Os belos fractais inundaram as manchetes nas décadas de 80 e 90. De tão entusiasmada pelo tema, quando comprei uma pequena lancha, registrei-a na Capitania dos Portos como Fractal. Imaginei-a do alto, vista do espaço, a pequena embarcação flutuando como um fragmento no meio da imensidão do mar. Não se pode enfrentar uma grande onda de frente, nem se pode posicionar de costas para ela, senão seremos
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derrubados; o barco vai virar. O melhor é sair costurando na diagonal, movimentando-se como uma linha tangente, que vai circulando de forma espiralada, surfando sobre as ondas. Assim é a sabedoria dos moluscos e dos pescadores experientes nos mistérios marítimos e estelares.
Apesar do meu entusiasmo com os fractais, todos os que viam o nome pintado no casco da minha embarcação ou escutavam o nome Fractal ficavam intrigados. O nome, para mim, tinha tudo a ver com o modo como me sentia em alto-mar. Um ínfimo fragmento no meio das águas. Uma gota de uma onda perambulando pelo movimento espiralado das ondas. Se o pessoal da marina tivesse lido ou escutado sobre a Teoria do Caos, se estivesse a par do conceito denominado pelo matemático Mandelbrot, não teria se assustado nem debochado do nome do barco.
Uma autossimilaridade que se repete entre as micro e macroescalas se faz presente na concepção do conceito de fractal. Uma teoria fascinante que, na verdade, teve seus primórdios desde os tempos do já citado Hermes Trismegisto, que já falava de uma equivalência entre os micro e macrossistemas. Ele comentou no seu Caibalion, dentro
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da descrição das sete Leis Herméticas, destacando novamente esse Princípio da Correspondência, onde “O que está em cima é como o que está embaixo”. Assim, as leis e os padrões se refletem uns nos outros, visto que no universo tudo está interligado.
Na medida em que fui aprendendo a me movimentar pelo mar, cada vez mais confirmava isso em situações como a de ter que surfar com o barco numa grande onda. Assim continuava, sempre lembrando dos fractais quando conduzia o barco, tangenciando as ondas, imitando seus movimentos espiralados, atravessando-as diagonalmente. Se observarmos os surfistas, esse seria o exato movimento sobre as ondas. A grande onda surfa sobre o mar de maneira espiralada.
Os búzios espiralados, os mais perfeitos que encontramos, são, assim, o melhor exemplo da autossimilaridade: o ser molusco, no processo de criação gradativa de sua casa-concha, vai agregando os materiais calcários encontrados no mar e nas areias revoltas, repetindo, assim, os padrões e os movimentos espiralados das águas e dos astros no firmamento. Inúmeros são os exemplos da universalidade de equivalências nos padrões repetitivos de micro e macroescalas.
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O mais simples desses padrões refere-se à imagem da árvore, qualquer uma delas. Quando observamos uma simples folha de uma planta, vemos como nela está embutida toda a configuração macro da planta ou árvore em sua totalidade. No desenho de uma simples folha, vemos toda a configuração da árvore com seus galhos e também a equivalência da copa da árvore na linha de contorno da folhinha. A estrutura de seu tronco e ramificações também está impressa na folha.
Fonte: cswoods.com
A experiência no mar foi completamente imersiva na Teoria do Caos. Ampliou literalmente meus horizontes. Não tem como não se sentir um fragmento, uma gota viva de mar, entendendo-se como uma parte ínfima, mas, ao mesmo tempo, pertencente a um todo, um mar cósmico. Ampliando, assim, um pouco a percepção das leis da natureza que nos regem e da qual somos parte integrante.
Do livro Armário de Memórias, crônicas de sonhos e de desassossegos, disponível na Livraria do Luiz