Recentemente, em Salvador, um repórter estava fazendo uma entrada ao vivo diante de um hospital quando um cachorro de rua se aproximou...

O que podemos fazer?

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Recentemente, em Salvador, um repórter estava fazendo uma entrada ao vivo diante de um hospital quando um cachorro de rua se aproximou. O animal brincou com ele, afastou-se e depois voltou carregando um pedaço de pano, deitou sobre o pé do jornalista e ficou ali. O repórter não podia brincar muito porque estava cobrindo uma notícia triste, mas deu o máximo de atenção que podia. O suficiente para a cena chamar bastante a atenção nas redes digitais. O corte da reportagem
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viralizou e chegou até a dona do cachorro. Descobriu-se que o cãozinho estava desaparecido havia mais de um mês e que sua família o procurava. O que começou como uma interrupção banal de uma reportagem terminou com o cachorro reencontrando sua tutora. O próprio repórter resumiu a experiência dizendo que um pequeno gesto de cuidado pode transformar completamente o dia e a vida de alguém.

Há uma mania humana que talvez seja uma das formas mais elegantes de covardia: diante da desgraça universal, concluímos que não podemos fazer nada. O planeta está errado, os governos estão errados, a humanidade está errada, o vizinho está errado e nós, naturalmente, não somos responsáveis por nada e já estamos ocupados demais fiscalizando e constatando os erros alheios.

É uma excelente estratégia de acomodação e de preguiça moral que não nos exige nada. Há uma proposta, contudo, que é muito mais modesta e, por isso mesmo, muito mais difícil: melhorar aquilo que está ao nosso alcance.

Não podemos acabar com a miséria do mundo, mas podemos não humilhar quem nos pede ajuda. Não podemos curar todos os doentes, mas podemos aliviar o sofrimento de alguém. Não podemos resolver
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todos os dramas de uma família, mas podemos impedir que a nossa própria casa se transforme numa pequena filial do inferno. Não podemos dedicar muito tempo a todos, mas é possível ter algum tempo de qualidade com quem amamos. Não podemos corrigir todas as injustiças, mas podemos deixar de cometer algumas. Parece pouco para quem pretende gestos grandiosos, quer mudar a história, reformar a humanidade, denunciar os corruptos, ser a palmatória do mundo, desmascarar os hipócritas e salvar as instituições, mas às vezes não consegue fazer a coisa mais simples e revolucionária: tratar decentemente a pessoa que está diante dele.

É muito fácil amar a humanidade. A humanidade é uma abstração: não reclama, não discorda, não diz desaforos, não pede dinheiro emprestado, não dá calote e não deixa a toalha molhada sobre a cama. Difícil é amar o sujeito concreto, com nome, mau humor, defeitos, escolhas e opiniões diferentes das nossas. Esse, sim, é o desafio.

Façamos o bem que pudermos. Não o bem cinematográfico, com música de fundo e câmera lenta, mas o bem doméstico, anônimo, às vezes tão pequeno que ninguém percebe: o silêncio ou uma palavra decente quando todos distribuem insultos, uma ajuda sem propaganda, uma porta segurada,
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uma visita, um perdão, uma doação anônima. O mundo não será salvo por nós. E isso, em vez de ser deprimente, é libertador. Tira de nossas costas uma responsabilidade que nunca tivemos e devolve-nos aquela que realmente temos: a obrigação de não piorar o pedaço do mundo que nos coube habitar.

Procurar melhorar sempre não significa jamais cair. Significa não fazer da queda uma residência permanente. Significa ser amanhã um pouco menos arrogante, menos cruel, menos indiferente e um pouco mais capaz de reconhecer que o outro também está lutando contra seus próprios fantasmas e dificuldades. Uma conversa, uma ajuda, um gesto de delicadeza, um lanche pago, uma cesta básica doada, uma árvore preservada, uma flor regada, uma palavra que deixamos de dizer porque poderia ferir. É pouco? Talvez. É inútil? Certamente não. O deserto também é feito de incontáveis grãos de areia, e uma fonte pequena, quando insiste em correr, pode descobrir que não precisa transformar o mundo inteiro em jardim: basta fazer florescer o lugar por onde passa.

Deus espera de nós a façanha de consertar a humanidade. Para isso, Jesus já veio. A nossa parte é sermos melhores do que fomos ontem. E isso, convenhamos, já dá bastante trabalho.

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