A posição de “filho eterno” trata-se da incapacidade ou resistência inconsciente em desligar-se da tutela parental para assumir a vida adulta autônoma e autorresponsável. Embora cronologicamente adultos, esses sujeitos continuam psiquicamente infantilizados, dependentes da aprovação, do suporte financeiro ou da validação emocional dos pais para tomar decisões triviais da sua existência cotidiana.
A incapacidade crônica de dizer 'não' está intimamente ligada à compulsão por agradar. Essa dificuldade refere-se especificamente à paralisia psíquica que acomete o sujeito no momento em que ele precisaria impor um limite claro ao outro. O medo de contrariar, de decepcionar ou de provocar a raiva alheia faz com que o indivíduo concorde com situações que o prejudicam, aceite tarefas abusivas e permaneça em posições de exploração afetiva, profissional e familiar.
Estamos vivendo num mundo altamente estressante, de cobranças infinitas e, portanto, inalcançáveis, diante de um contexto no qual a perda de saúde mental parece inevitável. De acordo com o último relatório da Organização Mundial de Saúde, o Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo. Como podemos nos manter saudáveis em meio a tantos desafios?
O temor da solidão tem levado muitas pessoas aos consultórios de psicólogos e psicanalistas. O medo de terminar a vida sem companhia, de envelhecer no esquecimento ou de morrer solitário. Esse pavor não se reduz ao isolamento físico momentâneo; é uma angústia existencial que assombra o sujeito mesmo quando ele está cercado de pessoas. A sociedade contemporânea, apesar do excesso de conexões digitais e redes sociais, parece ter agravado essa sensação de desamparo,
Arte: Gustave Courbet, 1843
criando uma fachada de hiperconvivência que esconde uma incapacidade de vinculação subjetiva autêntica.
A simples perspectiva de passar um final de semana sem compromissos sociais ou o pensamento sobre a velhice deflagram crises de ansiedade severas. Para esquivar-se desse pavor, muitos mantêm casamentos falidos, amizades tóxicas ou relacionamentos abusivos, preferindo suportar o mal-estar da má companhia a encarar o silêncio da própria presença. A solidão é vivenciada como uma punição, um atestado de fracasso pessoal ou uma confirmação de que o sujeito é desprovido de valor.
O ser humano nasce em um estado de extrema dependência do outro para sobreviver física e psiquicamente. Quando essa experiência não é adequadamente elaborada na infância, a solidão adulta evoca o fantasma do abandono primordial. A pessoa confunde estar só com ser abandonada. Além disso, a incapacidade de tolerar a solidão indica uma dificuldade de habitar o próprio mundo interno, como se permanecer a sós consigo mesmo significasse encontrar um vazio assustador ou fantasmas punitivos.
Arte: Gustave Courbet, 1856
Embora as influências do meio sejam reais, a psicanálise interpela o indivíduo sobre a sua própria posição e sobre a sua cumplicidade inconsciente na manutenção da situação dolorosa da qual se queixa. Interrogar-se sobre o próprio desejo e sobre as escolhas que o trouxeram até esse ponto é a condição indispensável para transformar a vida. Assim, o sintoma deixa de ser lido como uma mera anomalia a ser eliminada por técnicas de controle comportamental ou medicação e passa a ser entendido como um arranjo simbólico, uma mensagem cifrada do inconsciente que pede decifração e elaboração no espaço analítico.
Arte: Gustave Courbet, 1851
O processo analítico possibilita uma ressignificação profunda da experiência do estar só. Na transferência analítica, o paciente experimenta um espaço seguro onde pode desdobrar seus temores sem ser julgado ou abandonado. Gradativamente, a solidão deixa de ser percebida como um abismo aterrorizante e passa a ser conquistada a capacidade reflexiva de estar em sua própria companhia com serenidade. Ao integrar a realidade do desamparo estrutural sem desespero, o indivíduo deixa de usar os outros como escudos contra a ansiedade e torna-se capaz de estabelecer relacionamentos baseados no desejo genuíno e não no pânico do abandono.
Segundo Donald Winnicott (1958), no ensaio intitulado “A capacidade de estar só", a habilidade de sustentar a própria companhia não nasce do nada; exige um alicerce afetivo prévio: “Embora muitos tipos de experiências alimentem a capacidade de estar só, há um tipo fundamental sem o qual a capacidade de estar só não pode se formar: a experiência de estar só, como bebê ou criança pequena, na presença da mãe.” O temor à solidão muitas vezes reflete não a falta atual de pessoas, mas a ausência de uma presença interna suficientemente segura que torne o silêncio um lugar habitável.
Arte: Gustave Courbet, 1869
Guimarães Rosa escreveu que o silêncio somos nós mesmos, demasiadamente. A solidão pode representar o contato mais íntimo de um indivíduo consigo mesmo. O problema é ter de se encarar, lidar com o desconforto de se perceber inadequado e cobrar-se por uma adequação que talvez nunca chegue. Será que a “normalidade” é tão saudável quanto julgam sê-la? Fala-se muito em pertencimento devido à excessiva oferta de espaço, esses multiversos disseminados pelas mídias nos fragmentam tal qual a Guernica de Pablo Picasso. Nossas faces tortas, irreconhecíveis para nós mesmos gera espanto, intensificando a solidão. Pertencer-se, habitar-se, é o maior desafio para quem tropeça nos próprios passos e não trata as feridas.
O amor frequentemente aparece envolto de ilusões românticas idealizadas pela cultura popular. Contudo, amar exige uma vulnerabilidade estrutural: implica expor a própria falta ao outro, renunciar ao controle onipotente e aceitar que o parceiro jamais preencherá totalmente as nossas lacunas existenciais. Não obstante, para muitos sujeitos, o ato de amar transforma-se em uma fonte incessante de angústia.
“Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneira de ser. O leitor de poesia é também um poeta” – afirma Mario Quintana, em entrevista a Edla van Steen, no primeiro volume de Viver & escrever (L&PM Pocket, 2008). A forma como o escritor enxerga o ser poeta é a maneira como intuí desde cedo. Por volta dos 7 anos de idade, eu já declamava poemas movido pelas
[...] “não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas.”
Zygmunt Bauman
Amar é exercício de ambiguidade. Ao passo em que busca a completude, necessita que um vazio por vezes se instaure. Só se ama na falta? Ou se aprende a querer o que se tem para que o desejo fomente o que se pode chamar de amor? É fato que é muito fácil almejar o perfeito, isto é, aquilo que está pronto. Mas, um escultor retira da pedra bruta sua arte pelo movimento da constante lapidação. Se um poeta é um fingidor, ele precisa fingir a matéria grossa das palavras,
A escrita, até mesmo para os escritores mais profícuos, tem sido fonte de sofrimento e de prazer. Esse misto de sensações é reforçado devido a uma visão romântica do talento e da inspiração para processos artísticos, numa concepção de que escrever está mais relacionado a dom do que a trabalho, como se a labuta com as palavras diminuísse o artesão. É à ideia de artesania que nos voltaremos, a partir das reflexões do psicólogo Robson Cruz em suas obras “Bloqueio da escrita acadêmica – caminhos para escrever com conforto e sentido” (Artesã, 2020); “O mal-estar na escrita acadêmica: um problema político” (Parábola, 2024) e “Zen e a arte da escrita acadêmica” (Artesã, 2025).
Um dos grandes problemas da produção textual é considerar o texto como produto que já virá perfeito, sem ser necessário reescrevê-lo, submetê-lo a constantes refeituras e leituras feitas pelo próprio autor e por agentes externos, professores, revisores, críticos especializados. Na primeira obra de Cruz, ele aponta que Freud escrevia regularmente, dedicava-se ao estudo de sua língua materna e outros idiomas, convivia com seus dramas e tramas, com auxílio de autores diversos. Isso contribuía para que escrevesse com mais segurança. Quase toda sua obra foi construída em torno do gênero ensaio, cuja denominação é autoexplicativa.
Sigmund Freud (1856–1939), médico austríaco e fundador da psicanálise, trabalha em sua escrivaninha ▪ Londres, 1938 ▪ Foto: Freud Museum
Escrever passa por esse processo de ensaiar repetidas vezes até que a execução se dê satisfatoriamente. Diversos autores já afirmaram que não se publica um texto/livro – abandona-o. Sim, chega uma hora que precisamos deixá-lo ir, retirá-lo da gaveta ou dos milhares de arquivos dispersos. Com isso, não se defende que seja tudo publicado. Moacyr Scliar dizia que a lixeira era uma grande aliada do escritor, apesar de muito poder ser reciclado. O que não serviu a um texto pode ser aproveitado em outro.
Moacyr Scliar (1937–2011), escritor, médico e cronista brasileiro, autor de romances, contos e textos marcados pelo interesse pela cultura e pela condição humana. ▪ Div.
Sobre o âmbito acadêmico, Robson descontrói em “O mal-estar na escrita acadêmica” a ideia de que os estudantes terem ingressado nas universidades representa domínio suficiente de leitura e escrita para o trabalho que será exigido nesse espaço. Afirma que, assim como outros bens distribuídos desigualmente, os letramentos também fazem parte daquilo a que todos deveriam ter direito, mas poucos obtêm, de fato. O acesso à cultura letrada ainda persiste como um problema político, sendo um privilégio de poucos e abarcado por discursos nos quais a meritocracia impera para pôr vendas sobre os olhos
de quem pode mudar essa realidade.
Em “Zen e a arte da escrita acadêmica”, o autor retoma a ideia de “bancar”
a imprecisão como forma de seguirmos adiante em nossos projetos de escrita e de autoconhecimento, processos intimamente interligados. Nas palavras de Cruz:
“Talvez a defesa da escrita imprecisa faça mais sentido se a tratarmos também como uma psicoterapia da escrita acadêmica, visto que o conhecimento mais valioso num consultório de psicologia clínica é aquele que se constrói via uma linguagem vacilante e imprecisa. Qualquer psicoterapeuta bem formado sabe disso. Apenas quando o paciente se liberta das certezas que tem sobre si mesmo e se interessa por aquilo que é impreciso em sua linguagem, é que as possibilidades para a mudança psicológica surgem”.
Entre a linguagem acadêmica e a elaboração na clínica, o processo ocorre de maneira oposta, porque na academia espera-se do pesquisador/estudante muitas certezas, mas esse suposto
Robson Nascimento da Cruz, psicólogo, professor e pesquisador brasileiro, dedicado ao estudo da vida acadêmica, da escrita e da história da psicologia. ▪ Fonte: PUC/RS
saber frequentemente se reveste de arrogância e de opressão a quem entende a dúvida como um processo salutar e lícito na construção do saber.
Ainda em “Zen”, aborda-se a relação do corpo na escrita, lembrando-nos do quanto a utilização das mãos e da postura corporal diante do texto são relevantes para o efeito psicológico na escrita. O ritmo e o som da digitação, o bailar dos dedos, a respiração consciente, tudo isso e outros aspectos têm influência na confecção textual.
Robson Cruz há anos se dedica ao estudo de escrita criativa no meio acadêmico, aos sofrimentos psíquicos oriundos desse contexto e como a política gerencia esses sintomas. É psicólogo, professor da Puc-Minas. Seus textos merecem ser lidos por muitas pessoas que sofrem desse mal-estar na escrita, para compreensão de que não necessariamente precisamos nos livrar dessa angústia, mas aprender a escrever com ela, sem romanceá-la, conciliando as múltiplas sensações do processo criativo.
“Contra o silêncio e o ruído invento a Palavra, liberdade que se inventa e me inventa a cada dia.”
Octavio Paz
Deitei a toalha branca. Levantei a bandeira. Corpo a corpo reclamei os horizontes tão vislumbrados, mas tão pouco alcançados. É o cúmulo do descompasso ir na contramão de si mesmo, um exercício para que tudo seja reparado. E aqui estou a ancorar numa identidade sem forma, com sensação de mea culpa por fraquejar no autoconhecimento.
“Não preciso fazer terapia, não adianta, isso é coisa de gente fraca.” “Eu tenho amigos, se é só conversar com alguém.” “Problema todo mundo tem; basta ter força de vontade.” “Minha terapia é a minha fé/igreja”. Essas e outras frases são comumente pronunciadas, quando alguém sugere iniciar uma psicoterapia. Elas reproduzem a ideia equivocada de que o sofrimento psíquico deve ser enfrentado apenas pela força individual, ou sem ajuda de um profissional qualificado. Isso ocorre porque a maioria das pessoas
A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro.
Hermann Hesse
Rastejo. Tateio. Apalpo como quem busca o braile da memória na mais vã tentativa de encontrar o caminho, mas avança na contramão. Como é difícil interpretar-se pela tendência que temos de nos reconhecermos mais ou menos fracos diante do universo de possibilidades que temos diante de nós. Por isso a angústia, a vertigem do óbvio, o lugar-comum da sabotagem, a sensação de despreparo diante da vida inédita e, ao mesmo tempo, reprodutora de representações banais.
Neste ano, entre os dias 22 e 26 de julho, ocorreu a 24ª FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), considerada o maior evento do gênero, cuja homenageada foi a poeta Orides Fontela. Embora desconhecida pelo grande público, a escritora teve sua obra avaliada e elogiada por críticos de renome, a exemplo de Antonio Cândido, Davi Arrigucci, Marilena Chauí, Nelly Novaes Coelho, Alcides Villaça e Augusto Massi.
Dominar a crase é como aprender as regras de um jogo: depois que você entende a lógica, não precisa mais adivinhar a jogada. Enquanto o texto anterior focou na "regra de ouro" da fusão entre a preposição e o artigo, neste vamos nos ater aos casos em que a crase é obrigatória, facultativa (opcional) ou terminantemente proibida.
Dominar o uso da crase pode parecer um desafio, mas, na verdade, é um processo lógico e tranquilo quando entendemos que ela nada mais é do que uma fusão. Imagine o encontro de dois elementos: a preposição "a" (exigida por uma palavra anterior) e o artigo "a" (que acompanha uma palavra feminina seguinte). Quando esses dois se juntam, usamos o acento grave (`) para marcar essa união.
Há um mundo que dorme no sótão. Tão só. Ele anseia por uma resposta, mas só ouve seus ecos que o ensurdecem e o retira a visão. Com passos trôpegos insiste em caminhar. Para onde? Está escuro. De onde virá a luz? Mundo arregimentado por burburinhos, pela indiferença.
Affonso Romano de Sant’Anna, poeta, professor, crítico literário e cronista, afirmava que o “cronista é crônico”, isto é, “doente do seu tempo”, mas que não se deve limitar-se à marcação cronológica , sob o risco de produzir textos datados.
Affonso Romano de Sant’Anna (1937–2025), poeta, cronista, ensaísta, crítico literário e professor mineiro, natural de Belo Horizonte. ▪ Fonte: YT Global
A identidade se refere à parte do nosso ser responsável pelo entendimento de quem somos, de modo a nos diferenciarmos e nos constituirmos como sujeitos. Porém, isso ocorre quando passamos a analisar o outro de forma a validar ou invalidar aspectos alheios.
Um susto. Um olhar. Sem timidez. Percorro a vista como quem já conhece o território. Mas, por outros caminhos. Não conheço o nome das partes. É um corpo que habita eras. É bela e triste, como o amor. Tem desejo. Uma voz com um timbre macio. Clama por defloração. É agora. É sim. Como foi que me deixei vestir por uma ilusória imortalidade?
Amar é retirar excessos. Desobstruir a passagem de tudo que impede nosso crescimento. É preencher vazios, embora não por completo. Amar também é limitar. Não é tolher, delimitar fronteiras, meramente. É pôr foco. É contemplar – fazer do nosso olhar um descanso. O amor deve se dispor de si para ser ao outro.
Sou contemporâneo do ontem; moderno do amanhã. Atemporalizado pela pressa, articulado pelo desejo. Parte da mudança está em mim e não devo tomar a outra face como sendo minha. Sei que o autoconhecimento demanda já tanto de mim. Deverei me aturar até o esgotamento, utilizando mecanismos de defesa: sublimação, subterfúgios para que não me destrua antes de insistir nesse processo de (re)construção diária.