Nunca me libertei da primeira impressão que uma antiga folhinha do ano me marcou com a estampa de um “prado bem verde mesclado de cores de ...

Sevilha e Ingá

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Nunca me libertei da primeira impressão que uma antiga folhinha do ano me marcou com a estampa de um “prado bem verde mesclado de cores de predomínio amarelo que ornavam um lago azul, diferente da água barrenta do pequeno açude lá de casa.” Essa impressão me rendeu a única página de que não me arrependi neste meio século de literatice. Marcos Tavares não imagina o instante feliz que vivi quando a apontou, sério, num rompante dos seus, para integrar a coletânea de autores paraibanos editada por iniciativa do professor Neroaldo Pontes quando secretário de Educação.

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Descobri, muito depois, que a paisagem do meu encantamento pertencia a um pintor de Sevilha, aluno de Velázquez, e que teve uma infância sofrida entre as camadas humildes da sociedade sevilhana. Um pintor amoroso do século XVII que apurava, cedendo ao mundo e a suas criaturas o ideal de beleza de que a realidade da maioria, na luta para sobreviver, é quase sempre sonegada

Fui atrás e nisto a Internet é prodigiosa: desencantou não só o original reproduzido na folhinha dos anos 1940, lá do meu sítio, como quase toda a arte “do mais popular dos pintores da Contrarreforma espanhola”. Li assim, com esta sabedoria toda, num pequeno álbum português de obras primas editado, há anos, pela Verbo de Lisboa.

Na minha visão, no baralho de impressões colhidas em centenas de reproduções vistas ao acaso ou de forma intencional, não houve criação antiga, moderna ou contemporânea que desbaratasse dos meus modelos aquele realismo encantado desse pintor de meninos e de cordeiros, meninos como João Batista, tocados pela pureza da idade e ainda indenes às surpresas do mundo.

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Tudo me vem à pena por conta de uma fotografia com as cores do agreste ingaense, subitamente colada à memória da estampa do espanhol, a foto publicada num caderno de turismo de A União, há coisa de um ano, agora ressurgida numa remexida na gaveta dos descartes.

O fotógrafo, que não assina, alcançou um momento ou um ângulo em que só falta a pureza natural do menino de Murillo, assim mesmo lembrado pelo caminhozinho rural feito aqui para os seus passos
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ou pela educação do gado obediente a uma cerca que não cerca coisa nenhuma ou ainda pelo contraste do verde juazeiro com o flamboyant desfolhado e cinzento. Em síntese, pela harmonia da paisagem agreste em seus contrastes de luz e de cores. Ah! Flávio, ah Zé Lucena, ah que inveja vocês me atiçam!

O autor da foto tão anônimo quanto o da paisagem natural. Sendo que, naquela hora, decidi atribuir-lhe uma assinatura, a de Bartolomé Esteban Murillo, segundo o Google, reencarnado num click apanhado, por contraste, neste agreste que sobra para naturezas sensíveis como a do Marcos Tavares que nos deixou neste primeiro junho triste de minha vida.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL
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