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[...] “não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar...

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[...] “não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas.” Zygmunt Bauman
Amar é exercício de ambiguidade. Ao passo em que busca a completude, necessita que um vazio por vezes se instaure. Só se ama na falta? Ou se aprende a querer o que se tem para que o desejo fomente o que se pode chamar de amor? É fato que é muito fácil almejar o perfeito, isto é, aquilo que está pronto. Mas, um escultor retira da pedra bruta sua arte pelo movimento da constante lapidação. Se um poeta é um fingidor, ele precisa fingir a matéria grossa das palavras,

A escrita, até mesmo para os escritores mais profícuos, tem sido fonte de sofrimento e de prazer. Esse misto de sensações é reforçado ...

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A escrita, até mesmo para os escritores mais profícuos, tem sido fonte de sofrimento e de prazer. Esse misto de sensações é reforçado devido a uma visão romântica do talento e da inspiração para processos artísticos, numa concepção de que escrever está mais relacionado a dom do que a trabalho, como se a labuta com as palavras diminuísse o artesão. É à ideia de artesania que nos voltaremos, a partir das reflexões do psicólogo Robson Cruz em suas obras “Bloqueio da escrita acadêmica – caminhos para escrever com conforto e sentido” (Artesã, 2020); “O mal-estar na escrita acadêmica: um problema político” (Parábola, 2024) e “Zen e a arte da escrita acadêmica” (Artesã, 2025).

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Um dos grandes problemas da produção textual é considerar o texto como produto que já virá perfeito, sem ser necessário reescrevê-lo, submetê-lo a constantes refeituras e leituras feitas pelo próprio autor e por agentes externos, professores, revisores, críticos especializados. Na primeira obra de Cruz, ele aponta que Freud escrevia regularmente, dedicava-se ao estudo de sua língua materna e outros idiomas, convivia com seus dramas e tramas, com auxílio de autores diversos. Isso contribuía para que escrevesse com mais segurança. Quase toda sua obra foi construída em torno do gênero ensaio, cuja denominação é autoexplicativa.

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Sigmund Freud (1856–1939), médico austríaco e fundador da psicanálise, trabalha em sua escrivaninha ▪ Londres, 1938 ▪ Foto: Freud Museum
Escrever passa por esse processo de ensaiar repetidas vezes até que a execução se dê satisfatoriamente. Diversos autores já afirmaram que não se publica um texto/livro – abandona-o. Sim, chega uma hora que precisamos deixá-lo ir, retirá-lo da gaveta ou dos milhares de arquivos dispersos. Com isso, não se defende que seja tudo publicado. Moacyr Scliar dizia que a lixeira era uma grande aliada do escritor, apesar de muito poder ser reciclado. O que não serviu a um texto pode ser aproveitado em outro.

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Moacyr Scliar (1937–2011), escritor, médico e cronista brasileiro, autor de romances, contos e textos marcados pelo interesse pela cultura e pela condição humana. ▪ Div.
Sobre o âmbito acadêmico, Robson descontrói em “O mal-estar na escrita acadêmica” a ideia de que os estudantes terem ingressado nas universidades representa domínio suficiente de leitura e escrita para o trabalho que será exigido nesse espaço. Afirma que, assim como outros bens distribuídos desigualmente, os letramentos também fazem parte daquilo a que todos deveriam ter direito, mas poucos obtêm, de fato. O acesso à cultura letrada ainda persiste como um problema político, sendo um privilégio de poucos e abarcado por discursos nos quais a meritocracia impera para pôr vendas sobre os olhos
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de quem pode mudar essa realidade.

Em “Zen e a arte da escrita acadêmica”, o autor retoma a ideia de “bancar” a imprecisão como forma de seguirmos adiante em nossos projetos de escrita e de autoconhecimento, processos intimamente interligados. Nas palavras de Cruz:

“Talvez a defesa da escrita imprecisa faça mais sentido se a tratarmos também como uma psicoterapia da escrita acadêmica, visto que o conhecimento mais valioso num consultório de psicologia clínica é aquele que se constrói via uma linguagem vacilante e imprecisa. Qualquer psicoterapeuta bem formado sabe disso. Apenas quando o paciente se liberta das certezas que tem sobre si mesmo e se interessa por aquilo que é impreciso em sua linguagem, é que as possibilidades para a mudança psicológica surgem”.
Entre a linguagem acadêmica e a elaboração na clínica, o processo ocorre de maneira oposta, porque na academia espera-se do pesquisador/estudante muitas certezas, mas esse suposto
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Robson Nascimento da Cruz, psicólogo, professor e pesquisador brasileiro, dedicado ao estudo da vida acadêmica, da escrita e da história da psicologia. ▪ Fonte: PUC/RS
saber frequentemente se reveste de arrogância e de opressão a quem entende a dúvida como um processo salutar e lícito na construção do saber.

Ainda em “Zen”, aborda-se a relação do corpo na escrita, lembrando-nos do quanto a utilização das mãos e da postura corporal diante do texto são relevantes para o efeito psicológico na escrita. O ritmo e o som da digitação, o bailar dos dedos, a respiração consciente, tudo isso e outros aspectos têm influência na confecção textual.

Robson Cruz há anos se dedica ao estudo de escrita criativa no meio acadêmico, aos sofrimentos psíquicos oriundos desse contexto e como a política gerencia esses sintomas. É psicólogo, professor da Puc-Minas. Seus textos merecem ser lidos por muitas pessoas que sofrem desse mal-estar na escrita, para compreensão de que não necessariamente precisamos nos livrar dessa angústia, mas aprender a escrever com ela, sem romanceá-la, conciliando as múltiplas sensações do processo criativo.

“Contra o silêncio e o ruído invento a Palavra, liberdade que se inventa e me inventa a cada dia.” Octavio Paz Deitei a toalha br...

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“Contra o silêncio e o ruído invento a Palavra, liberdade que se inventa e me inventa a cada dia.” Octavio Paz
Deitei a toalha branca. Levantei a bandeira. Corpo a corpo reclamei os horizontes tão vislumbrados, mas tão pouco alcançados. É o cúmulo do descompasso ir na contramão de si mesmo, um exercício para que tudo seja reparado. E aqui estou a ancorar numa identidade sem forma, com sensação de mea culpa por fraquejar no autoconhecimento.

“Não preciso fazer terapia, não adianta, isso é coisa de gente fraca.” “Eu tenho amigos, se é só conversar com alguém.” “Problema tod...

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“Não preciso fazer terapia, não adianta, isso é coisa de gente fraca.” “Eu tenho amigos, se é só conversar com alguém.” “Problema todo mundo tem; basta ter força de vontade.” “Minha terapia é a minha fé/igreja”. Essas e outras frases são comumente pronunciadas, quando alguém sugere iniciar uma psicoterapia. Elas reproduzem a ideia equivocada de que o sofrimento psíquico deve ser enfrentado apenas pela força individual, ou sem ajuda de um profissional qualificado. Isso ocorre porque a maioria das pessoas

A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Hermann Hesse...

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A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Hermann Hesse
Rastejo. Tateio. Apalpo como quem busca o braile da memória na mais vã tentativa de encontrar o caminho, mas avança na contramão. Como é difícil interpretar-se pela tendência que temos de nos reconhecermos mais ou menos fracos diante do universo de possibilidades que temos diante de nós. Por isso a angústia, a vertigem do óbvio, o lugar-comum da sabotagem, a sensação de despreparo diante da vida inédita e, ao mesmo tempo, reprodutora de representações banais.

Neste ano, entre os dias 22 e 26 de julho, ocorreu a 24ª FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), considerada o maior evento d...

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Neste ano, entre os dias 22 e 26 de julho, ocorreu a 24ª FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), considerada o maior evento do gênero, cuja homenageada foi a poeta Orides Fontela. Embora desconhecida pelo grande público, a escritora teve sua obra avaliada e elogiada por críticos de renome, a exemplo de Antonio Cândido, Davi Arrigucci, Marilena Chauí, Nelly Novaes Coelho, Alcides Villaça e Augusto Massi.

Dominar a crase é como aprender as regras de um jogo: depois que você entende a lógica, não precisa mais adivinhar a jogada. Enquanto ...

Dominar a crase é como aprender as regras de um jogo: depois que você entende a lógica, não precisa mais adivinhar a jogada. Enquanto o texto anterior focou na "regra de ouro" da fusão entre a preposição e o artigo, neste vamos nos ater aos casos em que a crase é obrigatória, facultativa (opcional) ou terminantemente proibida.

Dominar o uso da crase pode parecer um desafio, mas, na verdade, é um processo lógico e tranquilo quando entendemos que ela nada mais ...

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Dominar o uso da crase pode parecer um desafio, mas, na verdade, é um processo lógico e tranquilo quando entendemos que ela nada mais é do que uma fusão. Imagine o encontro de dois elementos: a preposição "a" (exigida por uma palavra anterior) e o artigo "a" (que acompanha uma palavra feminina seguinte). Quando esses dois se juntam, usamos o acento grave (`) para marcar essa união.

Há um mundo que dorme no sótão. Tão só. Ele anseia por uma resposta, mas só ouve seus ecos que o ensurdecem e o retira a visão. Com pa...

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Há um mundo que dorme no sótão. Tão só. Ele anseia por uma resposta, mas só ouve seus ecos que o ensurdecem e o retira a visão. Com passos trôpegos insiste em caminhar. Para onde? Está escuro. De onde virá a luz? Mundo arregimentado por burburinhos, pela indiferença.

Affonso Romano de Sant’Anna , poeta, professor, crítico literário e cronista, afirmava que o “cronista é crônico”, isto é, “doente do s...

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Affonso Romano de Sant’Anna, poeta, professor, crítico literário e cronista, afirmava que o “cronista é crônico”, isto é, “doente do seu tempo”, mas que não se deve limitar-se à marcação cronológica , sob o risco de produzir textos datados.
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Affonso Romano de Sant’Anna (1937–2025), poeta, cronista, ensaísta, crítico literário e professor mineiro, natural de Belo Horizonte. ▪ Fonte: YT Global

A identidade se refere à parte do nosso ser responsável pelo entendimento de quem somos, de modo a nos diferenciarmos e nos constituir...

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A identidade se refere à parte do nosso ser responsável pelo entendimento de quem somos, de modo a nos diferenciarmos e nos constituirmos como sujeitos. Porém, isso ocorre quando passamos a analisar o outro de forma a validar ou invalidar aspectos alheios.

Um susto. Um olhar. Sem timidez. Percorro a vista como quem já conhece o território. Mas, por outros caminhos. Não conheço o nome das ...

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Um susto. Um olhar. Sem timidez. Percorro a vista como quem já conhece o território. Mas, por outros caminhos. Não conheço o nome das partes. É um corpo que habita eras. É bela e triste, como o amor. Tem desejo. Uma voz com um timbre macio. Clama por defloração. É agora. É sim. Como foi que me deixei vestir por uma ilusória imortalidade?

Amar é retirar excessos. Desobstruir a passagem de tudo que impede nosso crescimento. É preencher vazios, embora não por completo. A...

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Amar é retirar excessos. Desobstruir a passagem de tudo que impede nosso crescimento. É preencher vazios, embora não por completo. Amar também é limitar. Não é tolher, delimitar fronteiras, meramente. É pôr foco. É contemplar – fazer do nosso olhar um descanso. O amor deve se dispor de si para ser ao outro.

Sou contemporâneo do ontem; moderno do amanhã. Atemporalizado pela pressa, articulado pelo desejo. Parte da mudança está em mim e n...

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Sou contemporâneo do ontem; moderno do amanhã. Atemporalizado pela pressa, articulado pelo desejo. Parte da mudança está em mim e não devo tomar a outra face como sendo minha. Sei que o autoconhecimento demanda já tanto de mim. Deverei me aturar até o esgotamento, utilizando mecanismos de defesa: sublimação, subterfúgios para que não me destrua antes de insistir nesse processo de (re)construção diária.

Alguém ou algo bateu à minha porta no dia em que o tempo já dissipara todo o silêncio. O silêncio gritara no exercício de me fazer ser ...

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Alguém ou algo bateu à minha porta no dia em que o tempo já dissipara todo o silêncio. O silêncio gritara no exercício de me fazer ser um reflexo de tudo aquilo que eu suportara nos dias sem nobreza. Um rugido de leão ecoando numa caverna onde apenas uma fresta de sol veio trazer a nitidez de que eu precisava. Não é um sofrimento vitimado, mas ritmado, por isso faço poesia. O que vale versar?

No texto anterior , tratamos de paralelismo sintático para observarmos a relação de simetria entre elementos constituintes de uma oraç...

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No texto anterior, tratamos de paralelismo sintático para observarmos a relação de simetria entre elementos constituintes de uma oração, de um período ou de um parágrafo. Agora, abordaremos o paralelismo semântico, que não se limita à igualdade das funções gramaticais; ele exige a coerência das ideias, o alinhamento das categorias mentais e a afinidade lógica dos conceitos dispostos lado a lado. Trata-se de relacionar textualmente elementos que de fato

Será que crescer significa transpor o seu interior ao exterior? Hoje já não me meço por centímetros, mas pela quantidade de ilusões e...

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Será que crescer significa transpor o seu interior ao exterior? Hoje já não me meço por centímetros, mas pela quantidade de ilusões e desilusões agregadas a mim. E é nessa cidade em (des)conserto que as obras se estendem aos homens sem ajuste algum. Talvez o tempo tenha tentado enganar sua existência. Contradição que as máquinas fazem crer. Quanto mais comunicação girando em pessoas estáticas, mais monossilábicos ficam. Há aqui um paradoxo que exige

A clareza da linguagem não depende apenas de um vocabulário sofisticado ou de regras gramaticais decoradas. É necessária a organização...

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A clareza da linguagem não depende apenas de um vocabulário sofisticado ou de regras gramaticais decoradas. É necessária a organização equilibrada das ideias. O paralelismo sintático é um recurso importante para a construção textual.

No natural da vida , o esquecimento, a ausência de ensaios. O passado pode ser presente e o presente já é passado, ou já é futuro? A ...

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No natural da vida, o esquecimento, a ausência de ensaios. O passado pode ser presente e o presente já é passado, ou já é futuro? A primavera e o seu improviso de trazer flores nunca iguais, mas sempre condensando eflúvios e belos tons multicoloridos. As estações desse ciclo estão para nos recordar o que fizemos em cada etapa.

Que me desculpem as pessoas antipáticas, mas simpatia é fundamental. Se você reclama do que tem recebido, talvez seja hora de reflet...

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Que me desculpem as pessoas antipáticas, mas simpatia é fundamental. Se você reclama do que tem recebido, talvez seja hora de refletir sobre o que tem emitido. Tem gente que acha ruim se chove, se faz sol, se venta. Todo tempo é ruim, e a reclamação está clamando o quê? Não se trata de pregar a positividade tóxica, termo cunhado pelo filósofo Byung Chul-Han,

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