Foi aprovado esta semana, no Congresso, o fim da escala 6 x 1. Ou seja, a partir de dezembro, o trabalhador terá dois dias de descans...

Dois dias para o descanso

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Foi aprovado esta semana, no Congresso, o fim da escala 6 x 1. Ou seja, a partir de dezembro, o trabalhador terá dois dias de descanso, frente a cinco de trabalho, sendo que um caia no domingo. Não é pouca coisa. Um dia a mais para o lazer, para a convivência familiar, para ficar na rede, ir à praia, cuidar do jardim e/ou dos filhos. Tratando-se da classe trabalhadora, sabemos que esse lazer está difícil. A carestia e a luta pelo pão de cada dia não deixam brecha para consumir cultura, lazer ou simplesmente descansar. Mas, mesmo assim, é um ganho histórico para quem trabalha a semana toda.

Fiquei a lembrar da minha vida de professora universitária, com filhos pequenos. Teve um semestre em que a minha sexta-feira era lotada. Eu dava aula a manhã toda. À tarde, eu fazia uma disciplina da pós-graduação, até quase às 18 horas. E ainda tinha uma carga horária até as 22 horas. Quando chegava em casa, eu me sentia destruída e só pensava em dormir e ficar de pijama pela casa. Ninguém me convidasse para cinema, happy hour, conversas, que, depois de um banho morno, o que eu sonhava era com uma sopa, uma cama limpa e um lençol cheiroso. Eu podia ter isso.

Como na segunda-feira eu dava aula às 7 da manhã, o meu fim de semana era bem restrito ao sábado e domingo. Digo restrito porque não tinha nenhuma brecha a mais entre a sexta e a segunda. E eu queria tudo nesses dois dias. Eu queria dormir. Eu queria estar com os meus filhos. Eu queria ir à praia, porque era sábado. Eu queria uma cervejinha com caranguejo. Eu queria ir ao cinema. Eu queria encontrar as amigas. Eu queria sair, estar com meu marido. Tomar vinho. Eu queria ler os jornais e revistas. Eu queria assistir à novela. Eu queria almoçar tarde. Eu queria não fazer nada e ficar simplesmente vendo a banda passar. Eu queria! E sim! Tinha que trabalhar: corrigir provas, preparar aula, organizar a semana vindoura, separar textos para os alunos, dar pareceres para as reuniões de departamento etc. e etc. A conta não batia, e me lembro pensando: ah! Um fim de semana de quatro dias! Imagina eu, do alto da minha bolha, reclamando da vida e dos meus já dois dias conquistados.

Fico imaginando a vida de um trabalhador que acorda todo dia quando ainda é noite. Melhor, imagino a vida das mulheres trabalhadoras. Acordam cedo e lá se vão para um dia de trabalho. À noite, exaustas, têm que trabalhar o terceiro expediente. Fazer tudo sozinhas. Muitas vezes, são vítimas de violência doméstica, ou o marido chega bêbado em casa. E ela, silenciosa, a cozinhar de noite a comida do dia seguinte. Quem é que sabe o que é escala 6 x 1?!

Esta semana, conversei com a zeladora do meu prédio. Ela sofre da coluna. Cervical. Vive com dores e à base de remédios. Tem licenças por vezes. E fico a imaginar como ela dá conta dessa labuta de um prédio de 9 andares? Trabalho pesado. Muito agachamento. Peso. Movimento. Más posturas. Alimentação pobre em nutrientes. Alongamento nenhum. Exercício físico? Imagine, esse luxo! Horas de sono? Poucas. Muitas horas no trânsito. Sacolejos. E assim caminha a humanidade! Como orientá-la? E dizer que tem que se exercitar. Tem que levantar peso, fortalecer os músculos, dormir bem etc. Mas como ajudá-la, se o que tem que fazer vai de encontro às suas necessidades do trabalho, que é, sim, a causa de todas as dores?

Uma outra diarista que tive há muitos anos sentia a mão formigando. Fazia faxina em algumas casas. Senta, levanta. O seu corpo não deu conta. Deixou de ser lavadeira e faxineira. Dores e mais dores. Todas as dores e mais as do corpo sofrido. Uma outra, de tanto trabalhar sem descanso e por conta das agruras da vida, desenvolveu ansiedade grave. Não dormia. Não descansava. Não conseguia desacelerar. O pensamento correndo numa velocidade maior do que os seus dentes podiam aguentar. Rangiam descontroladamente. Ficaram cerrados. Trincados. Impotentes.

Eu, com as minhas dores lombares, sei que tudo é o movimento e a fisioterapia. Profissionais a que só poucos têm acesso. Sim, a caminhada é gratuita. Mas quem é que consegue chegar em casa depois de um dia exaustivo e ir caminhar em calçadas escuras e quebradas, em nome do equilíbrio, do sacro ou do piriforme?

Vou à academia e vejo lá muita gente se exercitando. Coisa nova esse pensamento. De algumas décadas para cá. E que bom que quem pode se cuida. Mas fico pensando na moça do meu prédio que tem a coluna doída. O pescoço travado e poucas perspectivas de melhorar.

Hoje, como sou privilegiada na vida e por ser aposentada, tenho uma liberdade nunca vista. Usufruo dos meus dias como quero. Me alongo. Levanto peso. Vou para lá e para cá. Durmo as horas de que preciso. Me espreguiço. Resolvo se vou à praia, fico em casa ou leio. Tudo à palma da minha mão. Minha saúde, meu tesouro. E não tenho somente dois dias de descanso, tenho muitos. Agradeço. E aplaudo a derrubada da escala 6 x 1, para que os trabalhadores possam descansar um pouco. Só um pouco. Mas possam.

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