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Nossa sala de visitas


U
m dia desses, fui visitar a Livraria do Luiz, hoje ampliada e com cara de primeiro mundo, e passei pelo nosso tradicional Ponto de Cem Réis, que valorizou-se muito com a reforma que o nosso governador de ouro, Ricardo Coutinho, fez naquele recanto que é o coração da cidade. Mas, o tempo e a falta de cuidado já estão deteriorando-o novamente.

O Ponto de Cem Réis tem que voltar a ser nossa sala de visitas. Uma praça para o povo conversar e descansar. Já deixou de ser parada de bonde, praça de automóveis de aluguel, local de encontro de amigos e gente da alta sociedade.

Sim, por falar nisso, cadê o advogado Mario Gama, vestido de linho branco e que dava expediente, ali, como advogado e vereador? Cadê aquele príncipe da cortesia, advogado Severino Ayres, rodeado de amigos, na esquina do prédio Guilherme da Silveira. Cadê o advogado Renato Bastos, cadê?... Ah, como o nosso antigo Ponto de Cem Réis reunia gente ilustre: advogados, juízes, desembargadores, jornalistas, escritores, homens de negócios.

Aquele logradouro era, como já disse, a nossa sala de visitas. Dali chegavam grandes notícias e grandes boatos. E eu estou me lembrando, agora, da Livraria Acadêmica, do advogado Geraldo Freire, ponto de encontro de estudantes e professores de Direito.

A verdade é que a cidade esteve muito contente com a restauração do seu Ponto de Cem Réis. Mas, agora é hora de tratar de recuperá-lo mais uma vez e de mandar pintar os prédios ao seu redor, a exemplo do prédio da antiga "Nações Unidas", do Paraíba Palace, e o que fica defronte dele, não é, meu amigo Petrônio Souto?…

Veio agora à memória uma frase de Ascendino Leite no livro em que ele estreou na literatura - “Minha Cidade”: “O Ponto de Cem Réis é o espelho da vida da cidade”. Será que o prefeito Luciano Cartaxo, que vem fazendo um belo trabalho na Av. Beira-Rio, tem andado por nossa sala de visitas?...

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Prosaísmo no campo

Ah, essa última viagem para a Islândia!... Foi uma viagem terapêutica, pois só em contemplar a paisagem, o campo, as ovelhas pastando, a gente sentia uma profunda paz interior. E sabe quem era o motorista que estava me levando para conhecer essas paisagens? Meu filho Germano. Ainda bem que lá a mão é pela direita, pois lembro que ri muito ao vê-lo dirigindo o veículo pela “contra-mão” na Austrália, Inglaterra, Escócia, Nova Zelândia, ah galego danado.

Mas vale a pena ficar vendo os campos correndo para trás. Vale a pena olhar as ovelhas sempre de cabeça baixa, comendo o seu capim, numa tranquilidade que pede um concerto de Mozart ou um adágio de Bruckner.

E por falar em música, não é que o rádio do carro estava transmitindo um concerto de Rachmaninoff? Como o europeu valoriza a chamada música clássica! Tudo questão de educação. É preciso, desde menino, ir-se acostumando com as grandes partituras. O meu outro filho, Carlos, há muito tempo que vem estimulando os filhos para os concertos e sinfonias. O neto primogênito, desde garotinho, já sabia distinguir o estilo mozartiano do barroco. Que beleza!

Contemplando as ovelhas branquinhas, lá longe à beira-mar, pois na Islândia há praias e mais praias cheias de ovelhas pastando, vem-me esta indagação: por que elas nunca erguem a cabeça? Passam o tempo todo com o rosto no chão, indiferentes à paisagem ao derredor, alheias à beleza do céu azul, preocupadas e ocupadas apenas em comer? E isto me lembra certas pessoas que passam a vida toda sem olhar para as belezas da vida. Não sabem contemplar os lírios do campo, um jardim, um pôr de sol, um mar, um vôo de pássaros. Passam a vida mergulhadas num prosaísmo de dar pena.

Deixemos, porém, as ovelhas, que nos alimentam de leite e queijo, e continuemos a crônica. A verdade é que o homem precisa, vez por outra, transcender. Não apenas olhar para baixo ou para trás. Há necessidade de olhar de lado ou para cima.

Voltemos àquela deliciosa viagem. A temperatura estava amena, a estrada é um prato, o trânsito flui sereno e silencioso, com muito poucos carros, Afinal, esse país só tem 300 mil habitantes, imagine só...

Cada vez mais estou convencido que precisamos da Natureza em nossa vida. Precisamos de mares limpos, de avenidas arborizadas, de canteiros e jardins, inclusive os botânicos, de praças floridas, de parques, de florestas, onde possamos esquecer o prosaísmo do cotidiano.

E eis que a próxima cidadezinha islamdesa já está dando sinal de sua presença e esqueçamos as ovelhas. Confesso que eu gostaria que esta viagem se prolongasse. Nada como uma boa estrada para a gente esquecer o tempo e sonhar. Aliás, o sono é uma excelente viagem que fazemos todos os dias, desde que não haja pesadelo.

Nossos companheiros de viagem, a Alaurinda e Davi, já sabem tudo sobre a Islândia com sua bucólica arquitetura, seus campos de musgos, suas cachoeiras, não esquecendo o frio, que agora aumentou. E viva a vida! Viva a Islândia e suas ovelhas, que só olham pra baixo, feito muita gente...

N inguém amou mais esta nossa capital, a antiga Felipéia, também chamada Frederika, do que o escritor e poeta Ascendino Leite, que chegou a ...

Paraibanidades...

Ninguém amou mais esta nossa capital, a antiga Felipéia, também chamada Frederika, do que o escritor e poeta Ascendino Leite, que chegou a escrever um belo e livro intitulado “Minha Cidade”, uma espécie de declaração de amor à terra que nasceu à beira de um rio e foi parar no mar de Tambaú, onde ainda se vê o belo e imponente Cabo Branco, que, como se informou, está sendo corroído pela erosão.

Outro grande apaixonado por João Pessoa foi o genial lírico, poeta Perillo D´Oliveira, autor de “Caminhos Cheios de Sol”. Perillo amava tanto esta nossa capital que chegou a compor uma oração, que começa assim: ”Ave Cidade, cheia de graça! O meu espírito é contigo”.

Merecem ser citados também o nosso Petrônio Souto que, segundo me contam, está enchendo a Internet com lindas fotos da cidade antiga, contagiando todos com o saudosismo fotográfico. Sem esquecer o poeta José Nunes, colunista deste jornal, que, há poucos dias presenteou os leitores com suas reflexões acerca de uma pau d'arco de seus caminhos.

Eu nasci em Alagoa Nova, um verdadeiro sítio de mangueiras, segundo o poeta e historiador Eudes Barros. Mas dela saí com a idade de quatro anos. Deixei a mãe-terra orando para mim.

Mas nossa capital das acácias cresceu, sofisticou-se. Aí apareceram os grandes edifícios, sedentos de espaço e altura, e com nomes estrangeiros. Ora vejam estas denominações: “Maison de France”, “Mediterranée”, “Palazzo Milleluci”, “Milanesi”.

E não houve antes uma lei limitando a expansão e o adensamento dos espigões, a exemplo da lei que limitou a altura dos edifícios à beira-mar, através da brilhante iniciativa do governador João Agripino. Em Tambaú e Manaíra, parece que todos aqueles prédios caíram de paraquedas, aos montes, matando as árvores, sufocando o ar, impedindo o vento...

E o paraibanismo, o amor à terra, foi desaparecendo. Cadê denominação como edifício Manaíra, Sanhauá, Acácia, Ipês, Flamboaiã, Tambaú?... Só quem está dando uma lição de paraibanismo, que merece palmas de todos nós, são as nossas emissoras de TV. Incrível como isso aconteceu. Ei-las: TV Cabo Branco, TV Sanhauá, TV Tambaú, TV Correio da Paraíba, TV Miramar, TV Manaíra.

A verdade é que João Pessoa depois que nasceu, lá na cidade baixa, não satisfeita com a chegada na praia de Tambaú, onde há o mar e a praia mais bonitos do mundo, achou de subir o Planalto do Cabo Branco, onde a cultura está encontrando espaço, com a Estação Ciência, Estação das Artes. E as festas de Natal e Ano Novo acendem, cada vez mais, a curiosidade dos turistas. Ainda bem que o final da nossa mais bonita avenida, a Epitácio Pessoa, deixou de ser estacionamento de carro e barracas para comilança e bebedeira...

Vou passeando de carro pela praia e, olhando o mar, me lembro que o Dia de Iemanjá é nesta terça-feira. O mar me lembra a santa dos umbandi...

Trump e Iemanjá

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Vou passeando de carro pela praia e, olhando o mar, me lembro que o Dia de Iemanjá é nesta terça-feira. O mar me lembra a santa dos umbandistas, pois é nele que são jogadas flores e outras oferendas simbólicas. Eis aí um poético e religioso espetáculo, quando o mar se transforma num imenso e perfumado jardim aquático. Esta noite, logo mais, virão de vários lugares ônibus cheios de umbandistas para o Culto, na praia de Tambaú. Em sua maioria, mulheres vestidas de branco, conduzindo nas mãos buquês de flores.

Flores, flores, flores, e jamais bombas que destroem e matam. Gostaria que o presidente Trump viesse aqui e visse homens e mulheres cantando e jogando flores nas águas do mar. Os umbandistas apenas cantam. Nada de sermões, nada de discursos, nada de ataques a outras religiões, nada de ameaças de um inferno eterno. Nada de castigos, nada de satanás na boca. Os umbandistas apenas dançam e cantam. Transformam a praia num imenso templo, cuja abóbada é um manto salpicado de estrelas silenciosas.

Culto à Iemanjá! Gosto desse nome. Nome indígena. Ainda não vi uma avenida com tal denominação. Mas, bem que merecia.

Continuo meu passeio com os olhos se alimentando de paisagens e o coração cheio de muito amor e boas reflexões: Bem-aventurada a religião que pacifica em vez de agredir, que soma em vez de dividir, que compreende em vez de condenar, que não mata os que discordam dela, que prega o amor e não o ódio. Disse Jesus uma frase que deveria estar pregada em todos os templos cristãos. "Os meus discípulos se conhecerão por muito se amarem".

Ouçamos o canto daquelas mulheres vestidas de branco, dançando e recebendo espíritos sob um céu cheio de estrelas. Respeitemos o culto dos nossos irmãos umbandistas. Que eles cantem, dancem, elevem os braços para o céu, que as estrelas, lá no alto, estarão sorrindo para eles o seu sorriso de luz!


Carlos Romero é cronista e patrono do ALCR