A incapacidade crônica de dizer 'não' está intimamente ligada à compulsão por agradar. Essa dificuldade refere-se especificamente à paralisia psíquica que acomete o sujeito no momento em que ele precisaria impor um limite claro ao outro. O medo de contrariar, de decepcionar ou de provocar a raiva alheia faz com que o indivíduo concorde com situações que o prejudicam, aceite tarefas abusivas e permaneça em posições de exploração afetiva, profissional e familiar.
Há um preço amargo dessa submissão. Após aceitar mais uma solicitação indesejada, o indivíduo é invadido por um sentimento misto de raiva impotente, ressentimento e autodesprezo. Ele se culpa por não ter tido a firmeza necessária para recusar, mas, na oportunidade seguinte, o padrão se repete. Com o tempo, a erosão contínua dos limites pessoais provoca um esgotamento físico e emocional, além de sintomas psicossomáticos como dores de cabeça, problemas gastrointestinais e insônia, que funcionam como 'nãos' que o corpo expressa quando a boca se cala. A cada ‘não’ quando se quer dizer ‘sim’ e vice-versa, ocorre uma violência consigo mesmo.
Todos nós somos capazes de educar as pessoas com as quais convivemos. Educação não é algo que ocorre apenas em instituições de ensino. No trabalho, na família, em relacionamentos amorosos, cada qual deve delimitar o território do negociável e do inegociável. Fazer concessões de vez em quando é necessário. Quando vira rotina e atropela a subjetividade e as formas de existência, anulando os desejos, os sonhos e o que constitui a essência do ser humano, causa muito sofrimento e cria a ideia de que o outro é uma zona aberta, sempre disposta a atender os pedidos alheios.
Pessoas manipuladoras sabem reconhecer os alvos mais fáceis e estão dispostas a exigir cada vez mais, pois veem na vulnerabilidade do outro um vasto campo a ser explorado. Quando finalmente esbarram no limite alheio, fazem-se de vítimas, como se não compreendessem o tanto que demandaram do outro, ou até insistem em tom de ameaça, a fim de que a pessoa se sinta intimidada ou constrangida para, mais uma vez, ceder aos caprichos do algoz.
A incapacidade de dizer não pode estar enraizada em um padrão construído durante a infância, em que o sujeito se encontrava constantemente regido por uma figura autoritária. Tudo soava como ordem, a discordância era vista como afronta e não como um espaço saudável de divergência. Ocorre, para as pessoas envolvidas, um choque de pontos de vista. Como diria o teólogo Leonardo Boff: “Todo ponto de vista é a vista de um ponto”, mas quem viveu num contexto de frequentes ameaças, “caras feias” e autoritarismo tende a se tornar igualmente tirânico ou a viver (in)conformado em ser humilhado e ofendido.
A leitura psicanalítica indica que a dificuldade de impor limites reflete uma fantasia de fragilidade do outro e de si mesmo. O sujeito inconscientemente teme que o seu 'não' seja um ato destrutivo capaz de aniquilar a relação ou de despedaçar o parceiro. Trata-se de uma confusão entre agressividade construtiva (necessária para a diferenciação e proteção do Eu) e violência destrutiva. Além disso, a incapacidade de dizer não sinaliza que as fronteiras entre o Eu e o Outro estão borradas, impedindo a constituição de uma identidade autônoma e diferenciada.
Aprende a se defender quem luta pela diferenciação, por tornar-se o outro para SER, não somente existir. É possível estabelecer limites de forma saudável, por mais que muitas vezes as pessoas se sintam reféns de alguns indivíduos e circunstâncias. O processo pode se dar aos poucos, mas quem passou boa parte da vida se sentindo oprimido raramente conquista a liberdade de forma instantânea. Caso o que se considere como sendo a melhor maneira de delimitar o espaço não seja possível, vale recordar a frase do poeta Rimbaud: “Por delicadeza, perdi minha vida”.
