Fugir do seu país? Por que fugir se o senador obteve 48,20% do eleitorado a votar-lhe confiança, a depositar no descortino que lhe atri...

Um líder que não confia em seu povo

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Fugir do seu país? Por que fugir se o senador obteve 48,20% do eleitorado a votar-lhe confiança, a depositar no descortino que lhe atribui as aspirações de suas vidas e o futuro dos filhos? Claro, quem vota deve votar nessa esperança, mesmo parecendo difícil.

Sim, porque não dá para acreditar que um professor universitário, um médico, um profissional liberal politicamente esclarecido pudesse alinhar-se às ambições autocráticas de um fujão. Nestes quarenta anos de Constituição política reparadora, teríamos por que temer o cárcere ou a tortura com que o pai Bolsonaro se ufanou ao votar pela cassação da presidente Dilma, invocando a memória de um torturador?

Reconheça-se: vivemos hoje num regime sob o arbítrio da lei e sem exceção para seus intérpretes e aplicadores, expostos, entre si, a investigações até mesmo no âmbito da mais alta Corte. É o que estamos vendo e, de certo modo, com estranhamento. Não será prova de que a lei, por mais remoto que nos parecesse, valeria para todos?!

Lula, duas vezes presidente, foi para a cadeia. Acusado, não saltou a cerca, tendo, certamente, em quem ou em que confiar. Submeteu sua sorte ou a do país a seus patrícios. E não teve o direito à prisão domiciliar, preso num pequeno compartimento da Polícia Federal, com direito a banheiro e a alguma réstia de sol. Odiado, entre outros motivos, por ser de esquerda, nem por isso recorreu às matrizes do esquerdismo. Todas, com exceção de Cuba, ficavam e continuam muito além do oceano, pertencendo a outras formações e etnias. No regime cultuado pelo pai Bolsonaro, regime que ele não esqueceu de enaltecer ao votar contra Dilma, os presos tiveram poucos privilégios. Não há um bolsonarista extremado que, nem por ouvir dizer, desconheça isso.

Fugir por quê, então? Do outro lado do mundo, o diário **El País**, da Espanha, nos oferece esta manchete: “A fuga de Bolsonaro desnuda uma alienação ideológica com Trump na América Latina”.

Aí a coisa é bem mais séria. E factível ante a plataforma aliada escolhida na pressa para a fuga, a Argentina, de onde se sentiu seguro em sua escalada para Miami. Com isso, oferece sobradas razões às precauções do ministro Moraes ao deter seu passaporte. O irmão Eduardo, deputado, já sentia os pés mais firmes no império de Trump, onde se estende um muro discriminando os povos da América pobre.

O partido do senador Bolsonaro não foi para os States com ele; prefere tratar mesmo aqui da escolha do seu líder de palanque e do guia ideológico, o que não será difícil, desde que não se vá exigir um Lacerda, um Plínio Salgado, um Arinos ou um Adauto Lúcio Cardoso.

No domingo à noite, meio atônito ante o resultado das urnas e as possibilidades presumíveis de pretextarem questionamento com a prorrogação de última hora, vim sossegar com a repercussão geral no país e fora dele, encabeçada, no meu caso, pelo velho ministro Celso de Mello: “Há vitórias eleitorais cujo significado ultrapassa a conquista de um mandato e se projeta sobre o próprio destino do país. O resultado das urnas assume, nesta perspectiva, o sentido de uma afirmação cívica contra as tentações autocráticas”.

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