O século XV apresenta na história da França, um período dificilmente a ser superado por uma época tão conturbada e não menos dramática, co...

Reflexões na Semana Santa


O século XV apresenta na história da França, um período dificilmente a ser superado por uma época tão conturbada e não menos dramática, com seu cortejo de surpresas trágicas, violência e crimes, às vezes também, com atos nobres e grandes feitos. Inicialmente, a França retrocedeu após o reinado reparador de Carlos V o Sábio nos desastres da Guerra dos Cem Anos, governando a França durante 16 anos (1364-1380), 11 anos depois do auge da peste negra entre 1346 e 1353, uma das maiores pandemias da história humana, resultando na morte de 75 a 200 milhões de habitantes da Europa e da Ásia. Era o filho mais velho de João II o Bom. Posteriormente sob o trono de um rei louco Carlos VI (1368-1422), sucedendo o pai quando tinha apenas doze anos, com um governo aviltado por um período de 42 anos. Foi rei da França a partir de 1380 até a sua morte em 1422. A regência era estabelecida por seus tios os duques de Bourbon, Anjou, Berry e Borgonha, todos eles engajados na luta pelo poder. Paris, ensanguentada pelos Armagnacs e Borguinhões. Esses dois grupos constituíam os dois partidos oponentes que travaram uma guerra civil, na França paralelamente à Guerra dos Cem Anos. Esse conflito envolvia, de um lado, o Duque da Borgonha, João sem Medo e, do outro Luís, duque de Orléans. Desde 1393, quando Carlos VI enlouquecera, a França era governada por um conselho de regência presidido pela rainha Isabel. A guerra civil entre os Armagnacs e Borguinhões teve início em 23 de novembro de 1407, quando o Duque d'Orleans foi assassinado, por ordem de João sem Medo. A batalha decisiva de Azincourt ocorrida na Guerra dos Cem anos em 25 de outubro de 1415, dia de São Crispim, no norte da França, resultou em uma das maiores vitórias inglesas durante a guerra. O local onde a luta aconteceu foi perto de Artois, cerca de 40 km ao sul de Calais. A vitória de Henrique V da Inglaterra, contra um exército francês numericamente superior, foi um golpe duro para a França e marcou um período sombrio para o país em meados dessa guerra. O rei da Inglaterra coroado rei da França em Notre Dame de Paris. É quase o fim da França.

Revendo o resumo que escrevi acima, lembrei-me da atual situação no nosso Planeta Azul. Uma nova e moderna pandemia transformada em uma guerra brutal, devastadora e cruel, contra um microscópico inimigo que ninguém vê, chamado de coronavírus, que tem a capacidade de matar em pouquíssimo tempo, milhares e milhares de pessoas. Políticos, cientistas, médicos de todo o planeta, desorientados, sem saber o que fazer contra tão potente inimigo. Mais de 100 mil mortes em todo o mundo. Países considerados mais desenvolvidos e ricos, como os Estados Unidos, com um número muito maior de mortos do que seria esperado.

Considerando nosso país de dimensões continentais, e imensas desigualdades sociais e econômicas, não podemos estar otimistas nesta guerra. Quão devastada estará nossa população e nossa economia nos anos que se avizinham? Mais de 30 milhões de pessoas sem direito à água potável e 100 milhões de habitantes sem acesso a esgotos sanitários (TRATA Brasil 2018); pelo menos 12 milhões de pessoas com mais de 15 anos analfabetas (IBGE 2019) e IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de 0,761 compilado pela ONU em 2018, quando o país ficou em 78o lugar, no mundo.

Comecei então a comparar a situação atual do Brasil com a França do século XV. A peste negra e a pandemia atual do coronavírus. Os Armagnacs e Borguinhões com sua guerra civil e os bolsonaristas e petistas a estimular ódio mortal entre eles, sem a mínima ideia do que poderá ocorrer devido a esse comportamento leviano. Políticos dos mais variados partidos exigindo do governo todo tipo de recursos para seus objetivos pessoais, sem nenhuma preocupação com o erário público e com a difícil situação econômica que grassa no país. O governo federal contra os governos estaduais e municipais. Dezesseis anos de governos anteriores com o maior índice de corrupção desde o descobrimento do Brasil. Os três poderes, cada qual interferindo em áreas fora de suas jurisdições, desprezando totalmente a população brasileira. Grande maioria dos internautas a disparar “fake news” pelos WhatsApps entre si, sem nenhuma preocupação com o prejuízo que essas falsas mensagens poderiam causar ao Brasil. O rei louco Carlos VI na França e nosso presidente atual, totalmente desequilibrado, com seus instintos ditatoriais, continuando a inflamar o país diariamente, indo contra tudo e contra todos, ameaçando com seu lápis-tinta Bic, os ministros escolhidos por ele próprio, pensando apenas nas eleições de 2022.

Depois de tudo que passou, finalmente, a recuperação da França. Joana d'Arc; o duque de Orléans livre; uma série de vitórias; a coroação do rei da França na Catedral de Reims; a pátria francesa quase restaurada; enfim, o duque Felipe de Borgonha, mais poderoso que o rei da França, árbitro entre as duas nações divididas pela luta centenária, lembrando que era filho da França, finalmente vendendo caro o Tratado de Arras, quando foi firmado um acordo entre esse país, o Ducado da Borgonha e a Inglaterra em 1435, na cidade francesa de Arras, no final da Guerra dos Cem Anos, sua adesão definitiva à aliança francesa e à paz. Tratado esse que representou enormes fracassos para os ingleses e grandes vitórias para a França.

Espero que após vencermos esta terrível pandemia, com bom senso e solidariedade para com nossos irmãos mais desassistidos, nosso querido Brasil possa se equilibrar economicamente nos próximos anos. E que os investimentos prioritários a ser efetuados sejam direcionados principalmente para as áreas da saúde, educação e segurança, e que estas sofridas lições nos levem a um país muito mais igualitário e justo.

Sérgio Rolim Mendonça é Engenheiro Sanitarista e Ambiental (João Pessoa-PB)
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