10.10.15
O mar da Córsega, essa ilha do Mediterrâneo que meus pés pisaram recentemente, mostra-se logo ao visitante. De cima dos penhascos todos pod...
O mar da Córsega, essa ilha do Mediterrâneo que meus pés pisaram recentemente, mostra-se logo ao visitante. De cima dos penhascos todos podem contemplá-lo. Uma beleza de paisagem. Dá impressão que, sendo mais visível, está mais perto da gente. E olhar o mar provoca uma sensação de paz. Aliás, Deus fez o mar para embelezar o mundo e alegrar as pessoas.
E como valeu a pena parar, vez por outra, nos mirantes e acostamentos e ficar com os olhos passeando pelas ondas que se desmanchavam em espumas, nas rochas claras da bonita ilha. Espumas que valem por um sorriso. Sim, as espumas são sorrisos do mar.
E não esquecer que tudo na vida ensina. As ondas se desmancham em espumas, mas depois elas voltam a ser ondas. Já repararam? Pois é, a vida também é assim. Não se extingue na morte, como muitos pensam. Se fosse assim, que sentido teria a vida? Onde estaria a nossa responsabilidade de viver? Que adianta a moral se não prestamos conta dos nossos atos? Morre o corpo físico, mas fica a consciência. Esta, sim, nos acompanhará eternamente.
Mas, voltemos ao mar Mediterrâneo, visto da Córsega. Que maravilha! E saber que muita gente já não se espanta mais diante da Natureza, diante de uma imensidão azul como essa, que os homens jamais construirão. Os homens constroem piscinas. Mas que diferença entre uma piscina e o mar! A piscina não tem ondas, ondas que se diluem em espumas. A piscina precisa de cloro, senão sua água apodrece. A piscina não recebe a visita diária dos rios. A piscina é limitada, é humana. O mar é divino – repito. A piscina não tem peixes. E não tem peixes porque sua água é morta. O mar é todo vida. E há quem o contemple sem entusiasmo, sem admiração, sem espanto.
Ora, o mar pede olhos de criança para vê-lo, olhos de poeta. Há pessoas que passam por ele sem nenhuma emoção. Passam como máquinas. Não escutam o seu marulho. Falei em marulho, não confundir com barulho.
Fazia tempo que eu não via um mar assim, sem barracas, sem espigões, que nos impedem avistá-lo de longe. E aqui, as praias são, sobretudo, locais de contemplação. Sem aquelas barracas que vendem espetinho, cachorro quente, cerveja, cigarro e as pessoas ficam de costas para a imensidão oceânica...
Nas nossas praias de Tambaú, Cabo Branco, Jacumã, Seixas, grande parte é tomada pelas barracas. Uma verdadeira muralha tapando a visão do mar. Que pena! Dir-se-ia que o barraquismo é uma espécie de moléstia. Talvez um câncer em estado de metástase. A praia de Manaíra, felizmente, livrou-se dessa enfermidade. E a visão límpida de seu mar vale por uma autêntica terapia. Faz bem ao espírito passar por lá e ficar olhando o mar se desmanchando em espumas. Dá gosto contemplar a linha do horizonte, lá longe nos dando adeus... E viva o mar!
10.10.15
9.10.15
S ó há pouco tempo, vim a saber o significado da palavra “entusiasmo”. E o contrário da palavra entusiasmo é o desânimo. Que o leitor se liv...
Só há pouco tempo, vim a saber o significado da palavra “entusiasmo”. E o contrário da palavra entusiasmo é o desânimo. Que o leitor se livre dele, pois nunca criou nada. Goethe, já perto de fechar os olhos para o mundo, gritou, entusiasmado: “Luz! Mais luz!”
Recuando no tempo, lembremos de que o físico Arquimedes, quando tomava banho numa banheira, sentiu que seu corpo, mergulhado no líquido, baixava de peso. E gritou entusiasmado: “Achei, achei!” Sim, ele descobrira a lei da hidrostática. E dizem que saiu correndo nu pela rua, dada a força do entusiasmo.
E o que vem a ser entusiasmo? Significa “Deus em nós”. E como ter entusiasmo? Procure a Música, procure a boa leitura, as boas amizades, o bom trabalho, uma religião saudável, procure a Natureza. Veja o mar sorrindo, através das ondas e espumas, veja as crianças brincando, cheias de entusiasmo, e Jesus abraçando-as, dizendo: “Vinde a mim as criançinhas por que delas é o Reino dos Céus. Entusiasmo é luz. Goethe tinha razão.
A Natureza é a maior fonte de entusiasmo. Você sai dela renovado. E se você quiser se entusiasmar com a Música, ouça a Nona Sinfonia.
Visitei, recentemente, paisagens estrangeiras, que me deram lições de entusiasmo, a começar por aquela cachoeira, descendo a montanha, sem medo de cair.
Entusiasmo e nada de desânimo, que é Deus fora de si.
Um famoso psicoterapeuta disse que três coisas fazem o homem alegre: a boa música, uma boa notícia e uma religião saudável. E diz o ditado popular que tristeza não paga dívida. Vamos, diga como o mestre Rabelais: Ria, ria, só o homem é o animal que ri.
Desejo concluir com um exemplo de entusiasmo. Trata-se de um animal, um pássaro. É só se levantar, manhã cedinho, e ei-lo saudando a vida, o nosso querido bem-te-vi. Mas, muita gente prefere ser urubu... Vestido de preto e procurando a carniça.
9.10.15
4.10.15
D esculpem-me o truísmo, mas nós não somos nada sem outros. Os outros são que dão vida à nossa vida. Quer ver uma prova? Suponhamos que você...
Desculpem-me o truísmo, mas nós não somos nada sem outros. Os outros são que dão vida à nossa vida. Quer ver uma prova? Suponhamos que você vá visitar algumas cidades do primeiro mundo, com todas as suas belezas turísticas, a exemplo das que visitamos recentemente como Lugano, Bonifácio, Olbia, Menaggio, e não encontre ninguém nas ruas, nos cafés, nos bares, nas praças... Um verdadeiro cemitério. Será que você continuaria sua viagem? Evidente que não. Mesmo com o sol desfilando nas avenidas, mesmo com os bosques, os lagos, as ruas e monumentos históricos, os museus... você, imediatamente, sairia correndo desses centros urbanos. E mesmo que fosse ao teatro, completamente vazio, evidente que seria grande a sua frustração.
Como foi lindo, há poucos dias, quando depois de visitar cidades da fronteira da Suíça com a Itália fui chegando em Lisboa ensolarada, com aquela sua simpatia, com toda aquela gente na Rua Augusta, pra lá e pra cá, confesso que fiquei emocionado. Gente sorrindo, conversando, passeando, dando “bom dia”. É que o outono se aproximava e com o outono, as cidades se renovam.
Mas já imaginou se eu chegasse em Lisboa e não visse ninguém nas suas belas avenidas? Ninguém no Chiado, no Bairro Alto? Seria um inferno. Daí a grande verdade: A presença humana em nossa vida é tudo. Somos os outros, repitamos. Até os cemitérios se animam com a presença das pessoas. Por que os cemitérios são tão tristes? Porque são desertos. Sem ninguém, mesmo que seus mausoléus sejam belos, mesmos que os túmulos estejam cheios de flores, a sensação que temos é uma sensação de morte.
A vida só é bela por causa da presença dos outros. E estupidamente esquecemos esta verdade: os outros somos nós. É neles que nos refletimos, que nos identificamos. É verdade que, vez por outra, precisamos de ficar sozinhos. É bom ficarmos numa praia deserta, a exemplo de nossa Tabatinga, a contemplar suas pedras sendo beijadas pelas ondas... É gratificante esse momento de solidão, mas que ele não demore muito. Sem a presença humana as coisas perdem significação.
Mas se sabemos disso, por que não somos mais solidários, mais fraternais, mais amigos? Por que não procuramos conhecer melhor as pessoas e, conhecendo-as, compreendê-las? Aliás, este é o maior problema de todos os tempos. Daí a recomendação do mestre dos mestres: “Ama ao próximo como a ti mesmo”. Ele achou pouco e ainda veio com aquela outra recomendação: que amássemos os nossos próximos inimigos. E o que fazem as religiões que se dizem cristãs? Só sabem matar os que discordaram delas. Daí as cruzadas, as inquisições, a guerra dos 100 anos e agora essa fuga triste dos imigrantes assombrados com as misérias das guerras “santas”, que não têm nada de santas, entre os próprios cristãos.
Acho que o pior dos infernos é você sozinho no mundo. Não há coisa mais bela do que a multidão nas ruas. Ah, Lisboa, como estavas bela naquela manhã ensolarada com gente por todos os lugares!...
4.10.15
4.10.15
É isto aí. Cigarro fede e mata. Eu fui um inveterado fumante. Fumei até tomando banho de mar e debaixo de um chuveiro. Minha mãe e minha av...
É isto aí. Cigarro fede e mata. Eu fui um inveterado fumante. Fumei até tomando banho de mar e debaixo de um chuveiro.
Minha mãe e minha avó eram viciadas em engolir fumaça. Meu pai morreu com o pulmão limpinho. Ah, o pulmão!... Um dos órgãos mais importantes do nosso organismo. Vai aqui um aviso ao consumidor de nicotina: quem fuma está se suicidando.
Cheguei, agora mesmo, de mais uma viagem ao exterior. Vi no aeroporto de Lisboa uma sala de vidro fechada e os fumantes soprando seus cigarros. Tive uma pena de doer. Muitos deles ficavam de costas com vergonha de estarem fumando.
Chupar a fumaça de cigarro e soprá-la. Que divertimento estúpido. Fui fumante inveterado, repito, até que, numa certa manhã, na praia, senti o coração disparar. Uma taquicardia de morrer. Consequência do fumo. Pensei, joguei o veneno fora e tive a dignidade e a coragem de nunca mais fumar.
Lembro de que no tempo em que eu chupava fumaça, fumar era um vício elegante. E o artista Humphrey Bogart era o que mais fumava.
Minha primeira esposa, Carmen, gostava de me ver o marido fumar, a ponto de dizer: “Você fuma com muita elegância”. A ciência ainda não descobrira seus grandes malefícios. Fui na onda e se não fosse aquela taquicardia, na praia...
Fumei durante muitos anos, e, por incrível que pareça, depois de ter parado, há 40 anos, na radiografia de meus pulmões ainda há resquícios do venenoso cigarro.
Curioso, é que o animal não fuma. Quer ver? Faça uma experiência. Nem o cachorro que tem tanta semelhança com o animal racional.
Na minha família, o filho mais velho, Mário, morreu de fumo. Visitei-o no hospItal, arquejante.
Cigarro só rima com catarro. E nunca esqueci de que, depois de tanto tempo sem fumar, o médico examinou os meus pulmões e estavam lá, no raio-x, os resquícios do fumo.
4.10.15
20.9.15
A voz descia de um edifício de apartamentos, aqui perto. Uma voz suave. Voz de quem está de bem com a vida. E quem está de bem com a vida, ...
A voz descia de um edifício de apartamentos, aqui perto. Uma voz suave. Voz de quem está de bem com a vida. E quem está de bem com a vida, canta. Ninguém canta com raiva. Não era a dona do apartamento. Acho que não. Talvez até tenha acordado mal humorada. E estou receando que ela mande a sua funcionária se calar.
Mas há um ditado que diz: “quem canta, seus males espanta”. A moça cantava, os automóveis passavam, o Sol brilhava lá no alto, as árvores sorriam com as cócegas que o vento lhe provocava, os pássaros cantavam, era mais um dia para a gente viver.
A moça cantava. Mas nem todo mundo pode cantar no trabalho. O coveiro, por exemplo, não deve cantar, enquanto está levando o caixão para a cova. Mas, tenho certeza, de que os bem-te-vis jamais se calarão diante de um dia amanhecendo. Pelo menos é que ouço, todos os dias, com a chegada da madrugada.
Acontece que a voz da moça era de uma suavidade encantadora. E ouvindo-a, disse com os meus botões, eis aí uma pessoa feliz. Vá ver que a moça tem muitos problemas, mas, quem não os tem? Vá ver que o salário é pequeno, que algum filho, ou o marido, são motivos para o choro e não para o sorriso. Muita coisa há para a gente chorar.
A verdade é que nem todo mundo pode trabalhar cantando, seja o desembargador Marcos Cavalcanti, seja o governador Ricardo Coutinho. Cantar é um privilégio. Conheci um general que não cantava, mais assobiava.
Voltemos à moça. Que brandura de voz, tão suave que motivou esta crônica. Abelardo Jurema Filho canta que é uma beleza. Nisso não puxou ao pai, que preferia o bom discurso, ao canto.
É saudável cantar, é saudável sorrir, é saudável dar um cumprimento amistoso. Canta Abelardo, mesmo que não seja eleito para a Academia!
20.9.15
20.9.15
F oram muitas, repito. Repito e continuo, pois o assunto foi de coluna recente, aqui neste espaço. Continuo referindo-me aos nossos desembar...
Foram muitas, repito. Repito e continuo, pois o assunto foi de coluna recente, aqui neste espaço. Continuo referindo-me aos nossos desembargadores, sobretudo aqueles com quem privei de certa intimidade. E este que trago agora ao texto não podia ficar esquecido. Ele teve uma grande influência em minha vida. Teve muito de pai, pois mirei-me muito no seu exemplo. Com ele muito aprendi. Refiro-me a Osias Nacre Gomes. Fiquemos apenas, com o Osias, com quem trabalhei por muito tempo, ele como Secretário do Interior do governo de José Américo e eu como seu assessor direto.
Osias era um dínamo. Escrevia quase correndo. Daí ser frequente ver o suor escorrendo na testa, quando estava concentrado, redigindo. Ele confiava muito em mim. Pois não é que me escolheu para substituir o juiz de Santa Rita, Dr. Carlos Coutinho?
Sei não. Só sei que me de dei bem com a nova experiência.
Osias me ensinou demais. Um homem alegre, culto, de uma honestidade admirável, hoje cada vez mais rara...
Chegou a desembargador. Escreveu um livro, cujo título não me lembro agora, em que conta muita coisa de sua vida. Muita justa a homenagem do nosso Tribunal de Justiça de colocar o nome de Osias na sua Biblioteca.
Esse homem simples, que muito me estimulou, lia e dizia que gostava de minhas crônicas. Religioso, cristão convicto, conhecia a Bíblia a fundo.
Tinha um neto, muito amigo nosso, que o admirava demais, que também é dado às letras e escreve muito bem: Cleanto Gomes Pereira. Que, aliás, vai lançar mais um livro no próximo mês de novembro. Se Deus quiser, estarei lá, para os abraços e autógrafos.
Osias Gomes, um exemplo de homem. Muitas vezes, escrevia assobiando. Ele só errou numa coisa. Quando me convidou para representá-lo numa ação penal. E o advogado opositor era Renato Bastos, que me deixou o tempo todo como se estivesse na Groenlândia, com as mãos geladas.
Para mim o nosso Osias nunca morreu. Continua e continuará vivo na minha memória e no meu coração.
Não posso esquecer do nosso desembargador Francisco Espínola, um homem de constante bom humor, de uma simplicidade que comovia. Sua filha, nossa amiga Ana Cândida, que foi minha vizinha por muito tempo, é um exemplo de bondade e inteligência. Seus pontos de vista sempre se coincidiam com os meus. Por exemplo,e la é uma grande admiradora de Fernando Henrique, como escritor. Concordo com ela em gênero e número.
Desembargadores... A verdade é que há muitos que admirei. É o caso do meu amigo Onildo Farias, que com os olhos de seu anjo de guarda, Terezinha vê tudo bem na vida.
20.9.15
20.9.15
U ma catedral de livros começou a ser construída no dia 18 de abril de 1857 e já está bastante avançada. Que coisa extraordinária! Mas, só n...
Uma catedral de livros começou a ser construída no dia 18 de abril de 1857 e já está bastante avançada. Que coisa extraordinária! Mas, só no final, é que vou dizer que catedral é esta.
Voltemos um pouco na História. Jesus nunca construiu templos de pedra. Ele sabia da fragilidade das construções materiais feitas pelos homens. Tanto é assim que nunca edificou um templo. Falava nas igrejas dos outros. Para ele, a verdadeira catedral é a de sua doutrina consoladora, o Evangelho, que significa Boa Nova.
Foi tão humilde que nasceu numa manjedoura, entre animais domésticos. Ele sempre dizia que era humilde de coração e que não tinha uma pedra onde repousar a cabeça. O importante para ele era o conhecimento a Verdade que liberta. Não possuía igrejas. Tanto é assim que pregava ar livre, sentindo no rosto o beijo da brisa matinal. Assim foi quando proferiu o seu primeiro sermão, o Sermão da Montanha, onde está resumida toda a sua Doutrina de luz.
Jesus também disse aos discípulos que seu precursor, João Batista era um homem simples, que não usava vestidos finos, nem morava em palácios... Isso ficava para os reis...
Portanto, sua catedral é o Evangelho, que não é feita de cimento, pedra, cal e ferro. Uma catedral da sabedoria, que liberta o homem da ignorância.
E a catedral que me mencionei no início é a catedral de livros espíritas, que se iniciou no dia 18 de abril de 1857, em Paris, com o lançamento de “O Livro dos Espíritos”, por Allan Kardec, há 158 anos. De lá para cá, quantos livros estão sendo publicados, formando uma impressionante literatura, escrita pelos homens e pelos espíritos! Duvida? É só ir às nossas livrarias, onde os livros espíritas estão entre os mais vendidos. Esta é a verdadeira catedral que consola e liberta.
20.9.15
20.9.15
A ndei pensando nos dias da semana e me veio a pergunta: “Qual o seu dia da semana predileto?” E eu, com meus botões, respondi sem pestaneja...
Andei pensando nos dias da semana e me veio a pergunta: “Qual o seu dia da semana predileto?” E eu, com meus botões, respondi sem pestanejar: Quinta-feira. Mas, depois me veio um ligeiro remorso. Por que me esqueci do domingo, o dia em que eu cheguei ao mundo, numa fria tarde em Alagoa Nova? Não, curioso, nem pense que vou dar aqui o ano do meu nascimento. E deixe de estar espiando a idade dos outros, que isso é muito feio. É negócio para velho que não tem o que fazer. Vê lá se uma criança ou um jovem se preocupa com a idade de ninguém... Esqueça, portanto, a sua idade, a idade dos outros, lembrando que a gente não sente a idade que tem, a gente tem a idade que sente.
Mas, voltando ao meu dia predileto, não é o domingo, é a quinta. Também namoro um pouco com a segunda, que para muitos é um dia muito amargo. Acho o sábado muito simpático, e tenho certeza de que se houvesse um plebiscito, o sábado seria eleito pela grande maioria. O sábado é o dia em que você aproveita para viajar, fazer compras, fazer o que não pode fazer nos outros dias. O sábado é tão forte que já está contaminando a sexta. Muita gente só está trabalhando na sexta de manhã. Até mesmo em certas repartições. A tarde é para a viagem, o lazer, o descanso, embora muitos assim não pensam. Aproveitam a folga para o trabalho. São os chamados “workaholics”, os viciados em negócios e nada de ócios.
Voltando ao assunto que vínhamos tratando, o espaço de tempo rigorosamente dedicado ao lazer, hoje, são: metade da sexta, sábado e domingo. E como eles interferem no nosso humor, na nossa disposição de viver! A alegria do brasileiro começa na sexta, cuja tarde é para arrumar as malas, que, como disse o poeta, ninguém é de ferro. Você já procurou um médico da sexta para o domingo? Difícil encontrá-lo. Deus me livre de adoecer nos fins de semana. A maioria dos nossos esculápios está nas chácaras e fazendas.
Agora chegou a vez da segunda. Poucos sorrisos no rosto, muita ressaca na alma e muitos telefonemas mal humorados! Mas, sabe qual é o motivo disso? É que pouca gente se prepara para a segunda-feira. Abusa do sábado e do domingo, come demais, bebe demais, e nada de se preparar para a luta que se inicia na segunda. Nada de um pouco de meditação, de reflexão, de leitura, de boa música, de boas caminhadas, de um contato mais íntimo com a Natureza.
Houve tempo em que a semana tinha seis dias úteis. Será, então, que o domingo é inútil? Inútil, sim, para quem não sabe utilizá-lo... A verdade é que a semana está reduzida a quatro dias e meio. Começa na segunda de manhã e termina na sexta no final da manhã...
Ah, os dias da semana! Como eles se parecem com as pessoas! E como as pessoas lhes sofrem a influência! E você, qual o seu dia predileto? Diga, e eu lhe direi quem é você.
20.9.15
13.9.15
N a coluna passada recordei as togas, isto é, os magistrados que admirei e com os quais convivi mais de perto. Voltarei ao assunto em breve,...
Na coluna passada recordei as togas, isto é, os magistrados que admirei e com os quais convivi mais de perto. Voltarei ao assunto em breve, pois há mais para falar sobre essas togas. Mas agora me deu vontade de recordar os professores que mais influíram na minha vida.
E lá vou eu mexer no passado, novamente, coisa que nem gosto muito de fazer, pois adoro o presente. Mas, como diz o ditado, recordar é viver, e vamos trazer à lembrança aqueles mestres que me fascinaram, não só com a palavra, mas sobretudo com o comportamento. A sabedoria sempre ao lado da ética. Foram professores que jamais diriam, ao se encaminharem para a sala de aula: “vou vender meu peixe”. Que prosaísmo!
Não sei por onde começar nessa gostosa evocação de meus tempos de estudante. Que tal o antigo Lyceu Paraibano? Foram tantos os mestres que me encantaram naquele antigo educandário...
E eis que me chega à lembrança o nosso Otacílio de Albuquerque: sempre muito bem vestido, muito asseado, a voz mansa e o giz escrevendo equações no quadro-negro. Como a Matemática se tornava fácil em sua boca! Com que dignidade ele se impunha durante a aula. Um silêncio de se ouvir a batida do próprio coração.
E vamos a outro professor. Que tal evocar o mestre Mauro Coelho, professor de História da Civilização, matéria que ele enfeitava com a sua imaginação, o seu bom humor e um profundo senso crítico. Sabia encobrir a verdade histórica com aquele manto da fantasia a que aludiu o velho Eça. Nas suas lúcidas preleções, duvido que alguém cochilasse ou bocejasse. Nada de retórica, nada de pedantismo erudito. O riso não faltava nos seus lábios, um riso que ele, discretamente, aparava com um lenço. Com aquela anedota, segundo a qual o impetuoso Pedro I teria sido acometido de uma forte cólica, antes de gritar o “Independência ou Morte”, fazia a turma sorrir. Lembrar que o sorriso faz parte de uma boa didática. Mauro Coelho foi fundador do jornal católico “A Imprensa”, exerceu o jornalismo e a advocacia para chegar a desembargador, no Rio de Janeiro.
Continuando nas lembranças, que tal falar do professor Manuel Viana, que me ensinou Metafísica, na Faculdade de Filosofia? Que talento para ensinar!... Entrava na sala vestido de paletó e gravata, mas com o seu entusiasmo didático, terminava tirando o paletó e a gravata, num meio strip-tease.
Quero terminar com o jurista Miguel Reale, no curso de especialização de Filosofia de Direito, na nossa Universidade. Pequeno de estatura, mas gigante na oratória. Ensinava andando pra lá e pra cá, numa desenvoltura que comovia.
E os outros mestres? Ah, foram tão admiráveis... Mas, ficam para outra oportunidade.
13.9.15
13.9.15
A h, de muita coisa. Tenho pena das pessoas frias, incapazes de um cumprimento cordial. Que parecem cegas para os outros. Tenho pena das pes...
Ah, de muita coisa. Tenho pena das pessoas frias, incapazes de um cumprimento cordial. Que parecem cegas para os outros. Tenho pena das pessoas frias, inabordáveis, que parecem trazer atrás das nádegas: o seguinte aviso: “Mantenham a distância”.
Tenho pena dos vaidosos, que se consideram melhores do que os outros. Que vivem com os olhos nos carros alheios, para ver se são do ano ou de melhor marca.
Tenho pena das pessoas sem paciência, que vivem reclamando tudo da vida. Reclamam do trânsito, da chuva, do sol, da falta de dinheiro, da falta de saúde, da falta de tudo, enfim.
Posso ter, e tenho, muitos defeitos, menos o da impaciência. Aqui para nós, eu sei esperar. A paciência é tudo. E há casos em que você é obrigada a esperar mesmo. Quando está interno num hospital, no caso da mulher grávida... E como ela sabe esperar o grito que vai sair de seu ventre. E não tenha paciência para ver.
Olhe bem, fale bem, e sua vida será outra coisa. E cuidado, muito cuidado mesmo, com uma moléstia chamada maledicência. A mania de falar mal dos outros.
A vida é bela. Nós é que a tornamos feia. Vou recomendar uma coisa que venho fazendo há muito tempo. Procure olhar bem. Olhe bem e tudo se iluminará. Muita gente não gosta do barulho das crianças, daquele corre-corre, dos gritos, daquela inquietação. Pois bem, olhando-as, Jesus disse: “Vinde a mim as criancinhas, porque dela é o Reino dos Céus”.
Tudo é uma questão de saber olhar a vida. Vamos, minha gente, vamos saber olhar. Lembrem do ditado: “O pior cego é o que não quer ver”. E da grande e poética frase que Jesus nos deixou quando nos convidou a “olhar os lírios do campo”. É o mesmo que dizer: olhai o amanhecer, a floração das árvores, o sorriso de um recém-nascido. Repito: Viver bem é olhar bem!
13.9.15
6.9.15
E eis que, mais uma vez, me hospedo num hospital, que não é outro senão o Memorial São Francisco, um modelo de hospital onde o tratamento c...
E eis que, mais uma vez, me hospedo num hospital, que não é outro senão o Memorial São Francisco, um modelo de hospital onde o tratamento cordial e humanizado é uma prioridade, graças à dedicação de seu diretor, Dr. Ítalo Kumamoto. Lembrar que a palavra hospital vem de hospedagem, se não me engano. E hospedagem é coisa boa.
Leio, ao sair de um supermercado, o seguinte lembrete: “Volte sempre”. Será que poderíamos dizer isto de um hospital? Evidente que sim. E feliz daquele que encontrar um hospital. Dizia o tribuno Alcides Carneiro: “Infeliz de quem procura um hospital e feliz de quem o encontra”.
Mas a beleza de um hospital está no silêncio. E silêncio é a melhor coisa da vida. É graças a ele que a gente pensa, que a gente reflete, já dizia um filósofo. E não há melhor adjetivo para qualificar o hóspede de um hospital do que “paciente”. O termo é exatamente este, para aquele que está enfermo e internado. E não seja paciente para ver... Pacientes os enfermos, pacientes as enfermeiras, pacientes os médicos.
Mas não é de hoje que sofro da coluna. Por causa dela já andei até numa cadeira de rodas, guiada pelo meu filho Germano, em plena Londres. E como passeamos!
Hospital vem de hospedagem, logo não pode ser coisa má. E como é bom ouvir a voz do silêncio, dentro de um hospital... Silêncio é, sem dúvida, a coisa mais bela da vida, e que anda cada vez mais rara.
Não esquecer o médico que cuida de mim, Dr. Ronald Farias, a quem confio minha coluna, com aquela fé que transporta montanhas, segundo o dizer evangélico. De coluna, ninguém entende mais do que ele.
Saí do hospital, como entrei: sorrindo. Mas, não vi nenhuma placa dizendo: “Volte sempre!”
E já ia me esquecendo do livro. Hospital também é bom pra ler. O chato mesmo é aquela mangueirinha do soro pregada no nosso braço...
6.9.15
5.9.15
Q ue togas são estas, cronista? Ah, os desembargadores que me deixaram inesquecível impressão, com quem convivi mais de perto. Disse toga, p...
Que togas são estas, cronista? Ah, os desembargadores que me deixaram inesquecível impressão, com quem convivi mais de perto. Disse toga, pois toga é a vestimenta de trabalho do desembargador, assim como a farda é do soldado, a bata é do médico, a batina do sacerdote, e assim por diante.
E como gosto de escavacar a memória, relembro aqui alguns desembargadores que me deram ótima impressão. Cada qual com o seu temperamento. E já estou vendo, sorrindo e falando alto, o desembargador Júlio Rique, que foi Juiz de Menores por muito tempo. Um homem alegre, cuja presença fazia bem. Nunca o vi zangado. Teve uma filha adorável, inteligentíssima, chamada Sílvia, que deixou uma série de crônicas sob o título: “Sabe da última?” Ah, como gostaria de vê-las publicadas... Sílvia adorava o pai.
Tragamos agora à memória um príncipe, que muito me encantou: Mário Moacir Porto, que foi juiz de Bananeiras e só usava roupa branca. Elegante, fino, culto, sempre bem-humorado, Mário Moacir jamais sairá de minha memória. Lia minhas crônicas e dizia que eu tinha uma grande admiração pelas mulheres. A verdade é que Mário Moacir teve grande importância na minha vida.
Publicou um excelente livro de iniciação ao Direito, de uma didática admirável. Chegou a ser meu ídolo. Convidei-o para apresentar o lançamento do meu livro “O Papa e a Mulher nua”, e ele aceitou. Com muito humor, perguntou se eu desejava indispô-lo com a Igreja. E fez uma apresentação muito bem humorada.
E quem está chegando à imaginação é o desembargador Paulo Bezerril. Um admirador da música clássica. Tocava flauta e chegou a integrar a nossa Sinfônica. Foi um grande amigo meu, e também era cheio de humor. Dizia que as três coisas boas da vida começam pela letra M: Mar, Mulher e Música.
A consciência me pede citar o desembargador Flodoardo da Silveira, homem íntegro, que não cheguei a privar de sua intimidade. Certa vez, ele me presenteou com o livro clássico “O Ateneu”, de Raul Pompéia. Flodoardo falava pouco e ouvia muito. Se alguém lhe fizesse qualquer consulta jurídica, ele respondia: “O que diz a lei? Legalista cem por cento.
Outro que muito admirei foi o desembargador Severino Montenegro, que chegou a administrar o nosso Estado, durante a Ditadura. E outro grande mestre foi o inesquecível e genial Flósculo da Nóbrega. Muito culto, reservado e respeitadíssimo por todos. Deixou-nos um livro de introdução ao Direito que é um modelo de boa didática.
Encerro a crônica lembrando Pedro Damião, um desembargador simples, cujo grande prazer era, quando deixava o Tribunal, ir buscar o neto para passear. Um homem de uma simplicidade fora de série.
E a mulher desembargadora? Naquele tempo a saia não vestia toga, muito menos chegar à presidência, como foi o caso da desembargadora Fátima Bezerra, que foi minha aluna, na UFPB, com muita honra.
Mas, de todos os desembargadores, os que mais me ensinaram, por sua postura, foram o Mário Moacyr Porto e Paulo Bezerril. Paulo Bezerril não gostou quando soube que eu seguira a Magistratura. Chegou a dizer: “você na magistratura, levando a vida no interior, é como uma moeda que a gente joga no mato”. Mas, o que me agradava era vê-lo com sua flauta, na Orquestra Sinfônica, de que foi um dos fundadores...
5.9.15
31.8.15
Está pensando em comprar uma lembrancinha engraçada e criativa para aquele amigo nerd ou para o colega de trabalho? Dê uma olhadinha nessa...

Está pensando em comprar uma lembrancinha engraçada e criativa para aquele amigo nerd ou para o colega de trabalho? Dê uma olhadinha nessas lojas que vendem umas coisas bacanas e malucas. Talvez você encontre um boa inspiração nelas...
31.8.15
31.8.15
A beleza da vida está na diversidade. Deus sabe o que faz. Já imaginaram um mundo de pessoas iguais, coisas iguais, comportamentos iguais?....
A beleza da vida está na diversidade. Deus sabe o que faz. Já imaginaram um mundo de pessoas iguais, coisas iguais, comportamentos iguais?... Seria um inferno de monotonia, de tédio, de chatice. Daí as diferenças. Daí eu gostar de coisas que você não gosta. Mas, nem por isso vamos ficar distantes, hostis, indiferentes. Se você aprecia a cor azul e eu a vermelha, se você adora luta de boxe e eu o balé, se você detesta cidade grande e eu viva sonhado com uma fazendinha no interior, ouvindo o mugir das vacas e o canto dos passarinhos, que mal há nisso?
Se convivermos bem com uma pessoa não é porque ela pensa e age como nós. Talvez seja o contrário. Isto não significa que os dois sejam diametralmente opostos. Em toda amizade, em todo relacionamento mais íntimo, existem alguns pontos de contatos, de sintonia, de aproximação. Quando os dois são muitos iguais não tem graça. Lembrar que vivemos nos completando uns aos outros.
Há casais por aí, ajustadíssimos, vivendo na maior paz, embora sejam de temperamentos diferentes. E nisso é que está o mérito. cabe a cada um fazer uso da compreensão. Onde houver compreensão não haverá conflito. Compreender é perdoar tudo. Não queira que o outro seja igual a você, que pense como você, que aja como você. Cada um como Deus fez, ou melhor, como a evolução fez. A coisa mais difícil da vida – disse um psicoterapeuta – é você ser como os outros querem que você seja.
Certa vez, Jesus e seus discípulos – narra uma fábula – saíram a procura da cidade de Dalmanuta. Andaram, andaram e nada. Até que encontraram um homem deitado sob uma árvore. “Onde fica Dalmanuta? - Indagou Jesus ao homem. E ele quase que não respondeu, por preguiça. Assim, mesmo, levantou o pé e disse – “Fica por ali”... Jesus sorriu e continuou caminhando. Mais adiante, avista uma mulher em plena atividade doméstica, cuidando da comida e dos filhos, em sua humilde choupana. “Onde fica Dalmanuta?” – perguntou o Mestre – E ela, logo que avistou Jesus, limpou as mãos no avental, deixou todo o trabalho, e saiu a mostrar o caminho. Andou um bocado. Finalmente, apontou para o lado onde estava a cidade. Os discípulos ficaram admirados com tanta boa vontade. Jesus também. Como a mulher foi solícita, ativa, prestativa, solidária!
E saíram eles em direção a Dalmanuta, quando, a certa altura, um dos apóstolos pergunta: “Mestre, tive pena daquela mulher, parece sem marido... Bem que merecia uma companhia. Por fim veio a indagação: “Com quem ela deveria se casar”? Jesus sorriu e respondeu: “Com aquele preguiçoso”.
E teve razão Jesus. O homem da estrada muito teria de aprender com aquela mulher. Cada um de nós ensina com o exemplo, a nossa singular maneira de ser. O preguiçoso da fábula talvez tivesse outras virtudes. Toda a pessoa tem o seu lado positivo.
É na diferenciação que está o encontro da vida. O que seria da luz se não fosse a escuridão? Saber manter o equilíbrio dos contrastes – eis em que consiste a arte de viver!
31.8.15
30.8.15
E m todo aniversário, já viu, o telefone tocava e lá vinha a voz amiga, desejando-me muitos anos de vida. E dizia mais. Dizia que eu continu...
Em todo aniversário, já viu, o telefone tocava e lá vinha a voz amiga, desejando-me muitos anos de vida. E dizia mais. Dizia que eu continuasse sendo o homem que sou. Dizia isso com tanta sinceridade, que me deixava emocionado e encantado. Bastava eu completar mais um ano de existência, e lá vinha ele com sua mensagem fraternal, sincera, que terminava sempre com um “Deus o conserve sempre conosco”.
Jamais meu aniversário passou sem seu telefonema desse amigo, o que muito me comovia. E eu não fazia o mesmo com ele.
Ia dizer o nome dele, mas deixemos para o fim. Sua profissão era de livreiro e a sua livraria, que se chamava “Livraria Acadêmica”, primeiro ficava no térreo do “Paraíba Palace Hotel”, depois se transferiu para a rua Duque de Caxias. Lembrar que ele exercia a função de livreiro juntamente com a de advogado. E como advogado, gostava de discutir.
Repito, em todo meu aniversário (não escapou um) lá vinha sua voz amiga desejando-me felicidades, o que muito me comovia. Mensagem que vinha do coração, sincera. E eu nunca fiz o mesmo. Não sabia nem o dia de seu aniversário.
Acontece que o tempo foi passando, até que chegou o dia de seu silêncio, isto é, eu fiz aniversário e nada de seu telefonema, de sua mensagem. Eis um silêncio que mexeu comigo.
O que será que houve com o meu amigo? Cadê aquela voz suave me desejando muitas felicidades? Não, não quero dizer o seu nome. Só sei que seu silêncio me deixou triste. O que foi que houve? Não desejo revelar o seu nome, aqui, mas fiquei muito triste, profundamente triste.
Um homem sincero. Sincero e sério, esse nosso amigo era um exemplo de bom caráter. Adorava discutir, debater, como bom advogado que era. Sempre na defesa das boas causas.
Faz tempo que ele não telefona para mim, no meu aniversario. O que terá havido?...
30.8.15
23.8.15
P ois é, certa manhã, chega o meu neto, por telefone, me pedindo para ajudá-lo numa tarefa escolar. Tratava-se de uma entrevista com o avô, ...
Pois é, certa manhã, chega o meu neto, por telefone, me pedindo para ajudá-lo numa tarefa escolar. Tratava-se de uma entrevista com o avô, que, decerto, sabe mais coisa do passado do que ele, que ainda está com poucos anos de caminhada existencial.
“Vô, o tema é sobre o que é que já não existe mais, hoje em dia?” - Com essa intimação amável, ele começou a me entrevistar sobre costumes, indumentária, divertimentos e outras coisas de antanho.
Conquanto não seja um homem apegado ao passado, gostei daquele papo virtual. E assim, fui atendendo à curiosidade do menino, que, apesar de muito jovem, já participa de campeonatos de xadrez, é craque na Internet e que, quando era pequeno, vez por outra, vinha com perguntas embaraçadoras. Perguntas como esta: “quem é que escova os dentes do leão da Bica?”
Mas, vamos, aqui, no espaço exíguo de uma crônica, informando algumas coisas que hoje não se veem mais. Comecemos pela indumentária. Outrora não se via mulher vestindo calça comprida, muito menos a calça tipo jeans, que, quanto mais desbotada e esfarrapada, melhor. Mulher só usava saia e pronto, assim como padre só vestia batina preta e rezava a missa em latim.
E que dizer da bengala? Sim, para completar a elegância masculina, usava-se a bengala como ornamento, sem esquecer o chapéu, seja de massa ou de palhinha. E o chapéu estava tanto nas cabeças masculinas como femininas. Relógio só de algibeira. Era chique exibi-lo para consultar as horas.
Transporte coletivo? Ah, tínhamos os bondes. Bondes de Tambiá, Trincheiras, Cruz das Armas, Oitizeiro, Varadouro... E que segurança eles ofereciam! Vejamos mais. Veio-me agora o dente de ouro. Hoje ninguém o vê mais. O dente de ouro chegava a acompanhar o defunto. Ninguém o arrancava. Dava status.
O neto está pedindo mais, morrendo de rir. E vem a lembrança do cinema mudo, já imaginaram?... Isso mesmo, cinema mudinho da Silva. E havia quem o adorasse. E as refeições? Outrora a família comia reunida com todos os seus membros. O pai na cabeceira, a mãe ao lado, seguindo-se o filho mais velho e os demais. E que silêncio, que respeito! Havia mais ceia do que jantar. E ceia larga com inhame, batata doce, macaxeira, mungunzá, cuscuz e o delicioso pão francês.
Pijama, ceroula, também já não existem mais. Será que se acabou a “camisola do dia”, tão comum naquele tempo? Outra coisa em extinção: o solene pedido de casamento. O noivo chegava para o pai da moça e pedia, todo encabulado, a mão da filha...
Continuemos nossa conversa telefônica. Falemos agora dos ecológicos e bucólicos quintais, hoje em extinção. Desapareceu a terra sob os pés. Nos edifícios de apartamento não há mais lugar para os animais domésticos.
Antigamente... Mas, o garoto está me dizendo que o tamanho do texto já chegou no limite. Fiquemos por aqui. Ele cumpriu sua tarefa didática e eu a de cronista. E viva a vida que não pára. A vida que está sempre mudando. Viva a eternidade do efêmero.
23.8.15