Ninguém terá acesso ao Dr. Alex Monteiro sem passar antes pela secretária, Dona Clotilde, a megera, a guardiã feroz, que exigirá o tema da conversa para por em pauta, e após rabiscar – ou fingir rabiscar – algo num papel, apertará o botão de uma cigarra por baixo do tampo da mesa e irá se erguer, dizendo um Aguarde, para se dirigir então ao corredor com várias salas, logo à frente da sua, e ali buscar a porta dos fundos, distinguida pela tabuleta de metal com o aviso: Diretor-Presidente.
Qual o melhor caminho diante de uma realidade irrefutável?
Depende daquilo que se quer fazer com o curto período de caminhada pelo planeta Terra.
O viver é um universo de liberdade pessoal, além de ser irrepetível e, consequentemente, único. Viver em dois mundos (ou seja, pé no chão e cabeça nas nuvens) é, na verdade, não vivenciar aquilo que precisa para o despertar.
Fernando Triviño
Quando todas as certezas se desmancham, o sofrimento toma a forma da pior crueza. Além de fazer desabrochar questões que nem a fé consegue suprimir.
Nesse início de Ano Novo, ainda em tempos de férias, vislumbro o que a humanidade vem amargando nesses tempos dramáticos. A medicina de uma forma especial, vem sendo muito aviltada e mal interpretada nos seus mais sublimes e eloquentes pilares, em outras épocas nunca atingidos, motivo pelo qual, achamos pertinente trazer à baila esse tema tão palpitante para os dias atuais.
Não tem sido fácil escrever fora do meu tempo. Não só escrever, viver mesmo. Não é de hoje esta minha dificuldade. Começa com o comportamento externo ao meu, a desatualização no dia-a-dia, e se agrava com a linguagem, que é outra, de outro mundo, outra cultura, tanto para ler, ouvir, andar e mesmo ver. Quem é aquele? Que significa “streaming”? Vocês entregam em domicílio? A moça não sabe que entrega é essa.
Os passos largos e rápidos da humanidade no campo da ciência e da tecnologia conduziram o sujeito tapado que sou a ambientes profissionais habitados por cpu's, processadores, drives e memórias ram, esquisitices com as quais tenho convívio forçado até no santo recesso do lar. Pois é, isso há muito pulou dos centros de pesquisa, redações de jornal, circuitos fabris e repartições públicas para as nossas casas e nossas camas.
Sócrates (469-399 a.C.) foi o exemplo vivo de como o pensamento crítico realmente incomoda as estruturas de poder de uma sociedade. Seu nome é um dos mais difundidos na cultura ocidental. Sua atitude de humildade diante do conhecimento resiste até nossos dias.
Para quem pregava que o corpo era a imagem da alma, poder-se-ia dizer que Sócrates não servia como um exemplo a ser analisado. Para muitos, portanto, a fealdade dele não se coadunava com sua pureza moral. Contudo, sua aparência é apenas
Camões escreveu que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. O poeta quer dizer com isso que nosso desejo é mutante. O que queremos hoje podemos rejeitar amanhã, e o que agora desprezamos pode no futuro ser objeto do nosso mais ardente empenho.
Essa verdade vale também para as palavras. Não que elas possam desejar alguma coisa. Palavras não são gente. Mas o prestígio de que desfrutam varia muito, refletindo a nossa forma de sentir o mundo.
Reduzir nossas energias até o esgotamento é um problema que interfere em todas as áreas da vida, e nos leva a sensação de cansaço extremo, falta de energia e motivação pra realizar tarefas diárias. Isso tudo é uma consequência do Burnout, que é um transtorno de ansiedade no contexto exclusivamente laboral, ou seja, a causa do estresse é a relação com o trabalho.
A morte do meu marido fez com que eu descobrisse
o sofrimento. Sofri com a solidão, com a injustiça de
Deus ao tirá-lo de mim e de meus filhos. Sofri pela
revolta ao saber do nunca mais. Sofri por não saber
viver neste mundo sem ele. Sofri pelas lembranças
de tantos anos de abraços, beijos, de corpos tão
juntos, de tanto calor compartilhado. Sofri por um
tempo tão feliz.
Gratidão, essa palavra-tudo. Assim a definiu Drummond, com sua capacidade de síntese. Para mim, pobre pecador, é a virtude maior, que persigo, embora humanamente sujeito, como seria de esperar, a falhas e esquecimentos. Agradecer sempre que possível, reconhecer e proclamar as benfeitorias e bondades recebidas, enaltecendo aqueles e aquelas que algum bem nos fizeram, mínimo que seja. E se as circunstâncias permitirem, que as graças sejam dadas expressamente, com todas as palavras, em som e em letras, para que todos saibam do benefício, do beneficiado e do benfeitor. E, se for o caso, que o louvor se manifeste apenas no silêncio do coração, última tribuna de que dispomos para expressar, só para nós mesmos, os agradecimentos que não puderam vir à luz.
Do alto da Serra do Cruzeiro, na cidade de Alagoa Grande-PB, o olhar pra cidade, panoramicamente, gera um raro prazer. Mas, quem olha a serra de longe, sente doer na vista, e mais ainda na alma, o que a insensibilidade do homem pode fazer.
Hoje os habitantes e visitantes erguem-se pra ver a serra, essa que era chamada Serra do Santo Cruzeiro, e esbarram numa agressão absurda.
No mais famoso diálogo d'A República, de Platão, Sócrates induz Glauco e Adimanto a imaginarem uma caverna onde humanos estão presos desde a infância. Suas pernas e pescoços estão acorrentados, de modo que só enxergam o que está diante deles.
Na caverna há uma entrada pela qual chega a luz de uma fogueira acesa na colina que se ergue por trás dos acorrentados. Entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada, na qual há um pequeno muro.
Nunca fiz listas de intenção para o Ano Novo. Também não faço retrospectiva do ano envelhecido... Entretanto, um misto de alegria e esperança vai surgindo com a aproximação do novo ciclo, como se realmente algo pudesse mudar para melhor. Pelo menos tenho sempre o desejo de melhorar um pouquinho, mesmo que não esteja na lista.
Uma amiga querida, Paloma Diniz, afirma que tenho uma excelente agenda mental, e, pensando bem, concordo com ela. Fica tudo na mente: sobrecarregada de tanta culpa, medo, insegurança, curiosidade, alegria, raiva, contentamento, anseios, dor pelos que partiram, seja pela desencarnação ou por outros inúmeros motivos que só dizem respeito a eles.
Nunca mais falarei com tal franqueza sobre fatos que possam me indispor com alguém ou evocar momentos que deveriam estar apenas comigo, não necessariamente que me digam respeito ou que tenha participado, mas que presenciei e que de uma certa forma me surpreenderam.
É uma forma de me poupar e de evitar divulgar questões que apesar de surpreendentes abalariam conceitos de pessoas consideradas digamos, integras ou acima de suspeitas ou de ambiguidades. Que o silêncio exerça sua função e preserve atitudes desconcertantes para um indivíduo ou um grupo.
Voltemos a Victor Hugo. Desta vez, não peço mais desculpas ao meu leitor. Não é por desatenção, mas porque este texto é a complementação do anterior, Traduzindo uma página de Victor Hugo ou o Titã-Anão. Hugo é grande, sua grandeza literária e humana ultrapassa todas as barreiras, destacando-o de uma miríade de escritores medíocres, que sequer fazem sombra a seu calcanhar. Movido por essa grandeza, ele escreveu grandeza maior, Os trabalhadores do mar (todas as referências serão retiradas da edição Notre-Dame de Paris/Les travailleurs de la mer; textes établis, présentés e annotés por Jacques Seebacher et Yves Gobin, Paris: Gallimard, 1975).
VARREDURA
Hora
de limpar
gavetas
entulhadas,
descartar
remédios
vencidos,
separar
os vestidos
que não
cabem mais
no corpo
crescido.
Hora
de refazer
os planos,
entregar
os pontos
do que
não foi
resolvido.