“O tempo resiste a tudo, mas as Pirâmides resistem ao tempo.”
Provérbio egípcio
Sobre o Egito, do antigo nome Hwt-Ka-Ptah (Mansão do Espírito de Ptah*), denominação original
*Ptah era um dos deuses primordiais, dos mais poderosos da mitologia egípcia, cultuado como o artesão divino, criador do universo, dos deuses e patrono dos construtores, escultores e arquitetos, representado como um homem mumificado, de pele verde, segurando um cetro composto pelos símbolos de vida (Ankh), poder (Was) e estabilidade (Djed)
da cidade de Memphis, a primeira capital egípcia, muito se tem escrito, mas muito poucos superaram a descrição lavrada por um dos mais importantes escritores portugueses de sempre, Eça de Queiroz, nas suas notas “A Caminho do Oriente”, compiladas no final de 1869.
Sente-se que aquela região deve ser habitada por espíritos. Pensa-se apenas em coisas leves, onduladas, transparentes:
Eça de Queiroz (1845–1900), escritor português, autor de romances clássicos como O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias.
em linhas puras, em sensações simples – e a nós, homens inquietos e nervosos, corroídos pelas aflições da realidade e pelas dores do trabalho, a primeira ideia que nos vem é a de esquecer, ficar ali esperando a vida, como a aguardavam as antigas almas dos poemas de Homero nas serenas e nubladas regiões inferiores.
Ali, se o homem pensasse em construir, só lhe lembraria a linha pura, a recta suavíssima ou a lenta curva toda aberta ao dia e à luz. Se o homem pensasse em soltar a voz, fá-lo-ia cantando. E parece que todo o pensamento humano deveria ter naquelas paragens a modulação natural de um verso de Virgílio. Ali, as coisas imensas têm a perfeição das coisas delicadas: o mar lembra uma pervinca, o céu uma ametista. Aquela região é a pátria das almas.
Eça de Queiroz
Os colossos de Ramsés II na fachada do Grande Templo de Abu Simbel, no sul do Egito, esculpidos no século XIII a.C. na rocha do deserto núbio. Arte: David Roberts, 1849.
Acrescentaria, em menor proporção, que há pessoas que ao visitarem o Egito veem apenas blocos enormes de pedras e nada compreendem. Outras, porém, ao verem as mesmas construções (mausoléus, necrópoles, pirâmides), enxergam-nas em toda a sua magnitude e grandiosidade, nítidas, de contornos finos — parecendo feitas por um cinzelador —, poderosas, enormes. A grandeza do espírito está em ver o invisível. Em sentir o que é imensurável. Diria até que é preciso mais que uma vida para estudar
Templo de Karnak, Egito. ▪ Acervo: A. Rodrigues
o Egito e é preciso muito mais que várias vidas para entendê-lo... Quem o vê, nunca esquece. E quem o entende, fica arrepiado.
'O que mais surpreende naquelas magnificentes pirâmides é o mistério. Aqueles muros, pedras, interiores, sarcófagos vazios, corredores solitários. Tudo tem um aspecto de mudez e de segredo que espanta.'(EQ) Dá vontade de falar com aquelas pedras, escutar os seus murmúrios e auscultar os seus enigmas mais profundos. 'Ali, não há esculturas, nem inscrições, nem algoritmos. Tudo escarnece a curiosidade humana. Quando assim, da planície, se vê na orla das areias a fila descomunal das pirâmides que limitam o deserto, pensa-se involuntariamente nos marcos monstruosos do campo de Deus!' Como escreveu Fernando Pessoa: "Ouço a Esfinge rir por dentro, ao som da minha pena a correr no papel..."(EQ)
Al-Jīzah (Gizé) é a cidade egípcia situada na margem oeste do Nilo, vizinha ao Cairo, mundialmente conhecida por abrigar o planalto das Pirâmides (Quéops, Quéfren e Miquerinos), além da Grande Esfinge.
Egito. Belo, grande, brilhante, alto acima da terra. Um dos grande pilares de originalidade cultural e espiritual da Humanidade, palimpsesto de contrastes definido na dualidade geográfica e social que moldou a sua longa história. Lar de Tawi ou Ta-Mari (“As Duas Terras”), o Alto e o Baixo Egito unificados. Que inspira filmes, livros, conferências, estudos e tertúlias. Romântica terra dos faraós, dos califas, da joia do divino Nilo, do reino Núbio, da luz magnífica, das areias douradas e místicas repletas de tesouros arqueológicos que ainda hoje são motivo
Cidadela do Sultão Salah al-Din al-Ayyubi (Saladino), no Cairo. Durante séculos foi o centro do poder político do Egito e hoje é um dos principais sítios históricos da capital. ▪ Acervo: A. Rodrigues
de encantamento para todos os viajantes do mundo, da natureza, da vida quotidiana, da morte e da ordem do universo (Maat), dos imponentes minaretes das mesquitas, do restrito haram, do ascetismo dos dervixes, do esplendor dos contos das Arábias, das majestosas bibliotecas, das tradicionais embarcações felukat, do som frenético da darbuka e das flautas de cana (nay).
Magno chão de lendas criativas e universais que acolheu a sempiterna voz de Umm Kulthum (conhecida como Kawkab El-Sharq, isto é, “Estrela do Oriente” e considerada a “Quarta Pirâmide” do Egito), da diva trágica Dalida, e dos movimentos desvelados da exótica estrela e ícone da Dança do Ventre, Samia Gamal. Dos populares bazares e dos agitados ahawi de caftans de seda onde se bebe o café turco e se fuma o narguilé persa, do derradeiro bakchich (gorjeta), das gentes com fisionomia quente, expressiva, subtil, aventureira e temperamento alegre, risonho, loquaz, imaginoso.
Templo de Karnak, Egito. ▪ Acervo: A. Rodrigues
Berço de conhecimento, de sabedoria, sob o olhar de milhares de deuses e da sua magnificência, das tumbas, de múmias, das suas técnicas de embalsamento, dos rituais e dos templos sumptuosos onde o incenso perfuma os insignes altares. Da escrita hieroglífica que revela histórias antigas de saber, dos sábios escribas que registavam o conhecimento em papiros que preservaram as tua glórias, num legado eterno de cultura e de encantamento.
Museu Egípcio do Cairo, o maior do continente africano, abriga a maior coleção de antiguidades egípcias do planeta. ▪ Acervo: A. Rodrigues
Cenário inesgotável de mistérios, onde a linha entre a história e o mito muitas vezes se confunde. Memphis (primeira capital), Tebas (capital do Império Novo, atual Luxor), Alexandria (centro cultural helenístico), Heliópolis (centro religioso do deus Rá) e Amarna (capital de Akhenaton). Os museus a céu aberto do Vale dos Reis (Luxor), de el-Gīza, Saqqara, da Cidade dos Mortos (Al-Arafa), de Abu Simbel (Aswan), do Templo de Philae (a “Pérola do Egito”,
Templo mortuário de Hatshepsut, construído por volta de 1470 a.C. em Deir el-Bahari, perto de Luxor. Esculpido nas falésias do deserto, destaca-se pelos terraços monumentais e colunatas que celebram uma das mais importantes governantes do Egito antigo.
dedicado à deusa Ísis), Templo de Kom Ombo (consagrado ao deus crocodilo Sobek, Sbk, e ao deus falcão Hórus), Templo de Dendera (Hathor; deusa da alegria e do amor), Templo de Edfu (Hórus), de Abydos (templo de Seti I; local de peregrinação sagrada, associado ao culto de Osíris) e do sítio de Wadi es-Sebua (literalmente, “Vale dos Leões”), famoso pelos seus templos do Império Novo. Dos cultos às enéades mitológicas, a Rá (Sol/criação), Osíris (submundo/ressurreição), Ísis (magia/maternidade), Hórus (céu/faraós) e a Anúbis (mumificação), essenciais para o quotidiano e o Além. Os hinos divinos, destacando as trinta honrosas dinastias e os monarcas como deuses na terra, criadores e protetores do povo. Narmer (unificador), Quéops (construtor da Grande Pirâmide), Hatshepsut (poderosa rainha), Akhenaton (reforma monoteísta), Tutankhamun (tesouro intacto), Ramsés II (o grande construtor e guerreiro), Sobekneferu (a primeira mulher a reinar como faraó no Antigo Egito), Nefertiti (“a bela chegou”) e a inteligente soberana Cleópatra VII, entre tantas outras figuras.
‘O encanto é profundo. Da superfície de todas as coisas desprende-se um sonho cintilante, sereno, calado e prodigioso, que ocupa o cérebro, vibra fortemente nos nervos – e vive-se, naqueles bazares assim iluminados e feéricos, intensamente, numa alucinação, toda a lenda maravilhosa e poética do tempo dos califas e de As Mil e Uma Noites...’
Eça de Queiroz
Paisagens do Egito. ▪ YT: Sergi Martínez Miró
É o mágico e insondável Egito onde o Tempo ainda repousa.