Maria de Lourdes Hortas nasceu em São Vicente da Beira (Portugal) e, aos dez anos, mudou-se com a família para o Recife (PE), onde vive até hoje. Ao longo de mais de cinquenta anos de produção poética, publicou diversos livros de poesia, organizou antologias, editou revistas literárias e atuou como articuladora cultural na cena literária pernambucana e brasileira.
Maria de Lourdes Hortas, poetisa portuguesa, ficcionista premiada, radicada em Recife (PE) desde a infânica ▪️ Facebook: @mariadelourdes.hortas.9
A poesia de Hortas é frequentemente descrita como um lirismo despojado, direto e sensorial — um lirismo que não se esconde em complicações estilísticas, mas que busca expressar a experiência do viver com clareza e profundidade.
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▪️ a memória da infância e da terra natal (eco das raízes lusitanas mescladas à vivência brasileira);
▪️ o cotidiano e o natural, com imagens de chuva, vento, flores e céu;
▪️ a fé e a existência, que aparecem em poemas quase confessionais, mas com universalidade.
Maria de Lourdes Hortas, "versos que nascem da intimidade para alcançar significados universais" ▪️ Facebook: @mariadelourdes.hortas.9
Em muitos poemas, há uma tensão entre o eu lírico e o mundo exterior: mesmo quando seus versos nascem da intimidade (saudade, infância, memória), eles ressoam de modo a alcançar significados universais.
Um crítico chegou a falar de sua poesia como “épica da alma”, porque ela conjuga sentimento pessoal com reflexões profundas sobre o que é viver:
“O que eu quero realmente
é pôr à tona
a alma do mundo
translúcida como fonte…”
Esse olhar mostra que a poesia de Hortas não se limita ao “eu”: ela alcança uma dimensão que ilumina o leitor e instiga a reflexão.
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Essa opção se conecta com uma tradição lírica mais direta, em que a poesia respira, observa e toca — sem se perder em abstrações desnecessárias.
Embora profundamente lírica, sua poesia dialoga com a tradição poética (imagens da natureza, memória, intimidade) e com práticas modernas (verso livre, sensibilidade existencial). Ela transita entre o clássico e o contemporâneo, entre o Portugal ancestral e o Recife moderno, fundindo — sem rupturas bruscas — diferentes horizontes culturais.
Entre os temas recorrentes, destacam-se:
▪️ memória e identidade — a saudade da infância e a relação entre passado e presente;
▪️ natureza e elementos sensoriais — chuva, vento, cores, luz, pássaros;
▪️ fé, espiritualidade e sentido de vida — como uma romaria interior;
▪️ tempo e transitoriedade — reflexões sobre existir, morrer, renascer;
▪️ corpo e sensações humanas — presença física e emocional dos sentidos.
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“Porque sou de terra
preciso de chuva
e, para ser verde,
eu tenho sede.”
Maria de Lourdes Hortas, "poesia que transita entre o clássico e o contemporâneo, entre o Portugal ancestral e o Recife moderno" ▪️ Facebook: @mariadelourdes.hortas.9
Esse tipo de construção tem forte impacto imagético: a metáfora não é só visual, mas também sensorial. A “sede” aqui não é literal — é o anseio profundo de sentir e viver.
Como poeta luso-brasileira, Hortas ocupa um lugar singular: ela representa uma ponte entre tradições — a portuguesa de origem e a brasileira de formação e recepção.
Sua obra convida à leitura contemplativa e reflexiva, sendo um exemplo significativo de como a poesia pode trazer o íntimo para o universal, sem perder simplicidade nem profundidade.
Traje
Quando vou à romaria,
à festa da poesia,
uso o traje apropriado,
com saiote de quebranto,
colete de labirinto,
alva blusa de ternura,
cinto cor de manuscrito.
Vou formosa e insegura
por veredas de verdura.
No pote do coração,
carrego a água mais pura
de fonte da solidão,
de torrente de amargura.
Com traje de romaria,
ponho o xale bem cruzado
e, com sua da Mouraria,
escrevo cantando o fado.












