Na adolescência, ouvia meu pai contar que a filha de Mário Rosas, Gerusa Rosas (mais tarde minha guru do shiatsu), havia partido de navio ...

A insustentável leveza de Praga

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Na adolescência, ouvia meu pai contar que a filha de Mário Rosas, Gerusa Rosas (mais tarde minha guru do shiatsu), havia partido de navio para a Tchecoslováquia *, em busca do Comunismo. Eram os tempos sombrios em que "comunista gostava de criancinhas". Fiquei impressionada com o sonho “estranho” daquela mulher desconhecida que, por muito tempo, povoou meu imaginário.

Anos depois, assisti ao filme "A insustentável Leveza do Ser" (1988), adaptação do romance homônimo do escritor tcheco-francês Milan Kundera e, mais uma vez, senti-me encantada pelo cenário de uma cidade de nome Praga. Pois bem, um dia chegou minha vez de visitar o local, por quatro dias. Não vivenciei a "primavera de Praga", pois a estação era outra: o verão.

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Ao fazer a mochila, tive o cuidado de colocar um maiô preto, sonhando em dar um mergulho igual ao de Juliette Binoche naquela piscina de um hotel famoso nas redondezas da cidade. Puro sonho! Ou delírio de quem sempre tem o cinema como referência.

Staré Mesto (Cidade Velha)
Saímos de Bristol (Inglaterra) em direção a Praga num domingo de agosto. Depois de duas horas e meia de vôo desembargamos no leste Europeu. Eu, duas irmãs, cunhado e sobrinhos. A chegada foi de princesa... a dos meus sonhos! No caminho, macieiras e pés de pêra abriam alas para nossa passagem. De repente, no meio da tarde e sob um sol forte, o carro desce a ladeira e eu me vejo diante de uma das cenas mais bonitas que já vivi. A paisagem do centro histórico de Praga, com seu castelo ao alto, a ponte Carlos borbulhando de gente, o Rio Moldava (Vltava), umas outras tantas pontes, muralhas, torres, prédios do século XIII, XIV, XV e toda uma arquitetura medieval. Não me contive de alegria e comecei a gritar. Sim, precisava extravasar aquela visão de beleza! Passados mais de dez anos, talvez o condutor ainda esteja apavorado com a minha demonstração explícita de uma felicidade suprema, perante a qual somente o olhar e o silêncio não bastavam.

Segundo choque: o nosso hotel, escolhido a dedo. Um presente às cunhadas dos trópicos. Um hotel que também é um monumento histórico do século XVI e ponto turístico da cidade, de nome "U Zlaté Studny", situado na rua Karlova 3, no meio da "Rota Real" (Královská cesta) da Praga antiga, todo cheio de afrescos. Abria minha janela, e me deparava com uma praça lotada de turistas fotografando aquele quarto todo meu...
* Em janeiro de 1993, a Tchecoslováquia dissolveu-se em seus estados constituintes originais: a República Tcheca e a Eslováquia.
Em 2016, a República Tcheca adotou o nome simplificado de Tchéquia (ou Chéquia).
Algumas dessas fotos com certeza devem ter a figura de uma paraibana, que assim num balcão, quase se sentia uma Julieta numa Verona perdida.

Karlův Most (Ponte Carlos)
Nessa primeira tarde, andamos dois passos e estávamos para lá e para cá na Ponte Carlos (1357). Uma vista de cinema. Não é à toa que Praga é sempre cenário de filmes, sejam histórias passadas na cidade ou não. Como o local é preservadíssimo e não foi destruído durante a guerra, os diretores estão sempre rodando alguma estória em seus pontos exuberantes, a exemplo de “A Insustentável Leveza do Ser” e de “Identidade Bourne” (2002). Na ponte encontram-se enfileiradas cerca de 30 estátuas, predominantemente de estilo barroco, complementando com estilo neo-gótico e clássico. A mais antiga delas é a de São João Nepomuceno (St. John of Nepomuk). Diz a lenda que se você tocar na estátua retornará a Praga. Tratei logo de abraçar a escultura para garantir minha volta, se possível na primavera. Um grupo de jazz tocava para nós. Uma moça ensaiava na sua pianola a Ave Maria de Gounod. Passamos pela Torre da Ponte da Cidade Velha, que tem um nome estranho para nós: "Staromestská Mostecká Vez", digitado sem os outros acentos esquisitos, pois não os tenho no teclado. Esse é um dos portões góticos mais bonitos da Europa, uma obra prima datada de 1380.

Sem muita preocupação de encontrar o destino certo, saímos a caminhar pelas ruelas da Rota Real, sempre a olhar para cima e admirar cada recanto dos relevos, esculturas trabalhadíssimas, pinturas que saltavam literalmente de cada curva, cada dobra das sacadas, telhados e janelas. Muitas dessas decorações nas fachadas dos prédios serviam para identificar a casa e seu morador ou até mesmo a sua profissão. Tinham, ainda, a função de expressar gratidão e esperança de proteção.

Staromestské námestí (Praça da Cidade Velha)
Enfim, chegamos na Praça da Cidade Velha (Staromestské námestí), o centro da Praga histórica, que data do século XII. Uma apoteose! A praça é cercada por monumentos de construção barroca como a Igreja de S. Nicholas, o Palácio Kinský, The Stone Ball House, um palácio gótico do século XIV. A catedral “Old Lady before Týn” no topo e uma luz furta cor que durava das 20 às 23:30 (dias longos de verão). Um dos mais famosos recantos desse centro é o relógio astronômico, no qual, a cada hora, bonecos representando os apóstolos faziam uma coreografia para o encanto dos turistas.

Numa galeria ao fundo, havia uma exposição de Salvador Dali e uma outra de Alphonse Mucha, com sua pintura Art Nouveau, suas mulheres sinuosas e suas cores pastéis. Do outro lado, uma exposição permanente de Franz Kafka e todas as Metamorfoses possíveis. Sentar num café, e tomar uma Pilsen (a cerveja mais famosa do mundo), pedir um Goulash (não como carne, mas sei apreciar os que fizeram esse pedido), uma Berkerovka (a bebida dos tchecos a base de ervas), e sair do sério com Apple Struddle, ouvir música clássica em todos os becos, e também uma língua mais que estranha e cheia de acentos circunflexos invertidos, e trilhar assim uma atmosfera do leste, assim foi a minha estréia nesses mundos longínquos das bonequinhas gorduchas e coloridas – as Matrioskas! as Babuskas!

Lascar Prazský Hrad (Castelo de Praga)
Fomos de bonde (existe algo mais nostálgico que andar de bonde?) para a entrada do castelo. Que jardins! Que vista! Quanta imponência! O Palácio Real de Verão, o palácio de verão "Queen Ann", The Great Ball Game Hall, são alguns dos monumentos arquitetônicos perdidos por entre jardins sem fim. Nesses edifícios encontram-se documentos históricos, tesouros artísticos e relíquias cristãs.

Almoçamos num restaurante bucólico por entre as árvores ao fundo do castelo, cercado de um jardim ao estilo japonês. Em outro recanto, a catedral St. Vitus, St. Wenceslas e St. Adalbert. Filas imensas para a visita. Também a Golden Lane, uma vila gótica do século XVI, com miniatura de casas de dois andares, numa tentativa de reproduzir o lugar onde moravam os artesãos e guardiões do castelo. Kafka morou em uma dessas casinhas, a de número 22. De repente escuto uma música folclórica cigana de mundo distantes, vinda de uma loja de souvenirs. E lá me vi novamente por entre os meus apelos consumistas: cartões, camisetas de arte (Art Praha!), cristais aos montes (Praga é terra dos cristais Swarovski), tudo reluzindo, bonecos, bruxas, marionetes... A volta foi a pé, perambulando pela rua Valdstejnská, por entre escadarias, balaustradas, cafés, fontes e edificações barrocas ou clássicas, iluminadas por lampiões, com um ar sempre mágico e majestoso.

Música Erudita
À noite fomos assistir à opera Don Giovani, numa versão com bonecos. Mozart morou um tempo em Praga e escreveu esta peça em homenagem aos checos.


Em todas as ruelas, músicos, violinos e mini-concertos clássicos. Numa outra noite, fomos a um concerto das 4 estações de Vivaldi, Händel e Bach, numa capela de nome Klementinum. Senti-me perdida entre o silêncio da beleza da Mirror Chapel e das cordas cantantes de um violoncello e as notas das estações do sol e das flores.

Parízská Ulice (Rua Paris)
Outro dia e um passeio pela Praça Vesceslau e pela Rua Paris (irônico o nome em homenagem à cidade mais ocidental e luxuosa do ocidente), e bem vinda ao mundo do consumo de luxo e às lojas de grife: Prada em Praga para que te quero!; Versace e a modelo inglesa Kate Moss estampada nas vitrines. Um cartaz vermelho gigante anunciava uma exposição de Andy Warhol; e a loja espanhola “Mango”, com seus chandeliers (candelabros) suntuosos e suas roupas daquelas só vistas nos editoriais de moda. A ironia continuava, pois logo depois lá estava o bairro judeu, suas casinhas, o cemitério, as sinagogas de ontem e de hoje. O Bairro Judeu (Josefov) é um testemunho vivo desde o século XIII da história dos judeus de Praga . Voltamos pela Opera House, uma passeada no mercado: muitas bonecas, chocolates, frutas frescas, artesanatos, souvenirs e bruxinhas de pano com dizeres: Welcome to Prague!

Que maravilha perambular pelas ruas estreitas, situadas entre torres, portais, pelos sinos, pelas paredes cor de rosa, pelas carruagens e carros antigos à serviço do turista. Com tanto calor, um sorvete Häagen Dazs, uma foto da propaganda do Museu do Comunismo (Muzeum komunismu), uma outra dos pinóquios pendurados, o Teatro Negro, o Ghost Tour (passeio pelas ruas 'assombradas' e escuras de Praga) e o clima dos contos de fada se instaurava, sob uma atmosfera tenebrosa.

Pôr do Sol
E o meu sonho de Cinderela teve um fim. Com direito a um último jantar no cair da tarde num terrace embaixo da ponte mais bonita do mundo, onde brindamos à vida, à beleza, à arte e, mais ainda, ao nosso encontro diante de um por do sol (que me perdoe a praia do Jacaré) que foi o mais lindo que vi. Um último strudel de maçã, um último café expresso e um adeus para um vulto... acho que foi Thomas (vivido por Daniel Day-Lewis).

Quando regressei, assisti novamente ao filme "A insustentável Leveza do Ser" para reviver esse enredo sob um outro olhar. O olhar de quem havia visitado e se emocionado numa experiência dançante e que ainda guarda a imagem das babuskas e os sons de um certo violino... É verdade que não podemos apreender o instante (que pena!). Pois eu queria prender à chave, numa caixinha de memórias, essa viagem na qual, por alguns dias, me senti princesa, fada, marionete, artista e personagem de filme. O filme dos meus risíveis amores!


Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora
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  1. Salvas!!👏👏👏 Ana Adelaide.. nos preeenteou com uma narrativa turística maravilhosa..com os detalhes que mais lhe impressionaram!!!
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Parabéns👏👏👏 Ana Adelaide..sua narrativa é impressionante.
    Paulo Roberto Rocha

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