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Uma das maiores lembranças que guardo de minha mãe, desde que comecei a me entender por gente, é ela trabalhando e preocupada com a educ...

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Uma das maiores lembranças que guardo de minha mãe, desde que comecei a me entender por gente, é ela trabalhando e preocupada com a educação dos filhos. Sempre trabalhou. Três expedientes, dois fora e um dentro de casa. Reclamava? Muito, mas não deixava de fazer a sua obrigação e de nos ensinar. Bonita, vaidosa, sempre bem vestida, expressava-se e escrevia bem na forma, incluindo a letra, e no conteúdo. Sempre presente, nunca relaxou, no que diz respeito, principalmente, à nossa educação, doméstica e escolar.

Continuamos nesta semana o assunto das edições anotadas, cuja discussão foi iniciada com o texto da semana passada – “Edições anotadas (Pa...

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Continuamos nesta semana o assunto das edições anotadas, cuja discussão foi iniciada com o texto da semana passada – “Edições anotadas (Parte I)”. Diferentemente de uma edição crítica, que se destina a levar a público um texto que se aproxime do animus auctoralis, de modo que o estudioso se sinta mais à vontade pela sua fidelidade, as edições anotadas ou comentadas devem ficar atentas não só ao que precisa de esclarecimento, mas também, na medida do possível, deve apontar, no seu comentário, algum lapso que o autor tenha cometido. Fiquemos com uma passagem de “O Homem”, em que Euclides da Cunha confunde equinócio de primavera com o equinócio de outono:

Sou dos maiores defensores das edições anotadas. Livros, os importantes, sobretudo, devem merecer notas de comentadores, que sirvam ao lei...

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Sou dos maiores defensores das edições anotadas. Livros, os importantes, sobretudo, devem merecer notas de comentadores, que sirvam ao leitor e ao estudioso. Tenho visto, contudo, muitas edições anotadas que parecem não conhecer o sentido do que devem esclarecer, relegando o que deve ser a essência das notas: uma mão dupla, em que o esclarecimento do termo ou da expressão teria um movimento externo, em direção ao leitor, e a sua contextualização, num movimento que a leva de volta para dentro do texto. Infelizmente, nem sempre funciona dessa maneira. Em muitos dos casos, há um movimento único, de explicação do termo, esquecendo da importância que é o retorno da nota ao texto. Constato, além disso, que nem sempre há um critério que norteie a necessidade das notas.

“O que foi visto naquela noite no Cassino Tabarís por bêbados, putas e anjos do céu transbordou até a Praça do Poeta Castro Alves e desa...

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“O que foi visto naquela noite no Cassino Tabarís por bêbados, putas e anjos do céu transbordou até a Praça do Poeta Castro Alves e desaguou no mar dos saveiros”. Esta frase bem poderia ter sido escrita por Jorge Amado, retirada de uma das aventuras de Quincas Berro D'Água, o rei das prostitutas e vagabundos da Bahia. Mas é da autoria de Cida Lobo, do livro Na noite que me queiras (Maringá, Viseu, 2021, p. 145). O romance enfoca o apogeu

Dante e Virgílio chegam ao Sétimo Círculo do Inferno, onde é punida a violência, contra si, contra o próximo e contra Deus. Este Círculo é...

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Dante e Virgílio chegam ao Sétimo Círculo do Inferno, onde é punida a violência, contra si, contra o próximo e contra Deus. Este Círculo é muito complexo e se divide em três Giros. No primeiro Giro, estão os violentos contra pessoas: tiranos, homicidas e salteadores (Canto XII); no segundo Giro, encontram-se os suicidas e os perdulários, violentos contra si próprios (Canto XIII); no terceiro Giro, veem-se os blasfemos, sodomitas e usurários (Cantos XIV, XV e XVI).

A maior das astúcias do Demo é nos convencer de que ele não existe. Acrescento que a maior das imposturas do Mal é nos persuadir de que es...

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A maior das astúcias do Demo é nos convencer de que ele não existe. Acrescento que a maior das imposturas do Mal é nos persuadir de que está agindo para o bem. O Mal não dorme. Não tem glândula pineal. Não precisa de repouso nem de contato com o mundo espiritual. O Mal é absolutamente insone. Argos de cem olhos sempre despertos. O Mal é Hidra. Suas cabeças devem ser cortadas de uma única vez. E cauterizadas pelo fogo purificador. Duas sempre nascerão, se cortarmos uma a uma. O Mal é tentacular. O Mal é ubíquo. Cheio de blandícias, o Mal é sedutor. O Mal é impostor.

Muitas pessoas não se dão conta de que, ao dizer tataravô ou tataraneto , estão usando uma palavra grega – téssares ou téttares . A pala...

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Muitas pessoas não se dão conta de que, ao dizer tataravô ou tataraneto, estão usando uma palavra grega – téssares ou téttares. A palavra no grego é τέσσαρες, com a variante ática τέτταρες, para masculino e singular, e τέτταρα, para o neutro. O termo significa o cardinal “quatro”. Tataravó, portanto, deveria ser o quarto avô, mas, como acontece comumente na língua, as palavras acabam por perder o seu sentido original e, mesmo que não se afastem tanto, tendem a expressar outra significação. Assim, tataravô ou tataraneto não são, exatamente, o quarto avô ou o quarto neto, mas o avô ou neto mais distantes, não excluindo, evidentemente, em alguns casos, a exatidão do termo.

Instigante, o mais recente livro de Hélder Moura, O princípio da diversidade e outros anarquismos: textos pandemônicos (João Pessoa, Idei...

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Instigante, o mais recente livro de Hélder Moura, O princípio da diversidade e outros anarquismos: textos pandemônicos (João Pessoa, Ideia, 2021). Lançando mão de um recurso habitual na literatura – o autor que se faz editor – e estando na boa companhia de Tomás Antônio Gonzaga, José de Alencar e Aluísio Azevedo, Hélder diz ter recebido os manuscritos de um falecido amigo de longas datas, de nome Bakunin, tornado “Bacurim”, pela zombaria outrora natural de crianças e adolescentes, uns com os outros; amigo anarquista por excelência,

Nas minhas aulas de literatura, costumo repetir, à maneira de um mantra, duas frases, que me parecem essenciais para quem quer lidar com...

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Nas minhas aulas de literatura, costumo repetir, à maneira de um mantra, duas frases, que me parecem essenciais para quem quer lidar com o fenômeno literário na condição de leitor crítico ou de professor de literatura:

“Por melhor que seja a análise feita de uma obra literária, ela não substitui a sua leitura.” “Não cedam à razão da autoridade, mas à autoridade da razão."

O poeta Linaldo Guedes disse ter acordado cheio de perguntas. Despertou assaltado por questionamentos sobre a validade da classificação “...

literatura regionalismo modernismo sociologia classificacao
O poeta Linaldo Guedes disse ter acordado cheio de perguntas. Despertou assaltado por questionamentos sobre a validade da classificação “literatura paraibana” e “literatura regionalista”. Considero sua inquietação válida e, sobretudo, preciosa, porque nos auxilia na busca de entendimento do problema, que, diga-se de passagem, está longe de ser resolvido ou de ter uma resposta a contento.

A quinta parte de Os Miseráveis se chama “Jean Valjean”. O primeiro livro, “La guerre entre quatre murs” (“A guerra entre quatro muros”), ...

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A quinta parte de Os Miseráveis se chama “Jean Valjean”. O primeiro livro, “La guerre entre quatre murs” (“A guerra entre quatro muros”), é composto de 24 capítulos, abordando a guerra travada a partir da barricada da rua de Chavrerie, na aurora do dia 6 de junho de 1832, numa tentativa de levante contra o rei Philippe-Louis. O segundo livro, composto de seis capítulos, se chama apropriadamente “L’intestin de Léviathan” (“O intestino de Leviatã”), aborda apenas o discurso sobre os esgotos de Paris, seguindo o roteiro estabelecido por Victor Hugo de fazer uma dissertação pormenorizada sobre

De um vaso coríntio, do século VI a.C. (~560), que, segundo informação de Timothy Gantz ( Mythes de la Grèce archaïque , Paris, ed. Belin,...

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De um vaso coríntio, do século VI a.C. (~560), que, segundo informação de Timothy Gantz (Mythes de la Grèce archaïque, Paris, ed. Belin, 2004, p. 266), encontra-se em Boston, nos vem a imagem de Odisseus atado ao mastro de seu navio, com uma sereia voando ao redor dele, outras duas apoiadas em duas rochas, enquanto seus marinheiros continuam remando. Há um nítido contraste entre a atitude de Odisseus, olhando para cima, e a impassibilidade dos remadores ou a instrução do timoneiro, que, inquestionavelmente, lhes diz de continuar remando, conforme se sabe pela narrativa do poema homérico.

A melhor definição que já vi para o epigrama encontra-se em Os sertões, de Euclides da Cunha. O escritor fala da organização metódica do M...

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A melhor definição que já vi para o epigrama encontra-se em Os sertões, de Euclides da Cunha. O escritor fala da organização metódica do Marechal Carlos Machado de Bittencourt, então secretário de Estado dos Negócios da Guerra, posto equivalente ao do antigo Ministro da Guerra, tomando as providências para criar uma base de operações, de modo a fazer fluir os comboios e apoio para as tropas da quarta expedição sitiadas em Canudos. Euclides traça o seu perfil como o de homem “friamente, equilibradamente, encarrilhado nas linhas inextensíveis do dever. Não era um bravo e não era um pusilânime” (“A Luta”, Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo VIII, p. 541). Homem das normas, Machado de Bittencourt “tinha o fetichismo das determinações escritas.

Em Homero não há gregos. A única vez que o termo aparece, na Ilíada , é no Canto II, quando da referência às naus e aos heróis comandados ...

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Em Homero não há gregos. A única vez que o termo aparece, na Ilíada, é no Canto II, quando da referência às naus e aos heróis comandados por Aquiles. Eles são os Mirmidões, tanto chamados de Helenos quanto de Acaios (Μυρμιδόνες δὲ καλεῦντο καὶ Ἕλληνες καὶ Ἀχαιοί, verso 684). Não existem gregos, porque não existe uma Hélade (Ἑλλάδα, verso 683), senão, como uma das terras, além da Ftia, pertencente aos Mirmidões. Existem cidades-estados, cujo rei (βασιλεύς) pode ou não se aliar a um grande senhor (ἄναξ), num exército de coalizão. O termo Ἕλληνες, portanto, não rivaliza com aqueles patronímicos escolhidos para designar os heróis provenientes de várias regiões –

O historiador Guilherme Gomes da Silveira d'Avila Lins dá a lume o livro Uma contribuição para os primórdios da História dos Beneditin...

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O historiador Guilherme Gomes da Silveira d'Avila Lins dá a lume o livro Uma contribuição para os primórdios da História dos Beneditinos na Paraíba (João Pessoa, MVC Editora, 2019), em edição ilustrada com gravuras do século XVII e fotografias atuais, conforme consta na informação da capa. Ordem que chegou nesta terra Brasilis, desde o final do século XVI, quando aportaram na Cidade do Salvador, Capitania da Bahia, em 1581. Daí, foram para São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1586; em seguida,

O meu neto, Arthur tinha 8 anos – hoje está com 10 –, quando me perguntou se eu sabia que ele tinha uma madrasta e um madrasto. Mesmo sabe...

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O meu neto, Arthur tinha 8 anos – hoje está com 10 –, quando me perguntou se eu sabia que ele tinha uma madrasta e um madrasto. Mesmo sabendo o que ele dizia, eu lhe pedi que me explicasse o que ele estava dizendo. Ele me disse que a namorada do pai era a sua madrasta; o namorado da mãe era seu madrasto.

Quais são os caminhos percorridos pela criação? Muitos, sem dúvida. Às vezes, uma simples referência se esconde em um labirinto, cujas via...

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Quais são os caminhos percorridos pela criação? Muitos, sem dúvida. Às vezes, uma simples referência se esconde em um labirinto, cujas vias nem sempre são fáceis de palmilhar. Peguemos, como exemplo, uma passagem de Os sertões. O estilo de Euclides da Cunha, nessa obra é caracterizado, entre outros recursos, pela utilização do superlativo absoluto sintético, pela abundância das figuras de linguagem, de que se destacam as aliterações e as figuras de oposição do discurso – antítese, paradoxo e oxímoro. Em meio a tanta riqueza estilística, sempre nos despertou o interesse uma alegoria de Euclides da Cunha para explicar como se deu o confronto

Traduzir não é tarefa fácil. Traduzir línguas clássicas, que já não se utilizam no cotidiano, como o grego arcaico de Homero é ainda mais ...

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Traduzir não é tarefa fácil. Traduzir línguas clássicas, que já não se utilizam no cotidiano, como o grego arcaico de Homero é ainda mais complexo. A tradução per se requer paciência e conhecimento mais do que as duas línguas, a que se traduz e a que acolhe a tradução. Os pontos de partida e de chegada, portanto, devem ser conhecidos. Mas não é o bastante. É preciso que se conheça o contexto e o assunto do que se traduz. No caso de tradução de texto literário, é preciso que se conheça o autor, seu estilo e a estrutura do texto que se traduz. Além disso, precisamos ter a consciência de que não existe a tradução, mas uma tradução possível naquele momento, quando nos referimos aos clássicos.

Muitos amigos, não sendo da área específica de Letras, me perguntam qual a diferença entre narração e narrativa. Tentarei uma explicação q...

Muitos amigos, não sendo da área específica de Letras, me perguntam qual a diferença entre narração e narrativa. Tentarei uma explicação que possa ser didática, sem fugir das questões técnicas. A narrativa é o todo, é o plano geral que encerra uma história que se conta. Dentro desse todo, há vários meios de que o narrador se utiliza para contar a história. Estes meios chamamos de recursos narrativos. Tomemos, como exemplo, um poema épico, em lugar de um romance ou de um conto, narrativas mais fáceis de se evidenciar a diferença que aflige várias pessoas.

Deixei de lado a minha aversão à histeria coletiva, sempre que surge um filme dado a polêmicas. Custo a vê-lo e, depois de assistir, sint...

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Deixei de lado a minha aversão à histeria coletiva, sempre que surge um filme dado a polêmicas. Custo a vê-lo e, depois de assistir, sinto uma decepção profunda com tanta energia gasta em torno de nada. Pois bem, deixei de lado isto, que alguns podem chamar de preconceito, e fui ver o badalado filme Não olhe para cima (EUA, Adam McKay, 2021). Desta vez, não me decepcionei com o filme, achei-o, como entretenimento, razoável, histriônico, às vezes, mas sem a sustentação que muitos nas redes sociais desejaram lhe dar, querendo particularizá-lo, como se a película fosse uma alegoria específica do Brasil e não de um momento por que passa o mundo, hipnotizado pela força sedutora das banalidades midiáticas.