Há uma certa ingenuidade em acreditar que, em algum lugar da vida, existirá alguém que cuidará de nós melhor do que nós mesmos. Ap...

Própria vida

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Há uma certa ingenuidade em acreditar que, em algum lugar da vida, existirá alguém que cuidará de nós melhor do que nós mesmos.

Aprendemos desde cedo a esperar. Esperamos pelos pais, amigos, pelo amor, filhos, por alguém que perceba quando estamos cansados, quando precisamos de um abraço, quando alguma
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Foto: M. Magners
coisa dentro de nós está desmoronando silenciosamente. E, algumas vezes, essas pessoas aparecem. Há quem nos estende a mão, quem fica ao nosso lado um pouco mais de tempo, quem divide nossas dores e comemore nossas alegrias. O amor existe, a amizade existe, a solidariedade também.

Mas há uma verdade que a vida, com o passar dos anos, insiste em nos ensinar: ninguém conhece completamente as nossas necessidades, medos e limites. Por isso, cuidar de si não é egoísmo, é responsabilidade. É perceber que o corpo dá sinais antes de adoecer, que a alma pede descanso antes de se cansar por completo, que certas relações nos diminuem antes de nos destruírem e que há caminhos que seguimos apenas porque temos medo de decepcionar alguém.

Cuidar de si é aprender a dizer não. É sair de onde não somos respeitados. É não aceitar migalhas emocionais apenas porque temos fome de afeto. É procurar ajuda quando necessário, fazer exames, descansar, alimentar-se melhor, cultivar amigos, proteger o silêncio, preservar a dignidade e, sobretudo, não abandonar a própria vida enquanto
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Foto: A. Ambience
esperamos que alguém venha nos salvar.

Talvez uma das maiores maturidades seja compreender que podemos amar profundamente alguém sem entregar a essa pessoa a responsabilidade pela nossa felicidade. Porque ninguém consegue morar dentro de nós. Ninguém sabe exatamente onde dói. Ninguém escuta todos os pensamentos que travamos durante a madrugada, e também não conhece todas as batalhas que vencemos em silêncio.

Precisamos aprender a ser, para nós mesmos, aquela pessoa que tantas vezes esperamos encontrar nos outros. Precisamos olhar para nós com a mesma compreensão que oferecemos aos amigos. Perdoar nossas próprias imperfeições. Reconhecer nossas conquistas. E, principalmente, não esperar a solidão para descobrir a própria companhia.

Existe uma diferença enorme entre estar sozinho e estar abandonado.

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Foto: M. Puscas
Às vezes, estamos sozinhos porque a vida nos colocou diante de nós mesmos. Esse encontro é necessário. É quando percebemos que podemos sentar diante do espelho sem precisar inventar uma versão mais bonita de quem somos. Podemos simplesmente dizer: “Eu estou aqui. E não vou me abandonar.” Talvez seja essa a forma mais profunda de amor-próprio.

Não significa fechar a porta para os outros. Ao contrário. Quem aprende a cuidar de si consegue amar melhor, porque já não transforma o outro em muleta, salvador ou remédio para suas próprias ausências. A companhia de alguém passa a ser escolha, não necessidade. O abraço passa a ser encontro, não sobrevivência. E o amor passa a ser liberdade, não dependência.

No fim, a vida nos pede apenas isso: que não sejamos estranhos para nós mesmos. Porque pessoas podem chegar e partir. Amores podem começar e terminar, e amigos podem permanecer ou tomar outros caminhos. Os filhos crescem, o tempo muda nossos corpos e nossas certezas e nós continuamos conosco.

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Foto: T. Miroshnichenko
Do primeiro suspiro ao último instante, existe uma única pessoa que estará presente em todos os capítulos da nossa história, nós mesmos.

Por isso, antes de esperar que alguém cuide de você, aprenda a cuidar de si, e não porque ninguém possa amar você, mas porque ninguém jamais poderá ocupar, por inteiro, o lugar que é exclusivamente seu, dentro da própria vida.

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