Não éramos próximos – nem distantes. Da mesma geração e da mesma aldeia, então ainda pacata, não tinha como não nos cruzarmos em algu...

Vai fazer falta

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Não éramos próximos – nem distantes. Da mesma geração e da mesma aldeia, então ainda pacata, não tinha como não nos cruzarmos em alguma esquina, em algum evento. Eu, reconhecendo o sempre extrovertido filho de Dona Creusa e doutor Adrião; ele, geralmente passando ao largo do anônimo que sempre fui. Quando cabia, cumprimentávamo-nos de passagem – e só. Mas isso
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Marcos Pires
não o excluía do meu radar de pessoense razoavelmente atento aos personagens e acontecimentos da gentil província. Afinal, como ignorá-lo, se ele sempre aparecia sob os holofotes, de uma maneira ou de outra? Quem o desconhecesse, nativo não era, com certeza.

Marcos Pires, ao longo da vida, assumiu variadas personas. Começou como playboy, por temperamento e condições materiais, digamos assim, e terminou como cronista, carnavalesco e figura municipal incontornável. Entre uma coisa e outra, quando as vacas emagreceram um pouco, foi advogado atuante – e exitoso, para surpresa de muitos que não conseguiam enxergar no antigo bon vivant o diligente causídico que se tornou. Uma trajetória humana ascendente, sem dúvida, e sempre marcada pelo bom humor, o alto astral, o otimismo, enfim, joie de vivre, como bem dizem os franceses.

Espirituoso, foi um cultivado causeur, daqueles que dominavam mesas de bar e de restaurantes, sem falar naquela cativa da Padaria Bonfim, no café da manhã, que agora ficará vazia de sua espaçosa presença. Segundo diziam, apreciava esse protagonismo e ficava meio ciumento quando encontrava concorrência pela frente. Temperamentos exuberantes são assim, não gostam de sombra.
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Marcos Pires
Contaram-me que certa vez adentrou um salão cujo palco já estava ocupado por alguém muito falante. Recusou-se a fazer parte da plateia do outro, foi discretamente para uma mesa mais distante e de lá começou a atrair, aos poucos e sem nenhum esforço aparente, os espectadores vizinhos; resultado: não tardou a ser ele o ator principal e exclusivo, tendo vindo até mesmo o astro concorrente girar em sua órbita gravitacional. Generoso, principalmente com os mais simples, quando recebia polpudos honorários advocatícios, distribuía notas de cem reais aos garçons de certo restaurante da cidade que frequentava, contou-me, com um sorriso largo no rosto, um dos beneficiados. Irreverente, mas sem ofender ninguém diretamente, anunciava verdades às vezes incômodas e convidava à reflexão com frases inteligentes e provocativas. Estas, algumas das facetas desse homem múltiplo e solar que nos deixou há poucos dias.

Deve ter puxado a Dona Creusa, sua mãe, valorosa mulher de muita luz e alegria, que marcou presença na história da aldeia na segunda metade do século passado, como sinônimo de empreendedorismo empresarial, mas também de ação social em favor dos mais desamparados. Dona Creusa, sempre risonha e prestativa nos altos e baixos da
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Adrião e Creusa Pires
>montanha-russa da vida. Já doutor Adrião, reservado até o silêncio, preferia os bastidores, a sombra dos coadjuvantes, mesmo sendo ele, no caso, também um protagonista indiscutível.

Bom contador de histórias e estórias, Marcos resolveu, além de contá-las oralmente, escrevê-las, e aí nasceu o cronista regular que se tornou até o fim, principalmente no portal Ambiente de Leitura Carlos Romero. Um cronista que privilegiava o humor e o pitoresco em seus textos, neste ponto assemelhando-se um pouco a seu colega de ofício Luiz Augusto de Paiva. No meio de tudo, revelava, aqui e ali, fiapos da filosofia que guiava sua vida aventurosa, alguma coisa das lições que aprendera nos píncaros e nos subterrâneos. Nos últimos tempos, apresentou a leitores e ouvintes o “nadismo”, ou seja, a arte de não fazer nada sem se tornar um ocioso profissional. Em outras palavras, fazer nada, sim, mas fazê-lo com elegância e criatividade, porque, de não fazer nada simplesmente, qualquer um é capaz. Espirituosidades que eram suas…

Tolhido precocemente, de forma quase repentina, surpreendeu a muitos a sua partida. Os mais e os menos próximos julgavam-no fadado à longevidade, esse prêmio que a vida costuma dar aos mais alegres e aos menos tensos, como que compensando-os pelas renúncias
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Marcos Pires
inumeráveis na exigente competição do dia a dia. Mas o tamanho de nossa existência neste mundo, sabemos, ou é fruto de uma mera loteria, também chamada acaso, ou de mistérios que estão além de nossa limitada compreensão. De qualquer modo, não há o que fazer, salvo aceitar, com a resignação possível a cada um.

Creio ser bastante claro que ele saiu da vida humanamente maior do que entrou. Do playboy juvenil ao cronista e agitador cultural da maturidade, passando pelo imprevisto advogado de sucesso, vê-se um amadurecimento e uma evolução existencial muito nítidos. Uma ascensão pessoal, como disse, que talvez não tivesse ocorrido sem as provações econômicas que sofreu. Não sei se ele reconhecia isso, mas não duvido que sim. Na vida, mistério profundo, não raro é preciso perder para ganhar.

Escrevi no título que ele vai fazer falta. E vai mesmo. Nossa desfigurada aldeia cada vez menos se reconhece nos seus antigos e emblemáticos habitantes, que vão aos poucos desaparecendo. Devagar, o anonimato típico das metrópoles toma conta do cenário humano da urbe. E é exatamente aí que a ausência do causeur, do cronista e do criativo folião do Baratona será sentida. A aldeia perceberá que naquela mesa está faltando ele.

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