Está chovendo na horta do Cinema Nacional. Vivenciamos nos anos 20 do século XXI a renovação de uma estratégia cinematográfica, que se irradia nas experiências estéticas, poéticas e catárticas, oferecendo biscoitos finos para as massas. Não é de pouca monta a reconciliação do cinema brasileiro com a audiência nacional e sua ressonância no mercado mundial. O Brasil tem se projetado bem, como demonstram as premiações nos Festivais de Cannes, Berlim,
Walter Salles com a estatueta do Oscar na cerimônia de 2025, após a consagração de Ainda estou aqui, filme que reafirmou a trajetória internacional do diretor. ▪ Fonte: FilmMagic
Veneza e a conquista do Oscar (2025). Mas, no curso da história, houve (e há) pedras no caminho do cinema nacional.
Relembramos que houve uma ruptura na trajetória do cinema brasileiro, quando a ditadura militar (1964-1985) utilizou a repressão e a censura que desmantelaram as estratégias progressistas do social, orientadas para o princípio democrático, com prejuízo para a inteligência brasileira, produção artístico-cultural e para o cinema nacional. Graças aos movimentos sociais a ditadura foi derrubada (desde as ‘Diretas-Já’), e apesar da anistia aos tiranos, reiniciamos um novo processo de redemocratização.
Este processo foi prejudicado outra vez na gestão Collor (1990-1992), que extinguiu a EMBRAFILME e o CONCINE, realizando uma devastação na área audiovisual, que só foi reconstruída a partir da gestão de Itamar Franco e com 'Cinema da Retomada', nas obras Carlota Joaquina (1995), Central do Brasil (1998), O Auto da Compadecida (2000), Bicho de ‘Sete Cabeças (2001), Abril Despedaçado (2001) e Cidade de Deus (2002).
Fonte: Imdb
E mais recentemente, houve – outra vez –retrocessos nos campos da educação, da cultura e do audiovisual, desde as gestões de Michel Temer (2016/2018) e Jair Bolsonaro (2019/2023), a rigor, sob o signo do neoliberalismo com matizes fascistas. A Educação, a Ciência, as Artes e o Jornalismo, basilares no cerne da civilização (no Brasil e no mundo), têm apresentado sinais de crise, retração e decadência, e estes são sintomas do ‘espírito do tempo’ minado pela anomia, violência e barbárie generalizada.
Entretanto, a contemplação do mundo pelo viés da história, da memória social e do resgate dos acontecimentos, traduz uma melhoria da qualidade de vida mental, a parte nobre da humanidade, o instante eterno de felicidade do jardim público.
Fonte: Imdb
Quando o homo sapiens logra conciliar a ordem das coisas e a harmonia do universo, desenha-se um certo equilíbrio que permite o enfrentamento das adversidades, do caos social e cósmico.
Considerando a fragilidade da nossa democracia, durante os regimes autoritários de Temer e Bolsonaro, o cinema brasileiro foi prejudicado. Não houve exatamente censura, mas cortes de orçamento, perseguição, boicote e sabotagem por parte dos órgãos públicos e das autoridades competentes, conforme demonstram as ações contra os filmes Aquarius (2016), A vida invisível (2019), Marighela (2021), entre outros.
Com o fim da gestão da extrema direita, vivenciamos um retorno do cinema brasileiro (com sucesso de público e de crítica), e de alto nível, sendo reconhecido pelos mercados, produções e plateias internacionais, tanto no gênero documentário, vide os títulos O Processo (Maria Agusta Ramos, 2018), ‘Democracia em Vertigem’ (Petra Costa, 2019) e Apocalipse nos trópicos (Petra Costa, 2025), quanto no gênero ficcional, como é o caso de Ainda Estou Aqui (o grande premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2025).
Fonte: Imdb
São inúmeros os exemplos, mas aqui o nosso interesse e volta para uma leitura do filme O Último Azul, sublinhando alguns aspectos fundamentais que estruturam a sua elaboração, quais sejam:
▪ O foco no envelhecimento feminino, sua fragilidade e fortaleza, e suas estratégias de fuga e viagem de autodescoberta em um ficcional ‘futuro do presente’ da sociedade brasileira;
▪ O sonho de voar e o desejo de liberdade de uma anciã, num Estado autoritário, que sob o pretexto de proteção, persegue os velhos de 75 anos como se
fossem ‘vira latas’ fisgados pela carrocinha;
▪ A coragem de lutar pela sobrevivência, a atitude de enfrentamento e resiliência das mulheres veteranas face às adversidades; a ruptura com os valores conservadores, que podam a liberdade.
SINOPSE: Em um Brasil à beira do distópico, o governo decreta que todos os idosos sejam transferidos para colônias habitacionais remotas, sob o pretexto de garantir uma velhice "digna". Tereza (Denise Weinberg), uma mulher de 77 anos, é intimada a partir — um exílio compulsório que marca o fim da sua liberdade. Mas, antes de se render ao destino imposto, ela decide embarcar em uma última jornada pelos rios da Amazônia para realizar um antigo sonho: voar pelos céus. Fugindo da família e da realidade opressiva, Tereza parte sozinha, guiada por um desejo de liberdade e transformação. No caminho, conhece personagens marcantes, como o enigmático marinheiro Cadu (Rodrigo Santoro), que lhe apresenta o raro caracol Baba Azul — uma criatura mágica que deixa um rastro brilhante e que, quando seu brilho é colocado nos olhos, permite vislumbrar o futuro. Em uma viagem entre o real e o fantástico, Tereza descobre que ainda é possível mudar o próprio destino — mesmo quando tudo parece decidido.
Wikipedia, 2026
Rodrigo Santoro (Cadu) e Denise Weinberg (Tereza) em cena de O Último Azul (2025). ▪ Imdb
A dimensão esclarecida do pensamento crítico e progressista, reside – certamente - em seu aspecto inteligente e solidário na substância cognitiva e cultural, o que não é pouca coisa em um contexto sociocultural e político que se norteia pelo individualismo, egoísmo, competição, indiferença, consumismo e infoentretenimento sem fim; daí a importância de do cinema enfrentar a complexidade de um tema incontornável na existência humana, ou seja, o envelhecimento.
2. Os Velhos na Literatura do Brasil e do mundo
Logo, apostamos numa nação que pode se emancipar, desenvolver-se e se democratizar por meio da convergência das artes, mídias e letras. Nesse sentido, colocando na pauta do debate cultural a questão geracional, o envelhecimento na sociedade brasileira, caberia recuperarmos a memória de alguns clássicos sobre o tema, antecipando pela via da criação literária um enfoque que deverá incidir principalmente no cinema.
Dentre várias obras literárias, citaríamos o livro Ensaios sobre a Velhice (do filósofo latino Sêneca), reflexões clássicas sobre a maturidade. Em seguida, resgataríamos a obra A velhice (Simone de Beauvoir) que lança uma mirada social e histórica sobre o envelhecimento. E também, A morte de Ivan Ilitch (Tolstói), reflexão sobre a finitude. Incluiríamos na lista A revolução da longevidade (Alexandre Kalache), que mescla o papel da ciência e as políticas públicas. Conviria adicionar o livro Como envelhecer (Anne Karpf) que aborda o aspecto cultural do envelhecimento. No campo da ficção e autoconhecimento, relembramos a obra Para sempre Alice (Lisa Genova) que retrata um caso de Alzheimer. Destacamos igualmente a narrativa ficcional O velho e o mar (Hemingway), focando a resiliência na velhice. E enfim, Cem, o que aprendemos na vida (Heike Faller) que apresenta lições sobre o amadurecimento.
Sua leitura viria a suprir uma lacuna que traduz a falta de conhecimento, preparo e abertura de espírito por parte dos jovens (e veteranos) para lidar com a experiência da velhice, numa nação cujos habitantes idosos já fazem parte da maioria da população. E apostamos que a convergência das experiências da leitura e a audiência dos filmes sobre o tema repercute de maneira bastante positiva.
O filme de Mascaro foi indicado ao prêmio Urso de Ouro, na categoria de Melhor Filme no Festival Internacional, de Cinema de Berlim (2025). Ganhou os troféus de Melhor
O cineasta pernambucano Gabriel Mascaro segura o Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale), prêmio recebido em 2025 por O Último Azul. ▪ Imagem: Filmfestspiele
filme nos Festivais de Guadalajara e de Havana. Rodrigo Santoro ganhou o prêmio Urso de Prata, na categoria Melhor Ator, em Berlim, 2025. E abriu a 53ª edição do Festival de Cinema de Gramado, em agosto de 2025.
É de grande importância a premiação em festivais internacionais, mas o principal é que o filme seja visto pelos brasileiros e públicos mundo afora, que seja bem distribuído no Brasil e conquiste grandes audiências porque essa é uma maneira de informar, educar, politizar e divertir as plateias nacionais.
A TV Globo tem sido por décadas quase o único meio de informação e entretenimento de massa a elaborar as representações da velhice, e mais recentemente a internet e as plataformas de vídeo têm se inserido na audiência popular. Mas o ‘exercício de ver’ o filme na tela grande, no escurinho do cinema, com boa acústica e visibilidade, implica em investimentos estéticos, sensoriais e cognitivos, refinamento da percepção, matiz de uma experiência fundamental em termos poéticos, estéticos, catárticos e um dispositivo de elevação da qualidade de vida mental.
3. As imagens da velhice no cinema
No universo de Hollywood historicamente não há papéis de destaque para os velhos, pois a indústria cultural se nutre da substância que emana do mito da juventude, beleza e longevidade, que caracteriza os astros e estrelas do cinema como
Gloria Swanson (1899–1983) em cena de Crepúsculo dos Deuses(Sunset Boulevard, 1950), clássico de Billy Wilder. No papel da decadente estrela Norma Desmond, a atriz criou uma das personagens mais memoráveis da história do cinema.
‘olimpianos’, como escreve Morin, na obra As Estrelas (1989). E nesse contexto, Hollywood tem sabido tirar proveito da crise do envelhecimento. O seu ícone paradigmático talvez seja a personagem de Norma Desmond (interpretada pela atriz Glória Swanson), no filme O Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950). Em cena, uma ex-estrela do cinema mudo se recusa a aceitar que seu tempo passou, resultando em dramático confinamento, frustração mórbida e assassinato.
Recentemente, o filme Substância faz uma corrosiva sátira da obsessão das mulheres pela eterna juventude, transformando uma bela modelo, já madura, que se torna abjeta e monstruosa devido ao abuso de uma substância tóxica que deveria rejuvenescê-la. A propósito, tratamos do tema no texto ‘Beleza e feiúra no filme farmaco-trash-pornô – ‘A Substância’ (Paiva, 20.12.2024).
Demi Moore em cena de A Substância (The Substance, 2024). No filme dirigido por Coralie Fargeat, a atriz interpreta uma celebridade em crise diante do envelhecimento e da pressão da indústria da beleza, numa narrativa provocadora que mistura drama, sátira e horror corporal.
Entretanto, toda regra tem exceções, pois há os cineastas sensíveis à condição humana, ao envelhecimento e incluem os idosos nos seus projetos.
Era uma vez em Tóquio (Yasujiro Ozu, 1953) é um clássico do cinema japonês sobre o envelhecimento, e serve de referência para várias gerações de cineastas, empenhadas em traçar um perfil do velho no cinema.
Setsuko Hara (1920-2015) e Chishū Ryū(1904—1993) em cena de Era uma vez em Tóquio (Tokyo Story, 1953), obra-prima de Yasujirō Ozu. O filme acompanha um casal idoso que visita os filhos na capital japonesa e se depara com a distância afetiva da vida moderna, numa das narrativas mais delicadas e universais da história do cinema.
Há um vasto repertório de filmes nacionais que tematizam a velhice. Suas imagens são múltiplas e multifacetadas. De um lado, há as imagens das vovós sábias, cômicas, virtuosas, heroínas; no lado oposto, há as representações das velhas chatas, vitimistas e encrenqueiras. A mídia de massa tende a fazer a média e se empenha em “salvar a mátria”, elaborando uma configuração da velha bem humorada, aventureira, divertida e as vovós geralmente cúmplices dos netos, mediando o eterno conflito de gerações.
4. Velhas e velhos no cinema nacional
Ocorre-nos lembrar o filme Chuvas de Verão (Cacá Diegues, 1978), em que uma dupla de velhos aposentados goza as delícias de uma paixão amorosa. Na obra Pacarrete (Allan Deberton, 2020), no interior do Ceará, uma bailarina idosa luta para realizar seu sonho de dançar num balé clássico no teatro da cidade.
Cartaz de Velhos Bandidos, com Fernanda Montenegro e Ary Fontoura. A comédia de ação dirigida por Claudio Torres reúne gerações do cinema nacional em uma trama irreverente sobre um improvável grupo de veteranos que decide se lançar em um audacioso assalto.
Mas Talvez Fernanda Montenegro seja a atriz que mais encenou os papéis de idosa no cinema, em toda a diversidade e complexidade de personalidades: relembremos Vitória (2025), no papel de Dona Nina que enfrenta o tráfico de drogas no Rio; Ainda estou aqui (2024), em que vive Eunice Paiva idosa, com Alzheimer, e também Velhos Bandidos (2026), no qual atua com Ary Fontoura como criminosa.
No filme O último azul há os aspectos de conteúdo sobre a velhice que resultam no enfrentamento do preconceito, indiferença e etarismo. O imaginário juvenil é geralmente hostil à presença dos velhos, principalmente os jovens educados pela estética da TV e do cinema blockbuster de Hollywood (enquanto ‘máquinas de narciso’). Tendem a ser des-orientados pelo ‘complexo de Dorian Gray’, abduzidos pelo simbolismo radical da beleza, potência (pós)adolescente, e mitologia da eterna juventude. Tudo isso traduz limitações e impede o acesso a uma compreensão mais plena da existência, o que só chega com a maturidade, algo difícil de entender para os jovens narcisistas.
Fonte: Imdb
Cumpre focar os tratamentos dedicados à velhice pelo Estado, pela sociedade, pela mídia e pela academia. É importante destacar as lutas sociais e políticas dos idosos:
As lutas sociais pelos direitos dos idosos no Brasil, impulsionadas por movimentos organizados, focam na valorização da vida, combate ao etarismo e garantia de envelhecimento com dignidade. A legislação, com destaque para o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003), garante prioridade na saúde, assistência, moradia e transporte, consolidando a velhice como sujeitos de direitos.
Logo, há uma jurisprudência referente ao segmento idoso na sociedade e à guisa de breve demonstração indicamos as principais legislações que visam a proteção dessa camada social. A Legislação é bem vinda e necessária, entretanto não se pode abolir os preconceitos e prejulgamentos por decreto oficial.
O Último Azul (2025), filme de Daniel Mascaro. ▪ Fonte: Imdb
O Último Azul é pródigo justamente nesse aspecto: ao problematizar as arbitrariedades de um Estado de Exceção (em modo distópico), que confina os velhos (a partir dos 75 anos) numa colônia, privando-os de viver a vida em liberdade, e estabelece a sua dependência de uma pessoa da família (no caso, a filha) que deverá manter a guarda dos anciãos e se responsabilizar juridicamente por todos os seus atos.
5. O Ecossistema Amazônico e sua Geografia Humana
O enquadramento da outridade, da diferença, da estranheza, no foco de uma geografia brasileira (amazônica), que não é hegemônica na mídia audiovisual (Rede Globo), implica na abertura de novos horizontes e alerta ético-poeticamente para um outro modo de enxergar a geografia humana,
Fonte: Imdb
o prisma social, ambiental e cósmico da realidade nacional.
Merece destaque a dimensão onírica, simbólica, mitopoética que envolve a narrativa e que se epifaniza na recorrência zoológica, animal, de um molusco que produz um líquido azul e quando colocado nos olhos leva a uma experiência alucinógena, místico-visual, extrassensorial que conduziria a percepção a uma imaginação do destino.
De modo concreto e existencial, a película expõe o fluxo da vida em um ambiente físico atravessado pela ecologia das águas, rios, embarcações, exuberância da fauna e flora aquáticas, onde as tensões e conflitos das populações ribeirinhas irrigam o imaginário dos personagens (e do público) ampliando os horizontes cognitivos.
A atitude ousada, destemida, corajosa da personagem Tereza (Denise Weinberg) configura um perfil psicológico que exalta a vontade de autonomia, a coragem de gozar a vida aos 70 e a luta pela realização dos sonhos. Uma lição de liberdade, sinalizando a angulação luminosa e descoberta pessoal do ‘sentido da vida’ no outono da existência.
Fonte: Imdb
O cinema de Gabriel Mascaro contribui enormemente para um reconhecimento do ‘Brasil Profundo’. Se a literatura dá asas à imaginação arrebatando os sentidos dos leitores e lhes enriquece o espírito, a experiência das imagens em movimento vai mais fundo pelo viés do ‘inconsciente ótico’ (Benjamin), desvendando as imagens-movimento’, as ‘imagens-tempo’ e suas extensões como ‘imagens-sensações’, ‘imagens-percepções’ e ‘imagens-ações’ (Deleuze), que são difíceis de acessar pelo imaginário controlado pelo padrão midiático-publicitário e pela tirania do infoentretenimento.
6. A Superindústria do Imaginário e o Algoritmo da NetFlix
Na perspectiva crítica (Adorno e Horkheimer), o conceito de ‘indústria cultural’, do rádio, cinema e TV foi usado para denunciar os efeitos de massificação, padronização do gosto, produção do kitsch, designação alemã para o “mau-gosto” dos objetos-clichês e estereótipos.
Mais recentemente, no âmbito da ‘superindústria do imaginário’ (Bucci), há uma atualização (e superação) da crítica pela via do conceito “já clássico” de ‘indústria cultural’,
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mostrando que (quase) todas as atividades humanas têm sido atravessadas pela padronização da produção e consumo, e pela lógica da industrialização. Vide exemplos do padrão do ‘corte de cabelo’ nos salões, fast food, comida japonesa, turismo, parques temáticos, compra de tempo na TV, meta de recolhimento do dízimo na igreja etc. Ou seja (quase) tudo hoje passa pelo crivo dos padrões da lógica industrial.
E particularmente no contexto da programação audiovisual em modo streaming (vídeo sob encomenda), a crítica recai sobre a função do algoritmo, dispositivo da big tech que controla a produção, distribuição e consumo dos filmes na plataforma da NetFlix.
A crítica ao algoritmo da Netflix concentra-se na padronização do gosto cultural (Chakya, 2024; Finn, 2017; Nunes, 2021), na produção de ‘bolhas’ de recomendação, na redução da diversidade artística e no consumo obsessivo, onde o controle da economia de atenção é considerado mais relevante que o empenho na produção de qualidade (Cohn, 2019; Mendonça, Almeida, Figueiras, 2023; Curvello, 2022).
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Logo, a produção e consumo dos filmes e séries no formato streaming surge como inovação promissora, mais liberdade de escolha do assinante-telespectador, um avanço na degustação das artes audiovisuais, mas trazem efeitos colaterais que nos levam a problematizar a função do algoritmo.
Assim, apontamos um paradoxo no que respeita à arte de degustar filmes e séries no formato de streaming, e nessa direção apresentamos alguns elementos para uma avaliação compreensiva dessa experiência. Então, como provocação
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amistosa ao debate, recorremos ao legado da antropologia, que deve ser entendida aqui como um campo do saber empenhado em decifrar a ‘complexidade das culturas humanas’, como tão bem definiu Edgar Morin (2014) e a arte de “relativizar” (mediar, balancear e contextualizar, reconhecendo os prós e contras) no ato de interpretação das culturas.
Igualmente, remontamos a conhecida premissa de Umberto Eco e sua advertência para superarmos a dicotomia que divide os estudiosos da cultura de massa em ‘apocalípticos e integrados’ (2020), isto é, transcender a bipolaridade dos pessimistas (frankfurtianos) e otimistas (funcionalistas).
Retomamos os conceitos de ‘princípio dialógico’ (2010) e ‘polifonia das vozes’ (1981), tão caros a Mikail Bakhtin, estudioso da linguagem e da cultura, assinalando a pluralidade de instâncias que envolvem o ato de criação e suas distintas e múltiplas possibilidades de leitura.
Relembramos a proposta de Braga (2006), acerca da pertinência e validade dos estratégicos “sistemas sociais de resposta” no campo midiático-comunicacional, que reconhece
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a importância do público no processo de decodificação e ressignificação das mensagens.
E, em se tratando do exame da produção cultural, caberia recorrermos a Raymond Williams, apreendendo o modo como este lida com a equação “tecnologia e forma cultural” (2016), e ainda reler as interpretações de Martín-Barbero (1997) no que concerne ao equilíbrio entre os dois termos da relação entre a “matriz industrial” e a “matriz cultural”, em referência a análise da produção cultural na era do capitalismo tardio.
Destarte, a formação discursiva que brota da comunicação em rede, constituída pelas lives, críticas, análises, comentários, depoimentos, entrevistas, conversações dos atores, autores, especialistas e interessados em cinema, tem uma grande importância. Então, após termos denunciado os virtuais prejuízos causados pelos algoritmos na zona do streaming, caberia examinarmos a legitimidade das falas dos “críticos de cinema’ e sua apreciação do novo cinema nacional, a exemplo do filme O Último Azul.
7. Comentários de Isabela Boscov no YouTube
Seria de bom presságio destacar o que poderíamos denominar como uma certa forma de ‘crítica expandida do cinema’, principalmente no que respeita à recepção e circulação das notícias sobre o cinema, no contexto do ciberespaço, através de lives, entrevistas e comentários nas redes sociais.
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Assim, temos uma nova modalidade de ‘esfera pública digital’, uma ‘inteligência coletiva conectada’, que se constitui também a partir da nova crítica cinematográfica em rede. Recentemente tem se constituído num hábito frequente, assistir, escutar e interagir com os vídeos disponibilizados no YouTube sobre cinema (de ficção e documentário). Esta experiência promove uma modalidade de ‘educação estética’ através do audiovisual.
A título de exemplificação destacaríamos algumas das críticas sobre o filme O Último Azul na plataforma de vídeo YouTube:
Um exemplo relevante se mostra no trabalho da prestigiada comentarista Isabela Boscov sobre o filme, astuciosamente intitulado ‘No mágico O Último Azul, desobedece quem tem juízo’ (27.08.2025). Muito além de uma mera resenha, Boscov descreve o universo fílmico, faz a análise crítica da obra e entrevista o diretor Gabriel Mascaro, a protagonista Denise Weinberg e o ator coadjuvante Rodrigo Santoro.
Crítica do filme brasileiro “O Último Azul”, dirigido por Gabriel Mascaro com Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarrás, Adanilo, Rosa Malagueta, Clarissa Pinheiro, Dimas Mendonça, Daniel Ferrat e entrevista com o diretor e os atores. ▪ YT Isabela Boscov.
A prosa e conversação que brotam desse programa nos desvelam aspectos importantes para uma reflexão sobre o tema do envelhecimento.
O filme desenha uma semiótica do confinamento do velho, ou seja, uma significação que se faz por meio de imagens e sons, falas, olhares, gestos, paisagens e silêncios. Diferente da literatura, o cinema representa a realidade através de tecnologias sensíveis que tornam visível o invisível.
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Desde a abertura do filme, um avião irrompe o azul celestial com uma faixa gigante com a seguinte frase “O Futuro é para Todos”. Ou seja, a propagação de uma retórica mentirosa, em que — na real — o futuro do velho é interrompido por uma política governamental ardilosa, que objetiva adestrar os jovens para o mercado de trabalho, livre da obrigação de cuidar dos idosos, vistos como impedimento ao progresso em modo neoliberal.
O ‘cata-velho’, a carrocinha, a fralda geriátrica, o ‘kit-velho’ numa mochila, a colônia de idosos, a “polícia-cidadã” são imagens visíveis dos signos repressivos que perseguem Tereza.
Fonte: Imdb
Mas o diretor tem a astúcia de focar a ‘velha em fuga’. E assim são impagáveis as imagens tragicômicas de Tereza, que se esconde dentro de um banheiro químico e se vê transportada por caminhões de descarga. ‘Imagens-aprisionantes’ dão lugar à ‘imagens-fuga’ em várias sequências. A cada porta que se fecha, outra se abre.
Um filme de estrada aquático: este deveria ser um índice classificatório para designar o gênero da obra. É um filme com matizes distópicos, mas profundamente realista e não abole o sentido da utopia.
A passagem da experiência alucinógena usando a baba azul do caracol como colírio, abre uma janela fantástica, com traços do realismo mágico e em última instância, uma viagem e signo da autodescoberta e da libertação.
8. O olhar de PH Santos na Crítica do filme, no YouTube
Um exemplo da ‘crítica estendida no ciberespaço’ e ‘esfera crítica digital’, apresenta-se na avaliação primorosa do crítico PH Santos, cujo título já antecipa uma percepção da atmosfera de distopia tropical, que conduz a trama do filme: ‘O Último Azul – um Black Mirror brasileiro’ (04.08.2025).
Fonte: Imdb
Santos traz informações técnicas que ajudam a entender o estilo do diretor Mascaro, autor de obras como Doméstica (2012), Boi Neon (2015) e Divino Amor (2019), entre outras.
Segundo o comentarista, o filme consiste em uma desmontagem (da imagem) da velhice, não como fim, mas como recomeço, “meninice”, fase de redescoberta de si.
O cineasta que já filmou a juventude sem expectativas diante do futuro, agora os transforma em mão de obra barata para o governo, livres da responsabilidade de cuidar dos velhos que deverão ir para uma colônia.
E numa decupagem da técnica, Santos explica o uso da proporção 5 x 4 (ou 4 x 5) na filmagem, no formato retrato ou “vertical”, que fora hegemônico nos primórdios da televisão, e que se mostra como um uso popular adequado para se ver as imagens no celular (e redes sociais) é empregado também nos filmes O Filho de Mil Homens e O Último Azul. Mas Santos aponta o ‘foco quadrado’ e as ‘barras pretas’ nas laterais pelo viés semiótico, desvelando este recurso técnico como estratégia estética que denuncia a delimitação das ações da personagem, e consiste num reforço sensório-visual para dar a sensação de opressão e confinamento.
Em formato quadrado, com barras escuras laterais, O Último Azul, de Gabriel Mascaro, acompanha um Brasil distópico em que idosos são recolhidos pelo Estado. Na cena, o “cata-velho”, veículo da chamada “polícia cidadã”, é usado para transportar compulsoriamente pessoas idosas consideradas um peso social — uma imagem simples, mas perturbadora, que resume o clima do filme. ▪ Fonte: Imdb
O quadrado mostra a vida curta, enclausurada. E causa o incômodo no telespectador comum, que, “vendo aquele universo através de um formato quadrado”, ressente-se pela falta da estética em cinemascope e recusa a inovação (de Mascaro). Isto é, um lado conservador do telespectador.
O que escapa ao olhar do espectador, mirando a cena entre ‘barras pretas’, instiga a imaginação para um além do presente, para além do que é mostrado, e leva o telespectador a imaginar o que ocorre além das bordas do rio,
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quando Tereza não cede, mas prossegue em seu itinerário “sem fim”, como prorrogação do tempo de vida.
A travessia de Tereza implica em evolução espiritual, física e moral, e em cada etapa ela se liberta dos grilhões mentais, familiares e institucionais.
Primeiramente, buscando um avião para realizar o desejo de voar, encontra o personagem de Cadu (Rodrigo Santoro), que lhe ensina a pilotar o barco, que não permita ninguém bloquear seu caminho e lhe apresenta a baba azul do caracol, cujo pingo nos olhos lhe fará vislumbrar o futuro.
Em seguida, Tereza se torna mais esperta e um pouco malandra ao encontrar o personagem de Ludemir (Adanilo) que a engana, usando seu dinheiro supostamente para consertar um velho ultra-leve que obviamente não poderá voar. E ainda vai lhe mostrar o caminho para o vício no jogo.
Fonte: Imdb
Por fim, ao encontrar a falsa freira, a personagem de Roberta (a atriz cubana Miriam Socarrás), Tereza vai descobrir a arte de vender a bíblia no formato de ‘tablet’ para os crentes das comunidades ribeirinhas, vai entrar na trama de um jogo arriscado de apostas (envolvendo belos peixes de briga), vai vencer, comprar sua “alforria”, livrando-se da colônia governamental, vai provar a gota do caramujo azul (ampliar seus horizontes ) e descobrir um novo tipo de relação afetivo-amorosa com Roberta.
Miriam Socarras (Roberta) e Denise Weinberg (Tereza), em O Último Azul. ▪ Fonte: Imdb
O post crítico de PH Santos no YouTube, com milhares de visualizações e comentários, é importante como fonte de pesquisa, objeto de estudo e deleite para os cinéfilos, oferecendo uma modalidade de análise no youtube, que se mostra algo mais que um mero site de vídeo, mas um formato de mídia noticiosa como vetor de informação estética, cognitiva e cultural.
Fonte: Imdb
“Tereza sacrifica os laços familiares para realizar seus sonhos”.
O filme é distópico como um episódio do Black Mirror, com um matiz (em princípio) desesperançado, pois mostra o mal-estar dos velhos num contexto de perseguição permanente, mas é igualmente utópico pois Tereza luta contra o sistema e seu objetivo de confina-la numa colônia de velhos. Ela achava que não tinha futuro pois a medida governamental bloqueou suas aspirações, mas decidiu lutar contra “o país que a descartou”. “As fraldas rasgadas significam uma negação das imposições autoritárias”.
PH Santos analiso como o filme aborda a velhice não como fim, mas como recomeço, explorando o direito de viver, sonhar e redescobrir. ▪ YT PH Santos
Tereza caiu na estrada (fluvial) sem rumo, mas encontrou uma saída. Contrariando a premissa de que “velho não tem futuro”. Mas o filme mostra que nesse caso, “não ter futuro não é natural, mas uma construção social” e uma “construção política também”. Ela decide que tem uma vida para ser vivida ainda e busca uma solução para enfrentar a velhice vivida com a mente e o corpo, e aí a parceria entre Tereza e Roberta será fundamental.
9. Para Concluir
Assim, cumpriria ratificarmos a importância dos comentários, ressaltando os aspectos de forma, conteúdo e sentido das obras audiovisuais.
Ao pensarmos na interface do Cinema e a Tecnologia, é preciso ‘relativizarmos’, observarmos que nem tudo aqui significa retrocesso.
Trailer oficial de O Último Azul, vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlim 2025. ▪ YT Vitrine Filmes
Apesar da ‘tirania do algoritmo’, que monopoliza a atenção e determina a escolha do espectador, a exibição dos filmes em streaming não deixa de ser um privilégio, em comparação à produção, distribuição e consumo, nas décadas anteriores: convém notar o poder de se rever as obras, que consiste em um prazer para os amantes da sétima arte, aos televidentes e cinéfilos. Este empreendimento se revela como um vetor importante para os pesquisadores, analistas e educadores no campo das artes audiovisuais.
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