Dedico à professora Neide Medeiros, devota de Graciliano. Penso — e, mais que penso, sinto — que o Nordeste e o nordestino geral...

Estereótipo nordestino na crítica de S. Bernardo, de Graciliano Ramos

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Dedico à professora Neide Medeiros, devota de Graciliano.
Penso — e, mais que penso, sinto — que o Nordeste e o nordestino geralmente são vistos pelos brasileiros de outras regiões, com ênfase nos cariocas e nos paulistanos metidos a cosmopolitas, de forma estereotipada. Nem preciso ressaltar — mas fá-lo-ei — o caráter negativo dessa imagem, pois ele já vem intrínseco à própria definição da palavra estereótipo como “concepção baseada em ideias preconcebidas sobre algo ou alguém, sem o seu conhecimento real, geralmente de cunho preconceituoso ou repleta de afirmações gerais e inverdades”. Isso diz tudo — ou quase.

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No caso de S. Bernardo, sabemos que a história se passa, como outras obras de Graciliano Ramos, no interior alagoano, região da qual é oriundo o celebrado autor. O livro foi publicado em 1934, época em que o Nordeste era de fato um mundo mais rural do que urbano, as secas monopolizavam a imagem pública da região como um lugar áspero e, em algumas partes, até inabitável, e os nordestinos em geral, mesmo os das capitais litorâneas, recebiam o carimbo de “matutos”, pejorativamente. Aquele mundo feudal era aquilo mesmo que o escritor de Quebrangulo retratou — e não só ele, mas também José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, José Lins do Rego e outros mais, cada qual a seu modo e todos mais ou menos imbuídos do espírito do regionalismo pregado por Gilberto Freyre no altivo Manifesto de 1926. Explicava-se, portanto, aquela certa maneira negativa — e preconceituosa — de muitos enxergarem a região e seus habitantes, visão essa que vai se refletir na crítica sobre a obra, como veremos.

O professor Wander Melo Miranda acabou de publicar a mais recente biografia de Graciliano Ramos (Editora Companhia das Letras, São Paulo), provando com isso o interesse que o alagoano ainda desperta junto ao público leitor brasileiro. O mestre emérito da UFMG relata
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muito claramente o modo como foi recebido o livro do velho Graça, modo este que revela, por sua vez, a imagem do Nordeste na cabeça dos críticos.

Começo citando o próprio Graciliano, quando escreveu que o protagonista Paulo Honório “reproduzia alguns coronéis assassinos e ladrões meus conhecidos”. Sim, havia-os às pencas no Nordeste daqueles tempos arcaicos em que muitas terras foram adquiridas e usurpadas por meio de balas, e a terra era tudo, propriedade que conferia aos seus titulares domínio econômico, político e social. Claro que nem todos eram assassinos e ladrões, mas rudes e autoritários todos eram, pois a geografia e a cultura não admitiam fraquezas de nenhuma espécie. Não havia lugar para delicadezas. Corroborando tudo isso, Wander Melo Miranda observa que “Na primeira parte, Paulo Honório narra as escaramuças, os assassinatos e as grilagens de terra de que participou para conseguir ascender social e economicamente, tornando-se senhor de terras e de gente”. E não podemos esquecer a semelhança desses coronéis alagoanos com aqueles retratados por Jorge Amado em seus romances situados na região cacaueira da Bahia. A violência de que usavam para conquistar e manter o poder era a mesma.

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Augusto Frederico Schmidt, poeta, editor literário e conselheiro político ▪️ Fonte: IMS
Uma das primeiras resenhas sobre S. Bernardo foi assinada pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, nos seguintes termos, destacados pelo biógrafo Melo Miranda: “é um romance estreito, pesado, em que sentimos a falta de qualquer doçura, e onde não encontramos um trecho sequer em que a poesia nos permita descansar da angustiante aridez das paisagens humanas”. Eis aí, já nos inícios, o estereótipo que se afirmaria crescentemente a respeito da região e sua gente: estreiteza, falta de doçura, aridez. Tudo isso formaria o amálgama maldito da imagem nordestina para os brasileiros de outras regiões, principalmente os sudestinos e sulistas.

Lúcia Miguel Pereira, mesmo elogiando a qualidade literária do autor e registrando a secura da literatura de Graciliano, escreve: “o estilo é seco, seco o ambiente, secos de fazer sede”. A mesma secura ressaltada como sinônimo regional, a qual, se era verdadeira à época, deixou de sê-lo faz tempo.

Ainda conforme Melo Miranda, em 1972, o crítico Hélio Pólvora, em artigo para o Jornal do Brasil, afirma: “o protagonista Paulo Honório condensa em sua personalidade áspera as agruras em um Nordeste igualmente áspero”. Mais uma vez, a propalada aspereza regional destacada, como se fosse um carimbo inapagável e definitivo. E acrescenta o biógrafo: “Mesmo o ciúme de Paulo Honório — ‘um ciúme de homem bruto:
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instintivo, animalesco, avassalador’ — é reflexo de uma espécie de inconsciente coletivo do Nordeste”. Vejam só. Aqui os defeitos individuais de Paulo Honório são generalizados para seus conterrâneos, sem nenhuma cerimônia.

Não há dúvida de que Graciliano retratou bem o interior de Alagoas e do Nordeste dos anos 1930 e anteriores, assim como seus colegas escritores acima citados. De fato, a região era aquilo, as mazelas eram aquelas — mas não só. Pois havia o Nordeste do litoral e das capitais, onde a civilização era diferente: mais urbana, mais evoluída econômica e culturalmente, menos áspera, menos violenta, em termos comparativos com o sertão e seus personagens emblemáticos, no qual ainda vigoravam, sem disfarces, o patriarcalismo, o machismo, o feudalismo econômico e social, o “lavar a honra com sangue” e princípios assemelhados. No Recife, por exemplo, reinavam sua tradicional Faculdade de Direito e o Jornal do Comércio, entidades civilizadoras, assim como em Salvador salientava-se a Faculdade de Medicina, polo nacional de ciência. Em Maceió, reuniam-se vários dos escritores que depois brilhariam como representantes do modernismo regionalista brasileiro. Nem tudo era feudal, portanto.

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Esse outro Nordeste à beira do mar, mais ameno e mais desenvolvido, porém, nunca foi assimilado como imagem alternativa da região. O que vemos até hoje é a predominância do antigo carimbo de atraso, de secura e de violência firmado pela crítica e pela imprensa de antes e de agora. Para essa parte considerável, diga-se, da “desinteligência” brasileira, Paulo Honório ainda personifica os nordestinos, com todos os seus defeitos.

É possível, reconheço, que haja exagero nas minhas afirmações feitas acima, mas, por experiência própria e a de tantos, creio não estar muito longe da verdade. Ainda tem muito carioca e paulistano ignorante que vê no Nordeste e sua gente apenas uma nódoa de arcaísmo, a qual, se pudessem, extinguiriam, sem hesitação nem dó.

O fato é que, no Nordeste atual, pouco se vê do antigo quadro dos anos 1930. Mesmo no interior, a paisagem mudou: o urbano ocupa o lugar do rural, o mandonismo dos coronéis é menor, as universidades chegaram aos rincões, a juventude se moderniza através da televisão, nem sempre no melhor sentido, é verdade. E as capitais floresceram como novos centros urbanos vicejantes e atraentes, nos quais o turismo e os serviços se impõem economicamente. Não há mais lugar para Fabiano, Sinhá Vitória e Baleia, o que não quer dizer, claro, que tudo virou um paraíso. Entretanto, a despeito de tudo isso, subsiste para não poucos e, em certa medida, o velho estereótipo regional, que já não corresponde à verdade, mas que é cultivado quase que perversamente. É preciso, pois, corrigir essa odiosa distorção.

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