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Mamãe, eu adolesci

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Isso mesmo. Estou com a idade mental dos meus 15 anos. Ando a rir em kkk e a colar figurinhas em fotos, vídeos e mensagens que hoje chegam, todo santo dia, às telas do computador e do smartphone.

Tenho, aliás, com este último aparelhinho uma relação absurdamente desvantajosa. Enquanto ele me surge cada vez mais smart eu me quedo sempre mais burro.

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Faltem-me palavras justas e precisas para a reação emocional e imediata a um comunicado, uma crônica, um poema, uma paisagem e eu logo pinço um coraçãozinho, mãozinhas que aplaudem, carinhas risonhas, ou chorosas, de um desses tabuleiros eletrônicos à pronta escolha do freguês, conforme seja o assunto.

Foi o neto Miguel que, em seus sete anos, me trouxe o verbo. “Vovô, quando eu vou adolescer?”. E eu, espantado: “Adoecer? Nunca, jamais”. Mal escondendo a impaciência comigo (até ele), tratou de esclarecer: “Não, vovô. Quando eu vou crescer, ficar grande”. Tive medo de perguntar a razão da pressa e respondi com o que me veio à cabeça: “Quando começar a criar bigode”.

Adolescer, verbo intransitivo, mas com predicados ao sabor do futuro. Queiram os Céus que os dele sejam bons. Ocorre-me, todavia, que isso não é expressão para os sete anos de ninguém. Acho que ele a ouviu de um desses youtubers aos quais assiste, diariamente. Ou, então, acertou o termo por acaso, pois sua preocupação, pouco tempo atrás, era com “envelhar”.

Meu neto tem à disposição a ordem natural da existência: o nascer e o crescer, cada etapa com seu progresso e cada fase com seu nível de maturidade. O que não pode – de início assim pensei – é um sujeito passado dos 70 adolescer, ir na onda de uma juventude a quem, mais dia menos dia, caberá a condução de tudo.

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E esta é uma fatalidade que me traz, ocasionalmente, uma boa dose de preocupação. Ocasionalmente, repito, pois logo percebo que a minha geração e as antecedentes, ou seja, todos nós legamos aos jovens de hoje as imperfeições do mundo. Decerto, estes dos quais ando a copiar o estilo não se sairão de pior modo.

Pois bem, usuário do dito tabuleiro fui buscar na Internet a origem das figurinhas a suspeitar, de antemão, que fossem coisa dos japoneses. Primeiramente, pela sonoridade do termo: e-mo-ji. Depois, porque eles há séculos aprenderam a escrever sem letras.

Não me surpreendeu, portanto, a comprovação da suspeita. Ao que li, o “e” significa “imagem” e o “moji”, letras. A invenção não poderia vir de povos sem ideogramas.

A mesma leitura, porém, me advertiu para não confundir “emoji” com “emoticon”, este último, claramente, coisa dos americanos. Refiro-me aos do Norte.

E acerta quem assim também pensa. Tudo começou no início dos anos de 1980 quando um sujeito chamado Scott Fahlman, a serviço de uma universidade, propôs aos colegas de trabalho o uso, no teclado do computador, dos dois pontos, do tracinho e dos parênteses, tudo emendado, para formar carinhas risonhas ou sisudas, conforme a necessidade. Se a curvatura dos parênteses estiver para a frente :) você terá isso → ☺. Caso contrário, se para trás :( , verá isso aqui → ☹.

Há outros “emoticons” – junção dos termos “emotional” e “icon” – para a criação de carinhas chorosas, piscando o olho, ou soltando beijo. Prefiro o invento japonês que já vem bem acabado e em cores no tabuleiro amplamente disposto à freguesia.

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Os primeiros empregos dos kkk, das mãozinhas com os polegares para cima, ou para baixo, e os das figurinhas tristes ou risonhas, a bem da verdade, me encabulavam. Perdi as vezes nas quais me repreendi por tais usos.

Mas arenguei comigo mesmo até perceber o quanto estava em boa companhia. Um desembargador reagiu a comentário meu com o aplauso de mãozinhas. E aquele outro amigo, cujo texto me mata de inveja, não deixa de me encaminhar sinais positivos, com polegar japonês. Dê um like, sugere o computador. E ele dá.

Então, para que aperreio? Hoje, desavergonhadamente, se preciso for, eu me mato de rir com todos os dentes de uma daquelas carinhas. Ou com elas choro. Uma mágoa, uma dor no peito, costumam me deixar, literalmente, de coração partido.

Adoro mandar corações amarelos. A depender do destinatário, evito os vermelhos, que têm a cor da paixão. Assim, evito confusão e em paz adolesço.


Frutuoso Chaves é jornalista

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