“Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneira de ser. O leitor de poesia é também um poeta” – afirma Mario Quintana, em entr...

Poesia e melancolia

quintana lispector meireles
“Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneira de ser. O leitor de poesia é também um poeta” – afirma Mario Quintana, em entrevista a Edla van Steen, no primeiro volume de Viver & escrever (L&PM Pocket, 2008). A forma como o escritor enxerga o ser poeta é a maneira como intuí desde cedo. Por volta dos 7 anos de idade, eu já declamava poemas movido pelas
quintana lispector meireles
Mario Quintana (1906–1994), poeta, escritor, tradutor e jornalista gaúcho, nascido em Alegrete. ▪ Fonte: IMS
sensações que me suscitavam. Essa sensibilidade pode ser inerente ou desenvolvida, à medida que o indivíduo se permite ser atingido pela força estética da palavra. Quintana, Drummond, Vinícius de Moraes, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, dentre outros, estão no rol de literatos de minha predileção.

Cecília Meireles foi uma das responsáveis por me fazer entender quando afirmou em Motivo: “Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”, em que compreendi as ambivalências de um ser melancólico como um estado de espírito. Na melancolia, o sujeito se sente invadido por um vazio misturado a uma espessa tristeza, como algo inominável, da ordem do indizível, no qual significante e significado se dissociam. Partindo disso, exemplos não faltam de melancólicos na literatura. Clarice Lispector talvez seja o maior ícone, em virtude da sua obsessão por objetos perdidos e da palavra faltante, ao mesmo tempo em que esse é o seu recurso de salvação.

quintana lispector meireles
Cecília Meireles (1901–1964), poetisa, escritora, jornalista, professora e tradutora carioca. Entre suas obras estão Viagem (1939), Vaga Música (1942) e Romanceiro da Inconfidência (1953). Também teve atuação relevante na educação e na literatura infantil. ▪ Fonte: Delfos
Isso se faz ver nos trechos: “Dizer palavras sem sentido é minha grande liberdade. Pouco importa ser entendida, quero o impacto das sílabas ofuscantes, quero o nocivo de uma palavra má” e “Eu quero escrever com palavras tão agarradas umas nas outras que não haja intervalos entre elas e entre eu” (Ambas citações de Um Sopro de Vida). Lispector tinha ciência de que a psicologia das suas obras era mais a repercussão dos fatos do que o desenvolvimento propriamente destes. A palavra ressoava apenas com espaço suficiente para a sobrevivência das entrelinhas.

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Clarice Lispector (1920–1977), escritora e jornalista nascida na Ucrânia, naturalizada brasileira. Sua obra inclui: Perto do Coração Selvagem (1943), Laços de Família (1960), A Paixão segundo G.H. (1964) e A Hora da Estrela (1977). ▪ Fonte: IMS
Já eu, preciso escrever como forma de aplacar a pressa, direcionar a minha libido para (im)pulsões de vida. Se para uns a bebida inspira, a mim, sinto, que me tira a energia e me conduz a um estágio depressivo. Se ser boêmio fosse condição para escrever um verso, seria autor de quase nenhum poema. Não digo isso como crítica a quem aprecia os drinques etílicos, que fazem a alegria de muita gente, promove(u) muitos encontros e boas conversas, inclusive para mim. Contraditório, não? Não, porque quase nada nessa vida é respondido com um categórico sim ou não. É preciso duvidar do que os escritores, poetas ou quem quer que seja escrevem. E acreditar também, pois é preciso crer para viver...

Crer para viver
Não tenho crise existencial datada. Não me recordo de um só dia Em que minha vida não tenha Sido um crítico dia crítico. Critico a vida como se fosse Possível realmente resultar em algo E me faço crer para viver. Não houve nem há dores no parto Elas existem no fico. Digo a mim que fico, mas me reparto No anseio de ser integral. Entrego a dor à ação Tentando que o amor seja A mais fina ilusão De que a vida valha a pena. A vida vaia a pena.


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