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Vou continuar, é exatamente da minha natureza nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos. Clarice Lispect...

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Vou continuar, é exatamente da minha natureza nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos.
Clarice Lispector

Os textos que Clarice Lispector escrevia em jornais na década de 60, entre eles o “Correio Feminino”, chegaram à TV Globo há alguns anos.

Conheci Flávio Tavares adolescente, e começamos a namorar quando eu tinha 15 anos, já no primeiro olhar, e nos casamos, eu com 19 e ele c...

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Conheci Flávio Tavares adolescente, e começamos a namorar quando eu tinha 15 anos, já no primeiro olhar, e nos casamos, eu com 19 e ele com 23. Duas crianças. Ficava encantada ao vê-lo pintar. Surgir as cores, formas, vida. Durante 10 anos, acompanhei essa experiência sensorial/gestual/orgânica de outra pessoa. Ainda em formação da minha própria identidade intelectual, eu absorvia as coisas da imaginação, tinha espasmos de felicidade ao ver uma tela surgir e sofria ao vê-lo criar ou não criar, mergulhar no seu trabalho. Ele, muito jovem e com muitas inquietações sobre o desenho, a pintura, sua identidade, suas crises de criação, tão normais a quem vive nessa e dessa vertigem. Até hoje sou plugada nesse processo seja de qual arte for.

Na adolescência, ouvia meu pai contar que a filha de Mário Rosas, Gerusa Rosas (mais tarde minha guru do shiatsu), havia partido de navio ...

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Na adolescência, ouvia meu pai contar que a filha de Mário Rosas, Gerusa Rosas (mais tarde minha guru do shiatsu), havia partido de navio para a Tchecoslováquia *, em busca do Comunismo. Eram os tempos sombrios em que "comunista gostava de criancinhas". Fiquei impressionada com o sonho “estranho” daquela mulher desconhecida que, por muito tempo, povoou meu imaginário.

Anos depois, assisti ao filme "A insustentável Leveza do Ser" (1988), adaptação do romance homônimo do escritor tcheco-francês Milan Kundera e, mais uma vez, senti-me encantada pelo cenário de uma cidade de nome Praga. Pois bem, um dia chegou minha vez de visitar o local, por quatro dias. Não vivenciei a "primavera de Praga", pois a estação era outra: o verão.

Já nascemos com esse medo: o da finitude. E passamos a vida a escamotear o tema; fugindo dela. Talvez estejamos fugindo da vida também?...

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Já nascemos com esse medo: o da finitude. E passamos a vida a escamotear o tema; fugindo dela. Talvez estejamos fugindo da vida também? Talvez. Só sei que por volta dos 10 anos vivi minha primeira experiência da perda. O grande medo, o da perda da mãe quando criança. Morria a mãe de uma amiga de colégio — Tereza, hoje Saldanha. Chorei como se fosse a minha, que gracias a la vida ainda vive, com mais de 90. A partir daí sempre soube que "ela" existia.

Durante esta campanha eleitoral tenho dito: nem todo mundo é Patrícia Pilar. Refiro-me à sua disponibilidade de se entregar à campanha do ...

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Durante esta campanha eleitoral tenho dito: nem todo mundo é Patrícia Pilar. Refiro-me à sua disponibilidade de se entregar à campanha do marido com unhas e dentes, como o fez na campanha do seu então marido, Ciro Gomes. Admirável! E palmas para ela.

“Escavação e transmutação são ingredientes fundamentais da minha produção e se fundem a interesses por temas como corpo, passado, memória...

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“Escavação e transmutação são ingredientes fundamentais da minha produção e se fundem a interesses por temas como corpo, passado, memória, saudade, morte, relação público-privado e oprimido-opressor... Cada obra resgatada assume aqui a tarefa de complementar outra para compor um corpo só, um arquivo quimérico ou uma corda do tempo feita de fios de várias idades e diferentes matérias.”
José Rufino

Há dois anos, José Rufino, artista plástico paraibano, escritor, professor de Artes da UFPB e UFPE, autor do livro "Afagos" — ou geólogo, paleontólogo, jardineiro — ou artista simplesmente, e tantas outras coisas —, participou da 5ª edição dos Debates Psicanalíticos "Arte e Trauma". Fui assistir-lhe e sou grata por ter mergulhado nessa noite do saber.

Rufino, professor que é, preparou uma palestra irretocável e eloquente sobre o mistério da criação, sobre a linguagem, enfocando o seu próprio processo criativo. Para tanto, mergulhou em assuntos diversos, como o papel do artista pesquisador, sua família, infância, estudos, formação, interesses, vida em Recife, referências a outros artistas, vida política dos familiares, mágoas, tabus, rastros, engenhos, pegadas, eurekas e epifanias. Concluiu a exposição com o seu trabalho sobre os Desaparecidos Políticos, acreditando ele que isto remeteria ao passado, quando, na verdade, infeliz e ironicamente, seria falar do presente.

“O artista trabalha para a linguagem, para estabelecer paradigmas!”. Com slides, percorremos as artes rupestres, Stonehenge, paisagens bíblicas, até chegarmos em Van Gogh, Antônio Dias, a fotografia, o cinema e outras artes contemporâneas que não mais desejam representar a realidade, mas um conjunto de novas experiências/fragmentos e relações... no lugar da obra em si. O artista e o coletivo: o ateliê, o crítico, o mercado (que agora terá que entender, provocar e se adaptar) e toda a cadeia, a visão sistêmica do criador x observador, que se contrapõe ao artista isolado.

Logo foi exibida "A Fonte", de Duchamp, transgredindo todos os conceitos... até hoje! O deslocamento do objeto, do olhar, do óbvio para a sensualidade de um outro corpo. Uma bicicleta que gira fora de um guidão, mas agora num busto. O busto do desvio. Uma coisa que é outra coisa, e mais um monte de ressignificados.

E Rufino lançou o susto: “A criação artística é livre?”. Como formular isso tendo em vista a tradição e a ruptura?. A questão da autoria; a pulsão da criação é livre? — “A ideia torna-se uma máquina de fazer arte” — citou Sol LeWitt. "Será que a Arte perdeu a sua capacidade de criar? Provocar?" — instigou o palestrante.

O artista quer ser revolucionário. Mas também quer ser assimilado. Eis a questão! Essa revolução vai ampliar o simbólico e o mercado vai à reboque. Exemplos como o Projeto Coca-Cola de Cildo Meireles, a calça Jeans e o caminho que percorreu (desde os operários americanos até os dias de vitrine de hoje) ilustram algumas das ideias discutidas.

A artista/performer feminista cubana Ana Mendieta unia seu corpo com a terra para tornar-se uma extensão da natureza. Rufino utiliza a "criação e a cura", o "eu lírico", o "poético" para falar de assunto que sangra. Frida Kahlo utilizou o corpo para falar das suas dores. E seguimos interessados naquele caminho sem fôlego.

Enquanto o artista falava das cartas familiares e todo o seu trabalho ruminante de escavações literárias/simbólicas/poéticas, fiquei a pensar na instalação "Intolerância" de Siron Franco, que visitara em São Paulo, alguns anos antes, trabalho que me marcou muito. Aconteceu no Memorial da Liberdade (antigas salas do DOI-CODI). Uma amiga — que viveu os tempos da ditadura em São Paulo, tendo sido presa e torturada — ficou incomodada com o título. “Como tortura é intolerância? Isso é minimizar! Intolerância é algo menor do que se viveu nas galerias desse lugar sangrento” – exclamava ela com todas as suas razões. Hoje, olhando em perspectiva, até acho forte o termo "intolerância", pois é nele que tudo se inicia.

Fiquei transtornada ao me deparar com uma montanha de sapatos des-encontrados. Gastos. Maltrapilhos. E mais uma outra de bonecos do tamanho de gente, vestidos como se gente fossem. Os "corpos" amontoados, jogados em valas, tenebrosos. Quase tive ânsias, de tão fortes esses corpos me pareciam; esgotados e no mais sub-humano que os humanos podem estar; subjugados por seus algozes. "Tortura Nunca Mais!" — pensei naquele momento. Hoje, esse slogan se perde nas fake news! Um horror que se anuncia sorrateira e agressivamente.

Rufino seguia a falar dos seus métodos, processos, persistências, listas, arquivos, desafios, obras inimigas e riscos. Pensei, então, na complexidade dos seres humanos. Observei o artista inquieto, que trabalha com o passado, com a memória e com o esquecimento, com o corpo e o espírito, a opulência e as faltas. Sua arte já vem nas profundezas das Terra. Uma carta não é mais uma carta! E a arte ressignifica sim.
É uma única forma de se viver a catarse e redimensionar um trauma. No filme Desejo e Reparação (2007), só a literatura salva tanta mentira irreversível quando se tem a morte. A artista francesa Sophie Calle também tomou emprestado uma carta do companheiro que rompia o amor, e criou uma instalação: "Cuide de Você". Exorcizando sua dor em público e assim, quem, sabe, superando-a. Calle, Duchamp, Rufino, assim, refazem dores, fontes, mágoas, lágrimas, rancores, para poderem transcender significados anteriores e lançarem outros olhares e leituras de um fato, de um desejo, da morte e principalmente da vida.

"Plasmatio" foi uma das exposições na Bienal de São Paulo que deu foco à palestra. Recentemente, tivemos a oportunidade de ver uma outra exposição: "Limbo", resultado de um processo de resgate de obras que estavam guardadas, perdidas, esquecidas, desprezadas, inconclusas ou apenas à espera de uma chance para aflorar pelas brechas. É também repleta de caminhos, peças, cronologias e perdições, talvez daquilo que tem nesse espaço suspenso: o limbo de nossa existência.

Em 30 anos de trabalhos fortes, enigmáticos, com rasgos de vida na frente e no verso, percebi que conhecia quase nada daquele artista escavador, tão diverso, perfeccionista e determinado, conforme as minhas impressões. Um pesquisador da alma, dos rastros de sua família, não só da família autobiográfica (que ele se transveste pelo nome do avô (para ter ainda mais legitimidade dessa escavação do passado), mas da família ampla da humanidade. Um pesquisador de um período histórico, como neste tempo em particular, da Ditadura Brasileira.

Rufino encerrou dizendo: ”Artistas são como bola de soprar! Podem estourar!" — Fiquei de olhos bem abertos durante quase três horas ouvindo-o discorrer com tanta propriedade sobre seu trabalho, sobre Arte, sobre História e sobre os enigmas dos processos criativos... dele e de outros.

Aplausos sempre!




Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora

Em viagem, sou sempre mais seduzida pelos pequenos lugares. Claro que ninguém resiste a uma metrópole, mas um lugarzinho incrustado em alg...

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Em viagem, sou sempre mais seduzida pelos pequenos lugares. Claro que ninguém resiste a uma metrópole, mas um lugarzinho incrustado em alguma curva na beira do rio é sempre tentador, por proporcionar passeios mais lúdicos.

Gostaria de pontuar alguns desses recantos que visitei e me fizeram dormir feliz, imaginando que minha cota de turismo estava plena:

Túnel sob o rio Severn
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Bath
Fomos de trem de Cardiff para Bath. Passada uma hora de viagem, de repente tudo ficou escuro. Percebi que havíamos entrado num túnel. Respirei fundo para não deixar minha claustrofobia me sufocar. Quando olhei para os lados, enxerguei uma parede colada à janela e nada do túnel terminar. Que montanha grande, exclamei! Que montanha que nada! Descobri, em seguida, que havíamos atravessado o imenso estuário do rio Severn, por debaixo d'água. Ai minha claustrofobia! Foram 15 ou 20 minutos de escuridão.

Bath é uma das mais lindas cidades inglesas, toda pincelada por resquícios dos romanos, que lá deixaram maravilhas, como: os Thermae Bath Spas; o Walcot Parade, do período georgiano, com arquitetura imponente e outras relíquias; a Bath Abbey, catedral de estilo gótico; jardins majestosos; a ponte Pulteney, de 1770, que cruza o rio Avon (sim, o mesmo rio de Stratford-Upon-Avon, a cidade de Shakespeare); muitos cafés lotados; lojas de fudges, antiques, cornish bakehouses e ruelas floridas para nos perdermos e nos acharmos a toda hora, como nos orienta o arquiteto Legorreta.

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Bath, Inglaterra Pedro Szekely
Encontrei a loja onde, há 11 anos, tinha comprado cartões de Virginia Woolf, Oscar Wilde, Isadora Duncan em que se lia: "Qualquer mulher inteligente que leia o contrato do casamento, e mesmo assim se casa, merece todas as consequências" (Any intelligent woman who reads the marriage contract, and then goes tinto it, deserves all the consequences). Ainda bem que os tempos mudaram desde as danças sensuais da dama descalça. Desta vez, comprei um cartão menos tenebroso, da musa do cinema do artista Hermano José, Greta Garbo, com a frase: "Será que tem alguma coisa melhor do que almejar por algo que se possa alcançar?" (Is there anything better than to be longing for something, when you know it is within reach?). Pois fiquei feliz em ter alcançado a felicidade desse sonho de um dia de verão.

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Sally Lunn's Eating House NH53
O almoço aconteceu em um café francês, onde trabalhavam três garçons brasileiros que organizam um forró para inglês ver. Fazia um sol frio, com céu azul e uma atmosfera de alegria por aquele dia tão lindo. Mais tarde, tomamos o chá das 5 na casa mais antiga de Bath (1482), o lugar em que é servido o famoso pão de Sally Lunn. Saboreamos a receita de um tempo antes mesmo que Vasco da Gama houvesse descoberto o caminho das Índias. A arquitetura da loja é ponto de visita também, com suas paredes grossas, tetos rebaixados, quinas retorcidas e janelas típicas.

O pão realmente merece a fama, sem falar da geléia, do chá preto fumegante e do prazer de pisar naquele solo de assoalho com som abafado. Senti-me uma Tess of the d'Urbervilles, e cheguei a visualizar uma charrete na porta, e um destino (fate) não aprisionador e estóico, mas um destino como possibilidade de rememorar um passado fantasioso. Fizemos uma visita ao Jane Austen Centre, onde há uma exposição permanente com objetos que contam as experiências da escritora das ironias e das razões & sensibilidades em Bath. Lembrei da minha amiga Genilda e seus estudos sobre essa escritora tão perspicaz da sociedade Vitoriana e das angústias femininas. Fechei os olhos para visualizar as cenas de Emma, Mansfield Park, e Orgulho & Preconceito. No museu, rendas, livros, filmes, e a história dos costumes e dos enredos de Persuasão.

Narberth
cidadezinha que é considerada o coração rural da região de Pembrokeshire, na parte oeste do País de Gales. Ruas estreitas, lojinhas de bijuterias, antiguidades, artcraf, pequenas galerias, loja indiana (tem henna vermelha?), um café bacana, um pub tradicional e uma delicatessen com prateleiras de azeite extra virgem do chão ao teto. A pequenina cidade é conhecida pelo seu talento gourmet. Almocei uma salada deliciosa de queijo de cabra (hum hum!!!). Cabaceiras precisa aprender a receita!

Tenby
Uma praia com a cara da Cornualha, também na região de Pembrokeshire, famosa pelo porto cheio de barcos e suas casas em estilo Georgiano. O domingo estava frio, cinzento, mas, mesmo assim, havia muita gente na rua. Fomos passeando a esmo e demos de cara com uma casinha com uma placa: George Eliot (pseudônimo da escritora Mary Ann Evans) escreveu aqui seu primeiro romance. Uma foto – click! Ventava, e nas fotos estamos todas com o cabelo arrepiado – As garotas dos Morros Uivantes! Provamos crocs (sapato de borracha, tipo alemão/holandês Beirkenstock) de todas as cores, mas saímos de mãos vazias – milagre! Ali perto, uma galeria/papelaria de arte. Cartões dessa paisagem dos filmes ingleses de romance do século XIX. Na volta para casa, um curry "para viagem". Tudo apimentado. Tudo delícia.

Southerndown
Fica na região leste de Gales. Uma praia do patrimônio de Glamorgan, que tem a segunda maior maré do mundo, ou seja uma beira-mar imensa, com suas nervuras na areia, coberta de seixos (pebbles) cinzas aveludados. Trouxe um balde deles para misturar com os objetos de arte popular da minha sala.
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Southerndown, País de Gales Carl Jorgensen
Sempre que eu olhar aquelas pedras macias, vou me sentir novamente A filha de Ryan. A beleza da enseada também se faz pelos penhascos, pelas trilhas e pelas ruínas de castelos. Passear nessa praia, onde já fui outras vezes, proporciona a sensação de esta em um cenário de filme. Cheguei a ver a mulher do tenente francês toda de preto sob uma chuva fina, e com um guarda chuva preto, com seus olhos fixos para o outro lado da margem, à espera de um amor que nunca chegava. Almoçamos num pub antigo, daqueles com o telhado de palha (thatched cottage), onde me deliciei com um típico sanduíche de bacon crocante, salsichas da casa, vinho tinto, morangos frescos e um café expresso. No jantar, uma guloseima feita com o carinho de irmã: couscous marroquino com verduras/legumes assados (erva doce, abobrinha, alho poró, mandioquinha). Um rosé gelado e um spounge de laranja. A felicidade até que existe!

Cowbridge
Localizada no Vale de Glamorgan, que parece nome das estórias de Harry Porter... ou talvez das Brumas de Avalon?. Fui a primeira vez nessa linda cidadezinha pitoresca, no sul do País de Gales, há mais de 34 anos. Encantei-me com as lojinhas sofisticadas (comprei uma bolsa de oncinha, antes de virar fashion, com a qual tenho ido às festas, desde casamentos aos desfiles do bloco Cafuçu). Admirei os wine bars e as balaustradas floridas de suas casas tão típicas, tão britânicas. Dessa vez, fomos numa ruela, a mesma de anos atrás, e tirei uma foto no mesmo lugar. Gosto de fazer isso – Repetição com Diferença! Lembro que, em 1975, visitando Londres pela primeira vez, estive na feira de antiguidades de Portobello, em Notting Hill, e lá tirei uma foto com um rapaz deficiente visual, que tocava sanfona. Dez anos mais tarde, por ocasião de uma outra visita, também no domingo, lá estava ele, na mesma esquina, com a mesma sanfona, mas com seus cabelos já brancos e encardidos. Apresentei-me e disse-lhe de onde vinha, e que o conhecia por meio dos meus álbuns de fotografias. Emocionado, ele me abraçou, tirou outra foto e tocou uma música só para mim. Já acreditava em acaso e aí fiquei perplexa com os encontros & desencontros dessa vida das não-coincidências.

Brecon
Um lugarejo escondido nas montanhas (Brecon Beacons) e à beira do rio Usk. No caminho um castelo erguido num penhasco, corredeiras e cheiro de mato. Fomos de carro e, assim, pudemos apreciar a paisagem, com um guia turístico particular, minha irmã Teca, que nos mostrava cada palmo por onde corria nas maratonas de que é adepta. Nesse cenário bucólico, avistei novamente Meryl Streep e seu personagem da Mulher do Tenente Francês, dessa vez, sentada no bosque a desmanchar os cabelos para o personagem de Jeremy Irons, que enlouquecia de desejo, já não sabendo mais distinguir a bruma tênue das fronteiras do que fosse ficção e realidade.

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Brecon Jazz Festival Chris Hodgkins
Acontecia em Brecon, naquele sábado de agosto, o Festival Anual de Jazz, com concertos ao ar livre e em tendas espalhadas na cidade. Uma espécie de FLIP da música. Entrávamos e saíamos das tendas, dançando ou cantarolando, estalando os dedos aqui e ali... Fazia calor, um sol forte, as pessoas animadas com suas canecas de chope e, pelas ruas, como é de praxe, aconteciam shows paralelos e alternativos. Um parque imenso com quiosques de hot-dogs, goulash, comida chinesa, indiana, e pessoas esparramadas em seus piqueniques, ao som de gaitas, de blues ou de uma nota qualquer. De repente um desfile, uma paradam um gingado. Barraquinhas com roupas e acessórios, camisetas do evento e uma outra casa coberta de ramas cor de vinho (seria o outono que já se anunciava?)…

Voltamos à noitinha. Quando chegamos em casa, meu cunhado estava a cantarolar música brasileira, enquanto cozinhava lentilhas com especiarias e servia mais um vinho tinto, com velas na mesa. Acho que o coletor de resíduos deve ter ficado curioso com aquela casa, onde todas as noites havia sempre uma garrafa de vinho seca no portão...

E de vinho em vinho, de palmo em palmo, de esquina em esquina, de chá em chá, de quiche em quiche, de paisagem em paisagem, de susto em susto, de desejo em desejo e de lugares em lugares, naquela noite fui percorrendo meu mapa, minhas (des)orientações e minhas chegadas e partidas.


Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora

Em um papo de lista de discussão feita só de mulheres, espontaneamente surgiu o assunto relativo à infância. Uma verdadeira viagem ao vale...

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Em um papo de lista de discussão feita só de mulheres, espontaneamente surgiu o assunto relativo à infância. Uma verdadeira viagem ao vale da subjetividade feminina, quando rememoramos, durante alguns dias, o nosso tempo de brincadeiras com as bonecas.

Quando assisti à série da Globo " Os Dias eram assim " confesso que, no início, não suportei as cenas de tortura e tantas maldad...

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Quando assisti à série da Globo "Os Dias eram assim" confesso que, no início, não suportei as cenas de tortura e tantas maldades dos tempos de chumbo dos anos 70 no Brasil. Mas depois, fui me interessando mais pelas outras tramas e engolindo o soco no estômago. O título da série, uma frase de música de Ivan Lins, tem a força da memória, como se dissesse: olha! Vejam! Os dias eram assim. Todo cuidado é pouco para não repetir...

Finalmente assisti ao filme "A Livraria" (2017), adaptação do livro homônimo da escritora inglesa Penélope Fitzgerald, dirigido p...

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Finalmente assisti ao filme "A Livraria" (2017), adaptação do livro homônimo da escritora inglesa Penélope Fitzgerald, dirigido pela espanhola Isabel Coixet, que fez outros filmes igualmente emocionantes: "Fatal" 2008, "Minha Vida sem Mim" 2003 e "A Vida Secreta das Palavras" (2005).

O supermercado, muitas vezes, é uma fonte de inspiração para os cronistas. Outro dia, estava eu na fila do caixa e avistei uma amiga de infâ...

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O supermercado, muitas vezes, é uma fonte de inspiração para os cronistas. Outro dia, estava eu na fila do caixa e avistei uma amiga de infância — hoje já distante — a andar pelas latas de ervilha com três saltitantes garotas lindas. Netas, possivelmente. E fiquei a pensar nas meninas. Lembrei até do conto de James Joyce, Araby, em que ele fala do primeiro amor.

Como um assunto puxa o outro, veio o tema sobre a sedução das mulheres, que começa tão cedo. Quando mocinhas, lá vêm o batom, a cinta, a meia, o sutiã, os decotes, os babados, as sedas... o corpo. Desviava tanto da minha, pela timidez e, principalmente, como forma de resistência. Claro que não tinha propósito nem tanta consciência como vim a adquirir depois. Existiam o incômodo, a negação e o desejo de fazer diferente. Era muito magra, tinha problemas (ainda tenho) com saltos. Desdenhava os frufrus e tudo o que era feminino me era estranho.
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Desejava ir por um outro caminho: o da subversão. Usar roupas masculinas (calças largas, camisas de marinheiro) e esconder o corpo desse padrão normatizado.

Queria, também, conversar assuntos de homem, beber, transgredir os véus e as transparências. A calça jeans rasgada caiu como uma luva para o meu padrão solitário no Cine Municipal e na Lagoa. Como o sentir ainda era nebuloso, sofria. Queria uma roupa destoante. Queria um vestido solto que não fosse solto. Minha mãe, que fazia nossas roupas, enlouquecia nos debruns e cortes desestruturados, que nunca ficavam ao nosso gosto.

A minha sedução, com certeza, nunca passou pelos vestidos das meninas. Nem passa! Tudo que se impõe me causa irritação. Em minha lua de mel não houve camisola de núpcias. Nem núpcias! Já fui de uma geração que não se esperava tanto. Tínhamos urgência e o sexo se antecipava pulsante.

Por entre os pacotes de feijão, no supermercado, fiquei também a filosofar sobre o que é ser uma menina. Não é de hoje que falo que ser menina é querer ser mulher antes do tempo. É lidar com o perigo iminente da violência sexual! Naquele momento, pensei do "ser menina antigamente", quando eu própria fui uma delas. Brincar de roda, sentar com as pernas juntas, não responder aos mais velhos, uniforme das Lourdinas no joelho, usar meia combinação, fazer cozinhado no quintal e tudo o mais.

Sou a mais velha de uma casa feminina. Quatro irmãs. E por meio de bonecas, saias, modess, sutiãs e namorados, vivi. Não tive filhas. E há muito vivo longe do universo das meninas. Recentemente, convivo com minha sobrinha Hanna, que já é uma adolescente, e quer lonjura do mundo das garotas pequenas. As mulheres lhe interessam!

Ao observar minha amiga com suas netas meninas lindas, fiquei a pensar de como seria como avó. E por favor meninos meus: vejam se quando forem pais, me trazem alguma menina!! Já estou satisfeita com o mundo dos homens.
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Em casa, digo! Que tipo de avó serei? Como lidarei com esse amor que dizem ser a cereja do bolo?

Fico pensativa ao testemunhar as mulheres/avós da minha geração. Percebo que, de modo geral e com raras exceções, os netos preenchem um espaço gigante em suas vidas. Muitas avós agem como se não tivessem mais uma vida toda sua; sem interesses outros, como se só os netos restassem, como se toda a seiva da vida jorrasse desse único caminho, como se a vida dos adultos tivesse ficado opaca e finda. Nada de namorar os maridos nem trabalhar nem socializar nem ler nem ficar sem fazer nada nem encontrar amigos, conversar, participar ativamente das atividades que um dia gostaram. Tudo fica resumido à escola de neto, aniversário de neto, natação de neto, correr com neto, balanço de neto, creches, comidinhas para os netos.

Nada contra os netos. Aliás, bem vindos os netos! Fico a lembrar de outras mulheres alhures que morrem de amor pelos netos e, no entanto, mantêm-se mais distanciadas, para que possam também viver as vidas outras e não somente a vida e avós. Falo assim porque ainda não tenho os pequenos. Pode até ser, mas pela mãe que fui e sou, com todas as presenças e ausências que fui capaz de exercer, e uma vida toda minha que demorei tanto a construir, tentarei incorporar os netos, mas não gostaria de ter todo o meu dia pautado pelo papel de avó. Terei sempre meus interesses outros, minhas necessidades outras e minhas solidões outras também, seja lá o que esses "outros" signifiquem.

Olhando a minha amiga a passear com as netas por entre bananas e abacaxis, pude vislumbrar uma cena: eu mesma levando algum neto para fazer a feira e comprar-lhe um doce. E falar de amor, esse artigo de luxo!
Em tempo: Hoje tenho uma neta, Luísa, de um ano e três meses, e tenho me deliciado com ela. Mas ainda não a levei para fazer a feira comigo. Em breve!


Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora

Para Juca. Foi um rio que passou na minha vida... A cidade de Valência, na Espanha, era atravessada pelo rio Turia, que transbordou e ca...

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Para Juca.
Foi um rio que passou na minha vida...

A cidade de Valência, na Espanha, era atravessada pelo rio Turia, que transbordou e causou uma inundação histórica nos idos dos anos 50. Após o desastre, o rio foi desviado e o seu leito transformado em um grande parque. Em suas águas, portanto, ninguém pode mais se banhar duas vezes. Porém, nas trilhas que ele deu origem é possível andar, a pé ou de bike, em estado de correria ou de contemplação. Escolhi a segunda opção.

Nunca pensei muito nele. Muito menos em fazer planos a distância. O tempo sempre me pareceu tão longe, mas tão longe, que minha imaginação ...

ambiente de leitura carlos romero ana adelaide peixoto tavares cronica sobre futuro incertezas usu do tempo dia a dia aqui e agora

Nunca pensei muito nele. Muito menos em fazer planos a distância. O tempo sempre me pareceu tão longe, mas tão longe, que minha imaginação não alcançava. Vivi sempre o dia a dia. No máximo enxergando o fim de semana próximo, o Natal próximo, meu próximo aniversário.

Sempre me intrigou o assunto da violência sexual contra as crianças. Pergunto-me: como um homem, — na maioria das vezes um familiar que sup...

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Sempre me intrigou o assunto da violência sexual contra as crianças. Pergunto-me: como um homem, — na maioria das vezes um familiar que supostamente deveria proteger (pai, padrasto, padrinho) — abusa de pré-adolescentes? Onde mora esse prazer de tamanha brutalidade? É distúrbio? Doença? Seja o que for, é abominável esse descompasso do sexo entre um adulto e uma criança, que não entende o que acontece, ainda mais aquele abuso estudado. Quais os caminhos? Quais as estratégias para atingir-se tão aberrante objetivo?

Quando comecei a escrever crônicas, partia sempre de um assunto da minha vida. Falava de mim. Sem querer ser narcisista, era sempre com bas...

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Quando comecei a escrever crônicas, partia sempre de um assunto da minha vida. Falava de mim. Sem querer ser narcisista, era sempre com base em algo pessoal que levantava voos para comentar sobre as coisas mais diversas. Falei das perdas, das mortes, dos casamentos, dos amores, das saias, das casas, da família, da mãe, dos filhos, das praias, do tempo, dos estudos, do trabalho, dos amigos, das mulheres, das dores, do sofrimento, das alegrias,

Para meu pai, Romero [ in memoriam ], uma saudade imensa; Para Juca, um pai querido, super amoroso, e de carne e osso; Para Fred, um pai ...

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Para meu pai, Romero [in memoriam], uma saudade imensa;
Para Juca, um pai querido, super amoroso, e de carne e osso;
Para Fred, um pai presente, por entre as Pitangas;
Para Flávio, uma vez, um quase-pai.


Hoje, domingo, comemora-se o Dia dos Pais. Enquanto comprava lembrancinhas para os “meus pais” queridos, aproveitei para presentear a mamãe aqui com algumas leituras, as quais recomendo:

O meu pai, Romero, era um homem simples, filósofo e circunspecto, enxadrista e descrente da natureza humana. Era autodidata e leitor exigen...

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O meu pai, Romero, era um homem simples, filósofo e circunspecto, enxadrista e descrente da natureza humana. Era autodidata e leitor exigente de história, geografia e filosofia. Não entendia poesia, mas era exímio em matemática e apreciador da natureza. Sou-lhe grata por tanta delicadeza e sabedoria, exatamente por essa mesma natureza, humana.

Aqui, abaixo da linha do Equador, nordeste brasileiro, não há inverno, mas temos a estação das chuvas. Na falta das quatro estações, e de t...

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Aqui, abaixo da linha do Equador, nordeste brasileiro, não há inverno, mas temos a estação das chuvas. Na falta das quatro estações, e de todos os ritmos que o tempo dita, gosto quando chove lá fora. Uma chuva que, como uma bússola, me indica o caminho do aconchego. Com o tempo que passa, venho gostando mais e mais dos tons cinzas e de introspecção. Por um momento, só. Quando chega o verão... é um desassossego!

O ano era 1979. Época de turbulências. Muitas mudanças na vida. A roda que não era gigante! O endereço era o edifício Gravatá, de onde dava...

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O ano era 1979. Época de turbulências. Muitas mudanças na vida. A roda que não era gigante! O endereço era o edifício Gravatá, de onde dava para ver o mar. As montanhas? De Sísifo. Muitas pedras a rolar. A música era Wild Horse, minha preferida dos Rolling Stones. E as noites de sexta-feira ferviam. Ah! Se o meu fusca vermelho falasse!

Depois de voar com o coração apertado por causa do apagão aéreo, do medo latente do terrorismo em Londres (à época) e de me deslocar de car...

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Depois de voar com o coração apertado por causa do apagão aéreo, do medo latente do terrorismo em Londres (à época) e de me deslocar de carro até Cardiff, enfim, cheguei... o lar doce lar. Era a casa da minha irmã Teca, que reside no País de Gales há mais de 30 anos. Um país que pouco conhecemos e tendemos sempre a chamá-lo por Inglaterra,