Dedico à professora Neide Medeiros,
devota de Graciliano.
Penso — e, mais que penso, sinto — que o Nordeste e o nordestino geralmente são vistos pelos brasileiros de outras regiões, com ênfase nos cariocas e nos paulistanos metidos a cosmopolitas, de forma estereotipada. Nem preciso ressaltar — mas fá-lo-ei — o caráter negativo dessa imagem, pois ele já vem intrínseco à própria definição da palavra estereótipo como “concepção baseada em ideias preconcebidas sobre algo ou alguém, sem o seu conhecimento real, geralmente de cunho preconceituoso ou repleta de afirmações gerais e inverdades”. Isso diz tudo — ou quase.
GD'Art
O professor Wander Melo Miranda acabou de publicar a mais recente biografia de Graciliano Ramos (Editora Companhia das Letras, São Paulo), provando com isso o interesse que o alagoano ainda desperta junto ao público leitor brasileiro. O mestre emérito da UFMG relata
Começo citando o próprio Graciliano, quando escreveu que o protagonista Paulo Honório “reproduzia alguns coronéis assassinos e ladrões meus conhecidos”. Sim, havia-os às pencas no Nordeste daqueles tempos arcaicos em que muitas terras foram adquiridas e usurpadas por meio de balas, e a terra era tudo, propriedade que conferia aos seus titulares domínio econômico, político e social. Claro que nem todos eram assassinos e ladrões, mas rudes e autoritários todos eram, pois a geografia e a cultura não admitiam fraquezas de nenhuma espécie. Não havia lugar para delicadezas. Corroborando tudo isso, Wander Melo Miranda observa que “Na primeira parte, Paulo Honório narra as escaramuças, os assassinatos e as grilagens de terra de que participou para conseguir ascender social e economicamente, tornando-se senhor de terras e de gente”. E não podemos esquecer a semelhança desses coronéis alagoanos com aqueles retratados por Jorge Amado em seus romances situados na região cacaueira da Bahia. A violência de que usavam para conquistar e manter o poder era a mesma.
Augusto Frederico Schmidt, poeta, editor literário e conselheiro político ▪️ Fonte: IMS
Lúcia Miguel Pereira, mesmo elogiando a qualidade literária do autor e registrando a secura da literatura de Graciliano, escreve: “o estilo é seco, seco o ambiente, secos de fazer sede”. A mesma secura ressaltada como sinônimo regional, a qual, se era verdadeira à época, deixou de sê-lo faz tempo.
Ainda conforme Melo Miranda, em 1972, o crítico Hélio Pólvora, em artigo para o Jornal do Brasil, afirma: “o protagonista Paulo Honório condensa em sua personalidade áspera as agruras em um Nordeste igualmente áspero”. Mais uma vez, a propalada aspereza regional destacada, como se fosse um carimbo inapagável e definitivo. E acrescenta o biógrafo: “Mesmo o ciúme de Paulo Honório — ‘um ciúme de homem bruto:
GD'Art
Não há dúvida de que Graciliano retratou bem o interior de Alagoas e do Nordeste dos anos 1930 e anteriores, assim como seus colegas escritores acima citados. De fato, a região era aquilo, as mazelas eram aquelas — mas não só. Pois havia o Nordeste do litoral e das capitais, onde a civilização era diferente: mais urbana, mais evoluída econômica e culturalmente, menos áspera, menos violenta, em termos comparativos com o sertão e seus personagens emblemáticos, no qual ainda vigoravam, sem disfarces, o patriarcalismo, o machismo, o feudalismo econômico e social, o “lavar a honra com sangue” e princípios assemelhados. No Recife, por exemplo, reinavam sua tradicional Faculdade de Direito e o Jornal do Comércio, entidades civilizadoras, assim como em Salvador salientava-se a Faculdade de Medicina, polo nacional de ciência. Em Maceió, reuniam-se vários dos escritores que depois brilhariam como representantes do modernismo regionalista brasileiro. Nem tudo era feudal, portanto.
GD'Art
É possível, reconheço, que haja exagero nas minhas afirmações feitas acima, mas, por experiência própria e a de tantos, creio não estar muito longe da verdade. Ainda tem muito carioca e paulistano ignorante que vê no Nordeste e sua gente apenas uma nódoa de arcaísmo, a qual, se pudessem, extinguiriam, sem hesitação nem dó.
O fato é que, no Nordeste atual, pouco se vê do antigo quadro dos anos 1930. Mesmo no interior, a paisagem mudou: o urbano ocupa o lugar do rural, o mandonismo dos coronéis é menor, as universidades chegaram aos rincões, a juventude se moderniza através da televisão, nem sempre no melhor sentido, é verdade. E as capitais floresceram como novos centros urbanos vicejantes e atraentes, nos quais o turismo e os serviços se impõem economicamente. Não há mais lugar para Fabiano, Sinhá Vitória e Baleia, o que não quer dizer, claro, que tudo virou um paraíso. Entretanto, a despeito de tudo isso, subsiste para não poucos e, em certa medida, o velho estereótipo regional, que já não corresponde à verdade, mas que é cultivado quase que perversamente. É preciso, pois, corrigir essa odiosa distorção.











