possa imaginar a extensão do périplo de Odisseus e a sua capacidade de investigar os povos que não conhecia, a despeito de sua necessidade de retornar para casa. Mito civilizador, Odisseus é aquele que busca a sua civilização – o reino de Ítaca –, mas não abre mão de conhecer as demais, de modo a saber situar-se no universo marítimo e insular em que vive. Aliás, essa será a sua missão, após o retorno e o apaziguamento do seu lar e do seu reino, conforme a recomendação de Tirésias, em sua visita ao Hades (Canto XI, versos 119-137).
Conforme já vimos, os dois curtos episódios que precedem o episódio maior, o dos Ciclopes, cerne desse Canto IX, são o dos Cícones e o dos Lotófagos. Este último, além de representar um grande perigo para Odisseus e seus companheiros, pela possibilidade de apagamento da memória, ainda se faz importante como oposição simétrica ao dos Ciclopes. Estes são violentos, cruéis comedores de carne humana, arrogantes sem leis (ὑπεφιάλων ἀτεμίστων, verso 106), que se creem mais fortes que os deuses (πολὺ φέρτεροί εἰμεν, verso 276),
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ironizando a Lei da Hospitalidade, ao afirmar que, como presente, comeria Odisseus/Ninguém por último, depois de ter devorado todos os seus companheiros (ἐγὼ πύματον ἔδομαι μετὰ οἷς ἑταῖροι, verso 369). Já os Lotófagos são pacíficos, comedores de lótus, cumpridores da Lei da Hospitalidade, oferecendo o fruto a Odisseus e seus companheiros, sem cogitar matá-los (οὐδ’ ἄρα Λωτοφάγοι μή δονθ’ ἐτάροισιν ὀλεθτρον/ἑμετέροις, ἀλλά σφι δόσαν λωτοῖο πάσασθαι, versos 92-93).
Como essência, o Canto IX da Odisseia pode se definir a partir de três núcleos, que se entrelaçam: reconhecimento, astúcia e hospitalidade. Odisseus se faz reconhecer e é reconhecido; ele recebe e a ele se nega a hospitalidade; ele se diz astucioso e ele demonstra a astúcia. É nesse momento da narrativa que ocorrem os dois primeiros reconhecimentos de Odisseus. Primeiramente, aos Feácios (versos 19-20):
“Eu sou Odisseus Laertíades, que por todas as astúcias
sou conhecido entre os homens, e a minha fama atinge o céu.”
(εἴμ’ Ὀδυσεὺς Λαερτίαδης, ὃς πᾶσι δόλοισιν
ἀνθρώποισι μέλω, καί μευ κλέος οὐρανόν ἵκει.)
=== TEXTO DOS CRÉDITOS (GD'Art etc). ===
O segundo reconhecimento é feito a Polifemo. Odisseus lhe diz, se perguntado por algum mortal sobre a cegueira vergonhosa de seu olho (ὀφθαλμοῦ εἴρηται ἀεικελίην ἀλαωτύν, verso 503), como ele deve responder (versos 504-505):
“responde Odisseus saqueador de cidades ter cegado,
filho de Laertes, que tem uma casa em Ítaca.”
(φάσθαι Ὀδυσσῆα πτολιοόρθιον ἐξαλαῶσαι,
υἱὸν Λαέρτεω, Ἰθάκῃ ἔνι οἰκί’ ἔχοντα.)
=== TEXTO DOS CRÉDITOS (GD'Art etc). ===
Odisseus não é um astucioso cujas astúcias e manhas sejam eventuais. Ele é um tecedor de dolos e utilizará todos os meios possíveis para vencer o Ciclope, seja se escondendo atrás de um nome – Ninguém – ou neutralizando o monstro, sem que fiquem presos na caverna; seja arranjando um meio de sair dela, sem que o Ciclope perceba, ou se aproveitando do gordo rebanho de Polifemo para abastecer as suas naus. Como se pode constatar, tais expedientes da inteligência e da astúcia são do seu perfil, sendo, portanto, estruturais, não superficiais ou eventuais.
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Definindo-se como “tecedor de dolos e de todas as artimanhas, em defesa da vida” (πάντας δὲ δόλους καὶ μῆτιν ὕφαινον, ὥς τε περὶ ψυχῆς, versos 422-423), contra o Ciclope, monstro sem lei (πέλωρ, ἀθεμίστια, verso 428), Odisseus, numa demonstração prática, emprega uma série de quatro astúcias, a fim de escapar de suas garras.
O herói recorre à primeira astúcia quando o Ciclope quer saber onde estão fundeadas as suas naus (versos 279-286). Odisseus lhe responde dizendo ter tido as suas naus destruídas por Posídon, jogando-as contra os escolhos; só ele e os que o acompanhavam é que tinham fugido à “morte escarpada” (αἰπὺν ὄλεθρον, verso 286).
Após a morte de seis companheiros, devorados pelo Ciclope, e contendo o ímpeto de matar o monstro, caso contrário não poderiam escapar da caverna (versos 287-344), Odisseus lança mão da segunda astúcia (versos 345-352), oferecendo-lhe o vinho de Ísmeros (Κύκλωψ, τἠ, πίε οἶνον, verso 347), mas condenando o procedimento do Ciclope, por não ter tido piedade, não agindo como convém à justiça (ἐπεὶ οὐ κατὰ μοῖραν ἔρεξας, verso 352).
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Alegre com o vinho bebido, o Ciclope pede mais e promete a Odisseus um presente de hospitalidade (ἵνα τοι δῶ ξείνιον, verso 356), porque o vinho é rio de ambrosia e néctar (ἀμβροσίης καὶ νέκταρός ἐστιν ἀπορρώξ, verso 359). Após três taças de vinho, o Ciclope lhe pergunta como se chama. Odisseus apresenta, então, a terceira astúcia: diz chamar-se Ninguém (Οὖτις ἐμοί γ’ ὀνομα, verso 366). O cegamento do Ciclope lança a dúvida no seio dos demais iguais a ele, quando responde, entre urros de dor, que “Ó amigos, Ninguém me mata por dolo, nem por violência” (ῷ φίλοι, Οὖτις με κτείνει δόλῳ οὐδὲ βίηφιν, verso 408), levando regozijo a Odisseus, por sua astúcia (versos 413-414):
“[...] o meu amado coração ria,
pelo modo como o meu nome e a astúcia irrepreensível o haviam enganado.”
(ἐμὸν δ’ ἐγέλασσε φίλον κῆρ,
ὡς ὄνομ’ ἐξαπάτησεν ἐμὸν καὶ μῆτις ἀμύμων.)
=== TEXTO DOS CRÉDITOS (GD'Art etc). ===
A quarta astúcia mostra como Odisseus resolveu a saída da gruta, usando o rebanho do Ciclope. Por baixo das ovelhas do Ciclope, animais grandes e belos, de espessa lã (versos 424-425), para cada um dos seus companheiros, ele juntou três ovelhas, ficando o carneiro, por ser maior, reservado para si próprio (versos 431-435).
É neste Canto IX que a Lei da Hospitalidade aparece com todas as letras, principalmente entre os versos 265-271. O hóspede não é invasor; o hóspede é suplicante, por isso tem de se ajoelhar aos pés do hospedador, como Odisseus faz, em relação à rainha Arete, entre os Feácios (Canto VII). Já os pretendentes são invasores da casa de um homem que se encontra ausente; não são hóspedes, muito menos suplicantes; eles são arrogantes e prepotentes.
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Ao chegar à terra dos Ciclopes, Odisseus busca indagar a respeito dos homens que ali vivem, quem eles são: se são arrogantes, selvagens e sem justiça; se amantes dos hóspedes e se têm mente piedosa, em relação aos deuses (versos 173-176). Sabe-se, de antemão, que Polifemo se mantinha afastado de todos os outros Ciclopes e não obedecia a lei alguma, ser que não pertencia a um mundo civilizado: monstro espantoso (θαῦμ’ ἐτέτυκτο πελώριο, verso 190), não se assemelhava a quem come pão (οὐδὲ έῴκει ἀνδρί γε σιτοφάγῳ, versos 190-191).
Odisseus tem a intenção de conhecer o Ciclope e dele receber os presentes da hospitalidade (verso 229). Na ampla gruta, cuja porta era fechada por enorme pedra, o herói e os seus companheiros sentem medo da voz profunda e do ser monstruoso (πέλωρον, verso 257). No diálogo com o Ciclope, Odisseus faz uma síntese dos dois episódios anteriores, definindo a si próprio e aos companheiros como Aqueus (Ἡμεῖς Ἀχαιοὶ, verso 259), contando apenas uma parte da verdade, dizendo terem integrado as tropas do Atrida Agamêmnon (λαοὶ δ’Ἀτρεΐδεω Ἀγαμέμνονος, verso 263).
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Esperando a hospitalidade ou a generosidade, como manda a lei de Thêmis (ἥ τε ξείνων θέμις ἐστίν, verso 268), Odisseus e seus companheiros chegam como suplicantes (ἱκέται δέ τοί εἰμεν, verso 269); nessa condição, ele pede respeito e suplica por Zeus Hospedador (Ζεὺς ξείνιος, versos 270-271), que acompanha os hóspedes venerandos (ὂς ξείνοισιν ἂμ’ αἰδοίσιν ὀπηδεῖ, verso 271). A resposta que recebe do Ciclope é desrespeitosa, chamando-o “tolo” (νήπιος, verso 273) e desdenhando de Zeus e dos outros deuses, por se achar melhor que eles.
Após cegar o Ciclope e fugir da caverna, Odisseus, de sua nau, repreende o Ciclope, um pernicioso que não temeu comer os hóspedes, em sua própria casa (σκέτλι’, ἐπεὶ ξείνους οὐκ ἄζεο σῷ ἐνὶ οἴκῳ ἐσθέμεναι, versos 478-479), quebrando, com suas más ações (κακὰ ἔργα, verso 477), a Lei da Hospitalidade, de que resultou a sua punição. Ao se fazer reconhecer, como já vimos (versos 504-505), o herói leva o monstro a lembrar da profecia de Telemo, filho de Êurimo, vidente dos Ciclopes (versos 507-516). A sua reação, diante das pedras jogadas infrutiferamente contra as naus, é fazer uma prece a seu pai, Posídon, para perseguir Odisseus (versos 526-535).
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No desenvolvimento da narrativa, concentrada nos três núcleos já citados – reconhecimento, astúcia e hospitalidade –, é decisiva a ação que produz o vinho de Ísmaros no Ciclope. Odisseus, após o saque da cidade, leva consigo um odre com o vinho escuro e doce, dado por Máron, o sacerdote de Apolo, cuja vida, a da esposa e a dos filhos foram poupadas pelo herói (versos 196-199). Vinho doce, sem mistura, bebida divina (οἶνον ἡδὺν ἀκεράσιον, θεῖον ποτόν, versos 204-205); uma taça se misturava a vinte de água (verso 209). Odisseus se municia com o vinho, prevendo encontrar um homem de grande violência (ἀνδρα μεγάλην ἀλκήν, verso 214), selvagem, desconhecedor de leis e de justiça (ἄργιον, οὐτε δίκας εὖ εἰδότα οὔτε θέμιστας, verso 215).
O episódio de Odisseus frente ao Ciclope não só se opõe ao episódio dos Lotófagos, sendo também a inversão do que acontece com os pretendentes à mão de Penélope, em Ítaca, invadindo o palácio do herói. Enquanto estes invadem a casa de um homem, desrespeitam seu filho e a sua mulher, dilapidando os seus bens, revelando toda a arrogância e desmedida, Odisseus e seus companheiros buscam a hospitalidade do Ciclope, dentro das leis que a regem, e só tomam a medida de cegá-lo por conta da quebra dessa lei divina pelo Ciclope Polifemo, não porque Odisseus a tenha infringido. A arrogância do Ciclope é a arrogância dos pretendentes (ὑπερφίαλος, verso 106), estabelecendo-se as devidas proporções. Os pretendentes não chegam a matar e comer seis companheiros de Odisseus, como o Ciclope fez, mas planejaram a morte de Telêmaco, agrediram um hóspede e gostariam de ter matado Odisseus, quando ele se faz reconhecer.
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Finalmente, o vinho da Trácia é a necessidade aristotélica em funcionamento, agindo para a astúcia de embriagar o Ciclope. Do mesmo modo, é o disfarce de Odisseus, como mendigo, na sua chegada a Ítaca. Nos dois casos, revela-se como a astúcia vence a força bruta. Eis a razão por que Ajax se recusa a falar com Odisseus, na visita do herói ao Hades, ainda ressentido por sua força ter sido vencida pela astúcia de Odisseus, na disputa pelas armas de Aquiles (Canto XI, versos 541-565).
Leia aqui o sexto capítulo da série Deixemos Homero falar