Desconheço um escritor brasileiro que brinque mais com as palavras do que Guimarães Rosa , demonstrando um profundo conhecimento de no...

Oito palavras, em Guimarães Rosa

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Desconheço um escritor brasileiro que brinque mais com as palavras do que Guimarães Rosa, demonstrando um profundo conhecimento de nossa língua. Atenção para o que eu afirmo: desconheço, não é que não possa existir. E o sentido de brincar, não é o da ludicidade pela ludicidade,
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mas buscando uma expressividade maior, sempre guiado pela lógica da língua, consciente do quão grandes são as possibilidades que ela oferece, quando se transforma em linguagem escrita ou falada. Nesse aspecto, costumo sempre fazer a diferença, estabelecendo distâncias entre a gramática da língua e a gramática dos homens.

É a partir desse entendimento que gostaria de comentar oito palavras em Guimarães Rosa, especificamente em Grande sertão: veredas. Comecemos com um tom camoniano, trazendo à baila a palavra aspeito. Retomemos o seu aparecimento na narrativa (usaremos, como referência, a 22ª ed., São Paulo, Companhia das Letras, 2019, p. 45):

“Foi aí que o cavalo de Diadorim afundou aberto, espalhado no chão, e se agoniou. Eu apeei do meu. Medeiro Vaz estava ali, num aspeito repartido.”
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É o momento em que a travessia do Liso do Sussuarão passa a ser vista como um “indo sem volvência”, com o ambiente concebendo “silêncio”, e, produzindo “uma maldade – feito pessoa” (p. 41). No fundo, uma má ideia que os leva a um terreno hostil, inóspito, de caminhos ínvios, tendo partido de uma sugestão de Diadorim a Medeiro Vaz. O líder da tropa, visto e admirado por Riobaldo, como uma “fortaleza” (p. 29), “homem de outras idades, andava por este mundo com mão leal, não variava nunca, não fraquejava” (p. 33), “Tenente nos gerais” e “Par de França”, com Joca Ramiro (p. 39), agora aprecia com um aspecto dividido e hesitante, diante do erro cometido em ouvir Diadorim.

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Inverte-se, nesse momento, o tom camoniano da palavra aspeito, quando empregada para designar o perfil decidido e firme do Velho do Restelo, no final do Canto IV de Os Lusíadas (estrofes 94-104), instante em que o poeta, diante dos nossos olhos, faz surgir a figura imponente daquele personagem. Imponente e não menos vaticinadora, invectivando contra a empreitada lusitana de varar os “mares nunca dantes navegados”, quando o inimigo está às portas: “Um velho d’aspeito venerando” (estrofe 94, verso 1).

A palavra, hoje um arcaísmo, é retomada atentamente por Guimarães Rosa, por saber como a língua funciona. Assim como o português de Portugal renegou o fonema /c/ medial, tornando aspecto em aspeto, nos tempos atuais, o escritor mineiro sabe que na passagem do latim aspectum se tornou aspecto e, em seguida, aspeito, obedecendo aos ditames das leis fonéticas, em que os encontros /ac/, /ec/, /oc/ e /uc/ se ditongam naturalmente em /ei/, /oi/ e /ui/, como o demonstram lactem > leite; pectus > peito; noctem > noite; fructum > fruito. Quantas pessoas ainda falam fruito e fruita, em lugar de fruto e fruta?

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E a utilização de aspeito por Guimarães não se dá apenas pela consciência de como funciona a língua, mas pela observação do modo como as pessoas falam, sabendo que quanto mais distante dos mundos cosmopolitas, mas a linguagem se preserva. A reflexão que devemos fazer é no sentido de entender o uso que se faz da língua, na qual um termo, ao deixar de ser usado, passa ao seu passivo, sendo classificado como arcaísmo, mas pode, perfeitamente, continuar a ser empregado na oralidade. Que o digam aspeito, palavra que se encontra registrada na língua, desde 1344, e meizinha (p. 72),
Conhecedor de línguas, Guimarães Rosa não só emprega os termos que são comuns na linguagem falada, em determinadas regiões, ele os impregna com o saber que neles vem embutido.
este, uma corruptela de mezinha, documentado desde o século XIII, e ambos trazidos novamente ao circuito, em uma obra como Grande sertão: veredas.

A segunda palavra é criaturo. Está entre as minhas preferências esta tendência de Guimarães Rosa, devidamente documentada na língua, de utilizar, no masculino, quando atribuída a uma pessoa do sexo masculino, uma palavra que só apresenta como gênero o feminino. É o que se vê desde Sagarana (72ª ed. Rio de Janeiro, 2017), com sovino e revelio, ambos os termos presentes no conto “Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A volta do marido pródigo” (p. 87 e 117). Com relação a Grande sertão: veredas, podemos constatar madrasto (p. 17) por padrasto; trouxo (p. 20), por trouxa, e este excelente criaturo. A circunstância em que a palavra ocorre é singular. Voltando da frustrada passagem do Liso do Sussuarão, o bando de Medeiro Vaz, segundo Riobaldo, batizado de “os medeiro-vazes” (p. 39), está esfomeado e mata o que acredita ser um macaco, que o assa e começa a comê-lo.
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Os comensais, no entanto, por não acharem o rabo, desconfiam de que “o corpudo não era bugio [..], era homem humano, morador, um chamado José dos Alves”. Eis que surge uma mulher, chorando, afirmando ser seu filho, “criaturo de Deus, que nú (sic) por falta de roupa [...], por da cabeça prejudicado” (p. 46).

Ao que me parece, o termo criaturo assume uma importância maior do que se em seu lugar se utilizasse o usual criatura. Este soa mais genérico do que aquele, fixa-se no homem, resgata o sentido bíblico do primeiro ser criado. Criaturo não é uma criatura qualquer, mas um ser que, forçosamente, alguém haverá de criar, sentido que se encontra no particípio futuro do latim: creaturus, a, um. Conhecedor de línguas, Guimarães Rosa não só emprega os termos que são comuns na linguagem falada, em determinadas regiões, ele os impregna com o saber que neles vem embutido.

É ainda no âmbito do episódio do Liso do Sussuarão que aparece o terceiro termo: brumalva. Na imensidão do espaço sem referências – “no mesmo padrão de lugar, sem mudança nenhuma, nenhuma árvore nem barranco, nem nada, se viu o sol de um lado deslizar, e a noite arma do outro” –, a tropa se encontra perdida e, quase desfalecida. É quando Riobaldo questiona o seu interlocutor (p. 43):

“Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio, em desde que as barras quebraram, no seguinte, na brumalva daquele falecido amanhecer, sem esperança em uma, sem o simples de passarinhos faltantes? Fomos. Eu abaixava os olhos, para não reter horizontes, que trancados não alteravam, circunstavam. Do sol e tudo, o senhor pode completar, imaginado; o que não pode, para o senhor, é ter vivido. Só saiba: o Liso do Sussuarão concebia silêncio, e produzia uma maldade – feito pessoa!”
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O trecho ainda que numa linguagem bem característica não deixa dúvidas, no que diz respeito ao sofrimento passado pelo bando. O léxico aponta para isso – martírio, falecido amanhecer, sem esperança, passarinhos faltantes... –, mas brumalva aparece como a palavra-guia, palavra-síntese, determinante da falta de orientação da tropa, numa região em que “Água não havia. Capim não havia” (p. 43), na aglutinação da alva, a aurora, com a bruma, que a envolve, tudo escondendo e tudo desnorteando.

Fugindo ao desastre ou à derrota, no sentido latino dos termos, do Liso do Sussuarão, aparece a quarta palavra – pacificioso (p. 22). Riobaldo relata o único caso, que ele conhece, de alguém que se transformou por arrependimento. Também é o primeiro tiroteio que aparece na narrativa. Trata-se da transformação de pessoa ruim, para pessoa boa, na figura do jagunço
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Joé Cazuzo, “homem muito valente” (p. 21), diante da visão de Nossa Senhora – “Eu vi a Virgem Nossa, no resplendor do Céu, com seus filhos de Anjos!...” –, em meio ao tiroteio, no Ribeirão Traçadal. A visão de Cazuzo dá azo à tropa de se salvar do cerco que se fechava em torno dela.

Depois de uma digressão reconhecida por ele próprio – “Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma. Estou contando fora, coisas divagadas” (p. 22), Riobaldo, retoma a história de Joé Cazuzo, cujas visão e transformação foram respeitadas pelos cabras do Coronel Adalvino e pelos soldados do Tenente Reis Leme, que cercavam o bando. Cazuzo se transformou, desde então, no “homem mais pacificioso do mundo”.

A construção pelo método aglutinativo é das melhores. Pacificioso junta dois adjetivos, pacífico e cioso, revelando a nova natureza de Joé Cazuzo; de jagunço valente a um homem cioso em ser pacífico, “fabricador de azeite e sacristão, no São Domingos Branco” (p. 22), o que indica uma ação continuada, sentido muito mais forte do que se ele tivesse, simplesmente, se convertido em um homem pacífico.

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No quesito da aglutinação, nenhuma palavra ganha para a quinta: dextraviados (p. 45). Se na aurora, na tentativa de voltar da travessia do Liso do Sussuarão, a neblina, tirou o bando da rota – derrota – e a falta de um astro – desastre – quase o perdeu completamente, pois os jagunços ficaram sem os burros e quase sem mantimentos, o cair da noite os fez se orientar “por meio regular das estrelas” (p. 45), evitando que ficassem dextraviados. A formação do adjetivo revela uma refinada engenharia que conta com o prefixo latino extra, com o sentido de “fora de”, o substantivo via e o adjetivo latino dextra, significando “direita”, com a palavra formando o sentido maior de “retirados para fora da via direita ou do caminho reto”.

Estamos chegando ao final. Restam três palavras. A sexta é veredas, que se encontra desde o título do romance, aparecendo no texto, pela primeira vez, na p. 27, com o sentido de pequenos cursos d’água, e retomado na página 59:

“Aqueles foram meus dias. Se caçava, cada um esquecia o que queria, de de-comer não faltava, pescar peixe nas veredas...”

Agora, por aqui o senhor já viu: Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda. E algum ribeirão.”
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Muita gente ainda pensa no termo veredas como o caminho estreito, o desvio, por terra firme. O sentido em Guimarães Rosa é o de curso d'água, utilizado em Minas Gerais e no Centro-Oeste do Brasil, embora no Nordeste, como aponta o Houaiss, possa ter o sentido de “região na zona das caatingas com maior abundância de água e de vegetação, localizada entre montanhas”. Acredito que o sentido maior, que podemos apreender, é o de caminhos, em terra ou na água, de modo que se pense num grande sertão, cujas veredas proporcionam muitas possibilidades de vias alternativas. A se pensar assim, a nossa compreensão do grande sertão se estende para a vida, dura, áspera, difícil, adversa, mas que precisa ser vivida, enfrentada e conhecida, sem o que não haverá transformação. Veja-se o trecho seguinte, quando Riobaldo explica ao seu interlocutor a necessidade das minúcias de sua narrativa, implicando em digressões. Essa necessidade nos diz de uma geografia complexa do sertão, mas, metaforicamente, se aplica à nossa vida:

“E tanta explicação que dou, porque muito ribeirão e vereda, nos contornados por aí, redobra o nome. Quando um ainda não aprendeu, se atrapalha, faz raiva. Só Preto, já molhei a mão nuns dez. Verde, uns dez. Do Pacarí, uns cinco. Da Ponte, muitos. Do Boi, ou da Vaca, também. E uns sete por nome Formoso. São Pedro, Tamboril, Santa Catarina, uma porção. O sertão é do tamanho do mundo."
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O subtítulo veredas, se tomado com o sentido de caminho pela terra, nos dará a firmeza que precisamos buscar para continuar a viver; se tomado no sentido de curso d’água, nos oferece a fluidez que precisamos ter, se quisermos nos transformar. De qualquer forma, o que o título do romance sugere é que precisamos seguir na vida, se quisermos sair de onde estamos.

A sétima palavra é deerrar, verbo que aparece algumas vezes (“em lugares deerrados, p. 45), em Grande sertão: veredas, uma narrativa de viagem, em que caminhos e descaminhos são parte da experiência de viver. No retorno das notícias da morte de Santos-Reis, após as aventuras com o jagunço João Goanhá e a troca de tiros com soldados da polícia, Riobaldo e Sesfrêdo escoltam
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o alemão Vupes, mas não conseguem de imediato achar Medeiro Vaz e os demais jagunços, encontrando-os no Marcavão, e com o chefe à beira da morte. O percurso errático da dupla Riobaldo-Sesfrêdo é dito como “Só deerrávamos” (p. 59). Em primeiro lugar, observa-se uma ação não acabada, com o verbo no que se costuma chamar de pretérito imperfeito do indicativo. Na realidade, trata-se de um passado infectum do indicativo, marcando a ação contínua da errância – “Só deerrávamos” –, intensificado pelo "Só”. Em seguida, podemos constatar a existência de um sentido superlativo em deerrávamos, a partir da anexação da preposição de, atuando como um prefixo, cujo sentido é de afastamento, ampliando o significado da perda do rumo. Desse modo, para além da falta de orientação para um caminho específico, existe um distanciamento desse caminho, que se faz de modo errático, enveredando por vários outros caminhos, dificultando a travessia.

É aí que entra a oitava palavra: travessia. O que é a vida não senão uma sucessão de travessias, que precisam ser feitas, para que o homem se torne humano e deixe de lado o seu lado nem tão humano assim? Travessias jamais lineares, que obrigam o homem ao enfrentamento dos lisos dos sussuarões permanentes? Caminhos que apresentam lições, em cada via que se abre, mas que nem sempre são aprendidas?

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O final do romance é revelador, dando destaque para a palavra travessia (p. 434-435):

“E me cerro aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras.

Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.”
Um grande escritor, como Guimarães Rosa, permite ao leitor, que ainda tem a capacidade de se deleitar com a magia da linguagem, de fazer a sua travessia na leitura deste grande sertão, que é a vida, buscando as infinitas veredas, experimentando as deerrâncias, vencendo a brumalva, deixando de ser um dextraviado, para se tornar um criaturo de Deus, de aspeito pacificioso.

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