No alto da escadaria, imóvel como uma estátua ferida pelo tempo, Norma Desmond, a diva do cinema mudo, personagem de Crepúsculo dos Deuses, não se conforma com o avanço do cinema.
— O que vamos fazer agora que o cinema é falado? Isso não pode acontecer...
GD'Art
— No meu tempo é que era bom.
Mas o tempo não pede licença. O trem a vapor virou metrô. O rádio virou podcast. A vitrola virou playlist. O fio virou wi-fi. Os arquivos agora são armazenados nas nuvens, acessíveis de qualquer lugar.
Como cantou Elis Regina: “É você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem.”
E ele vem mesmo.
Imagine atravessar a cidade apenas para preencher uma ficha. Hoje, podemos fazer inscrição online, de casa. Pedir a segunda via de um documento já não significa enfrentar filas intermináveis; pode-se imprimir no site. Pedir um táxi à noite não exige ir à rua, basta solicitar pelo aplicativo. Não é mais necessário correr do trabalho para não perder a novela; pausa-se, retoma-se, vê-se depois. Nem esperar, resignados, os comerciais acabarem. Agora se “pula anúncio”.
GD'Art
Certa vez, ao comentar com meu pai, em seus gloriosos oitenta anos, uma novidade que eu vi na televisão, ouvi dele a resposta:
— Faz tempo que não assisto TV, meu filho. Vejo tudo aqui pelo TikTok.
Os vovôs também atravessam o presente.
Há, nisso, um certo alívio. Ter lembranças é bom. Ter saudade é humano. O passado permanece como memória; mas o presente é a experiência em curso. Cada tempo traz seus limites e suas possibilidades. O de ontem teve os seus. O de agora está acontecendo.
O novo sempre vem. E que venha.







